Um jornal de TV (Jornal Hoje de 18/02) tratou de concursos públicos e deu dicas. Algumas delas merecem comentário.

Uma é a citação contínua dos mesmos exemplos. Dos mais batidos (e que se revela cada dia menos útil) é o da concordância do verbo “haver” no sentido de “existir”.

Reconheço que a estratégia da aulinha, desta vez, até que foi boa. O professor comentou que um dos erros muito comuns é não fazer a concordância verbal exigida quando o verbo e o sujeito mudam de posição. Citou erros comuns, do tipo “Aconteceu diversas coisas”, para dizer que deve ser “Aconteceram diversas coisas” porque “diversas coisas é plural” etc.

Engatou que, no entanto, quando se trata do verbo “haver”, essa concordância não deve ser feita, que se trata de um verbo impessoal, que esse negócio de “haviam muitas pessoas” reprova muita gente etc.

Acontece que as regras de concordância das gramáticas normativas são uma bela bagunça. Há um princípio básico, claro: o verbo concorda com o sujeito em número e pessoa.

Ocorre que há tantos casos excepcionais, que mesmo um especialista se perde (ou repete como papagaio). Há os sujeitos pospostos, as concordâncias ideológicas, as silepses, casos especiais do verbo “ser” etc., sem contar a interferência da distância entre sujeito e o verbo, como reconhecem os sociolinguistas e até mesmo Bechara (desta vez não vou citar; os interessados, que parecem ser muitos, devem comprar a gramática dele – ou alugar – e estudá-la do começo ao fim…).

Vou comentar duas passagens da aulinha do jornal: “haver” com sentido de “existir” e sujeito posposto.

Vamos ser honestos: ninguém mais usa o verbo “haver”, exceto em alguns textos escritos para ocasiões solenes ou para dar uma esnobada, para mostrar que foi à escola, porque é onde se aprende (!) a empregar o verbo. Seria muito saudável que todo mundo aceitasse de uma vez por todas – os concursos em primeiro lugar, porque eles ditam uma política de ensino por apostilas que pedem decoreba – que no português do Brasil se usa o verbo “ter”: “tinha muita gente / tinha muitas pessoas / tinha uma pedra no meio do caminho”.

O pior é que, de tanto haver (!) aulas mal dadas sobre a questão, nas quais, além de estudar aquela regra de concordância, também se aprende (!) que não se deve usar “ter” no lugar de “existir” (mas ninguém acredita), acabou-se por empregar “ter” no plural em casos como “tinham muitas pessoas na praça”. A cabeça humana é um espanto!

O único jeito é acabar com essa aula, nas escolas e na TV. Isto é, parar de exigir português antigo (só por tradição etc.).

Outro caso é o sujeito posposto. Os leitores devem se lembrar de uma aula em que se apreendia uma regra especial de concordância: se o sujeito é posposto e composto, o verbo pode concordar só com o primeiro. O exemplo era sempre o mesmo: “passará o céu e a terra…” (“passará” concorda só com “o céu”).

Ora, esta é uma explicação errada. A regra para este caso é a mesma de “Aconteceram diversas coisas”. O que explica o verbo no singular é só a posposição do sujeito, que ocorre nos dois casos. O verbo “procura” algo a sua esquerda para concordar, não encontra nada, e decide ir para a terceira do singular. Pode ser casual?