“Diferentemente do que pensa a maioria, prefiro mais ver um clássico entre seleções”. O trecho está na coluna de Tostão, na Folha de 06/02/2012. Tem gente que, diante disso, pega seu lápis vermelho e circula “prefiro mais”. Se assinar uma coluna, aproveita o “tema”. Corrige a construção, repetindo a lição das gramáticas e dos manuais do tipo não erre mais. Ah, claro, muita gente nem nota que aí está uma das formas que aqueles manuais corrigem aos berros. O que pode ser um sinal claro de mudança!

Já o imaginário sobre os linguistas é que eles “aceitam” construções desse tipo (e outras mais, do tipo “nós vai”). Como se “aceitar” fosse um conceito adequado.

O dado é uma boa chance para tentar colocar algumas coisas no lugar (e para nem falar de outras, claro). Uma: as línguas seguem regras; cada uma segue as suas, mas algumas regras ultrapassam os limites de uma língua; talvez haja universais, como sugerem certas teorias.

Outra: línguas variam e mudam; nenhuma língua é falada uniformemente e nenhuma permanece igual com o passar do tempo (é ler e ver).

Mais outra: as variações e as mudanças se devem a motivações diversas; o que explica a queda do “r” dos infinitivos – depois de terem perdido o “e”, que existia no latim antigo, o que dá séries como amare > amar > amá – não explica preferir mais ou ir no campo.

Uma tese corrente diz que uma língua expressa o pensamento. Como é adotada pela maioria das gramáticas tradicionais, vejamos o que acontece com “preferir mais” à luz dessa teoria.

Uma hipótese: “preferir” não precisa de (ou não deve aceitar) “mais”, porque “preferir” já significa “gostar mais”. “Preferir mais” seria a expressão redundante de um pensamento não redundante.

Outra hipótese: os falantes tratam “preferir” como tratam “gostar”; acrescentam “mais” porque esta é a forma que expressa quantidade (que pode ser uma preferência); ou seja, “esquecem” a morfologia e a sintaxe antigas e adotam as “novas”, porque é assim que expressam seu pensamento. Ou seja: não há redundância; o pensamento é o mesmo, embora expresso em outra forma, porque a forma mudou.

É um caso parecido com “suicidar-se”: muitos já disseram que o “se” reflexivo não é necessário, que é mesmo um erro, porque seu sentido já está expresso em “sui”. Como em “preferir mais”, haveria redundância, e redundância seria um enorme pecado (que besteira!). No entanto, a redundância é defendida com unhas e dentes em “os meninos saíram”, que abriga três plurais; numa tradução literal, o inglês teria um só, em “boys”; mas o inglês é bem redundante em “come in / sit down” etc.

Resumo da história: só há uma razão para defender “preferir X a Y” (sem “mais” nem “do que”): a tradição. É um velho costume defender que o passado estava correto e que o presente é o tempo da derrocada dos valores (até que vire passado e fique ótimo). Ou seja, não há nenhum problema em relação ao sentido em “preferir mais” (como não há em “preferir X a Y”, claro).

A única razão para defender que uma construção é correta e outra, errada, é a tradição Bechara chama a esta língua da tradição de “língua de cultura”. Correto, pelo menos em parte: por que só a cultura antiga é cultura? E a nova literatura, nem sempre clássica? E por que não somos tradicionais no caso do e-mail (correio bom é a cavalo!), do cartão de crédito (melhor levar moedas num saquinho), da televisão (coisa boa é futebol pelo rádio)?

E por que dizer, então, que a língua expressa o pensamento?