Todas as línguas seguem regras. Muitas delas são variáveis, ou seja, há soluções concorrentes em diversos domínios (pronúncias, concordâncias etc.). Algumas línguas são mais rígidas do que outras em cada um destes domínios. Por exemplo, fala-se inglês com muitos sotaques, mas a língua oferece pouca variação no que se refere à ordem das palavras. Neste aspecto, o português tem um pouco mais, o latim tinha muito mais. Há uma relação entre flexão das palavras e ordem sintática. Os casos permitiam que ao latim uma ordem quase livre, mais estilística do que “gramatical”. Um falante do inglês pode fazer muito menos neste domínio.

Quando há disputas entre alternativas gramaticais, a história mostra quando e como as regras variaram, quais formas foram mais valorizadas etc. E pode mostrar a relevância dos contextos. Dou um exemplo básico: um domínio em o português preservou os casos foi o dos pronomes ditos pessoais: eu é a forma do sujeito, me, do objeto direto/indireto, mim do indireto (sempre precedido de preposição – de, a, para…). Ele é a forma do sujeito, o/a do objeto direto, lhe do indireto. Mas a cada dia se oberva um número maior de empregos de eu / ele como objeto direto (vi ele, pega eu (beija eu, oi leva eu, vi ele na rua ).

Se outros casos desapareceram, por que estes seriam preservados? Dizemos “este está aqui” e “vi este anteontem”. Por que não dizer também “ele está aqui” e “vi ele anteontem? É a direção para a qual a língua está indo (um dos nomes de processos como este é deriva).

O contexto é relevante também para outros casos. Um é a regência de certos verbos. “Responder”, por exemplo, pede um objeto indireto para o destinatário da resposta (algumas gramáticas são mais rígidas, outras, menos). A observação não se refere ao conteúdo da resposta (que é um objeto direto = respondeu isso e não aquilo), mas ao destinatário: respondeu ao papa, à pergunta.

Se o destinatário aparece em uma oração adjetiva, a preposição frequentemente desaparece. Vejam dois casos: “São perguntas que não sei responder” (Cony, 86, FSP, 26/2/2013) e “Chegaríamos à enorme lição do Concílio, que os pontificados subsequentes não responderam” (Cândido Mendes, 84, ibidem).

Alguns manuais ensinam simplesmente que, já que se diz “responder ao papa”, seria necessário dizer “a que / à qual não sei responder”. E, pela mesma razão, deve-se dizer “… a que / à qual os pontificados … não responderam”. Observe-se um detalhe: não ocorrem construções como “qual não sei responder / qual os pontificados não responderam”. Ou seja, a queda da proposição só ocorre com que.

Informei propositalmente a idade dos dois autores por uma razão simples: os jovens são, tipicamente, os primeiros a aderir às mudanças. Acompanhados dos falantes menos escolarizados (por isso se diz que é a escola que deve ensinar o português correto). Inversamente, os mais idosos e mais escolarizados são os últimos a aderir (são tecnicamente mais conservadores).

O fato de que esta regência ocorra no texto de um jornalista e romancista de 86 anos e no de um sociólogo de 84 (cujo texto é quase arcaico, como o leitor poderá verificar lendo o artigo completo e tantos outros que escreveu) é um sintoma claro de que a mudança já ocorreu – neste contexto. Alguém poderia dizer que eles quiseram ser informais. Mas por que o seriam apenas em uma passagem de textos “formais”, publicados em páginas “conservadoras” do jornal?

O dado é de outro caso de mudança (exceto em provas escolares e concursos!). Seu autor também é um octogenário culto que, além disso, quanto pode, defende as aulas de sua antiga professora que, para ele, representam o ensino do português correto. Se até ele escreve “se ouvia”, convenhamos, temos um atestado de que a chamada passiva sintética é de fato uma balela. 

Vejam o dado: “O resultado é que, naquela época, se ouvia os foliões cantando o samba…” (Ferreira Gullar, 82, FSP, 03/03). Como se sabe, muitos acham que se deve dizer “se ouviam os foliões”, sob pena de a civilização entrar em colapso.  

Em suma: fatores estruturais, como a função sintática e/ou a posição do material concernido (pronome, oração subordinada etc.) e fatores externos, como a idade e escolaridade dos falantes ou o tipo de texto (mais ou menos formal) condicionam a escolha de uma ou de outra regra.