Juro que esperava reações mais agressivas ao texto da semana passada. Especialmente, achava que muitos deixariam de ler a passagem em que digo que atribuir nota 1000 àquela redação com alguns problemas não seria minha opção. Acho que só um leitor fez isso.

Vou comentar três “discursos” que apareceram nos comentários: erros graves de escrita, a defesa da seriedade e, especialmente, uma questão séria, sobre a dificuldade de ler textos antigos.

Primeiro, os erros de grafia: supostamente, escrever “trousse” (por “trouxe”) seria um erro grave. Editorial da Folha de S. Paulo de sábado citou exatamente esse caso. Não sei se acho grave. Depende de outros achados num texto.

Posso dizer o que faço se textos de alunos meus incluem grafias assim: circulo, assinalo, e deixo que eles corrijam. Aos poucos. Começo a ler seus textos e março, suponhamos, e espero que em junho escrevam melhor. Isso sempre acontece (sou conhecido nos corredores como o professor que pede resenhas).

Aliás, minha descrença nas listas de regras e minha crença nas práticas têm muito a ver com minha experiência de “arrumar” a escrita de meus alunos (melhor: de deixar que eles a arrumem), especialmente daqueles com os quais trabalho mais tempo e mais diretamente (em monografias, dissertações e teses). Posso jurar que é fácil, que nem custa muito trabalho. É só fazer o óbvio. E fazer sempre. Os resultados, em geral, são muito bons.

É claro que há erros mais graves do que outros (errar o nome do país, copiar errado o nome do autor cujo texto se leu é mais grave do que escrever “trouse”: denota desinteresse. O mais importante, do ponto de vista do professor, é conhecer as razões pelas quais certos erros ocorrem, e outros, nunca. Com base neste conhecimento, ele age coerentemente.

Claro, é preciso que haja interesse. Se um aluno trabalhar comigo, se quiser escrever pesquisas, fica claro que deve aumentar seu interesse por textos monitorados. Não me importa como escreve no facebook.

A segunda questão é a exigência de seriedade. Parece que o MEC decidiu punir quem não leva a sério a competição, nos próximos anos. Isso me faz lembrar do futebol: muito técnico, jornalista ou torcedor não gosta de jogadores que não são “sérios” (houve um técnico, conta-se alguns, que queria limitar os dribles do Garrincha).

Não sabemos se os que “brincaram” estavam testando as bancas ou se não queriam ter notas boas (podem não querer carreiras universitárias) ou se tinham brigado em casa e estavam se vingando. Não tenho nenhuma certeza de que deveriam ter sua redação zerada. Achei a correção adequada: foram duramente punidos; perderam metade da pontuação! Como comentei com uma amiga: o país não adota a pena de morte! 

Que falta de humor! Que mania de seriedade!

Finalmente, a questão da leitura de textos antigos. Se bem entendi a intervenção, a tese era que, se não somos rigorosos, se nos afastamos da norma culta, a consequência é que não conseguiremos ler textos antigos.

É claro que o problema é real. Mas a solução também é óbvia: quem quer trabalhar com textos antigos, seja pesquisando arquivos, seja fazendo reedições, vai ter que se especializar. Guardadas as proporções, ler originais do Machado ou jornais de seu tempo (com sua grafia, seu léxico, eventualmente sua sintaxe) é análogo (eu disse “análogo”!) a ler Kant (em alemão) ou Virgílio (em latim). Tem gente que consegue. Mas não se chega a isso apenas sendo “bom” aluno. O investimento tem que ser mais pesado.

Além disso, ler antigos ou estrangeiros é um pouco como ler bulas, votos do Supremo, textos de psicanálise lacaniana, romances como Grande Sertão: veredas. Não é só o texto antigo que está longe da experiência quotidiana. Um contrato de aluguel pode estar ainda mais longe.