Ilustração: Daniel Tagliari

Há quem diga que o povo brasileiro é inculto, sem memória e sem tradição. Que nunca superamos o rodrigueano complexo de vira-latas. Houve um tempo em que nos orgulhamos mais de nós mesmos. Aí vieram os yuppies, o neoliberalismo, etc. e o tal complexo de vira-latas beirou a síndrome de macaquito, esta maldição de que nos acusam nossos irmãos argentinos.

Verdade seja dita, esses complexos atingem mais as classes dominantes. Eles escorrem lenta mas inexoravelmente para as classes médias ascendentes, mais do que entre o povo brasileiro como um todo. Nossa elite branca, como diria Claudio Lembo, sempre morreu de vergonha da miséria de que é causadora. Preferiria viver em Miami. Não podendo, tranca-se em condomínios. E a maioria da população, que vive apesar desta elite, vai achando suas verdades, criando suas tradições e sua cultura, antropofagicamente. Na maioria das vezes, com mais elegância e beleza do que as preconceituosas classes altas.

Para quem se pergunta a razão do parágrafo populista acima, adianto-me em dizer que o assunto aqui não é eleição. Não. É o singelo Rabo de Galo. O coquetel mais pedido do País. Sim, pois, como aperitivo, ganha longe da deliciosa caipirinha pela praticidade, rapidez e preço baixo. Talvez perca, em números, da cachaça pura. Mas aí não é coquetel. É a purinha.

Já ouvi muito bebedor metido a sofisticado dizer que este drink é o pior dos coquetéis do mundo. Ora, se verdade fosse, não estaria tão presente nos balcões. O Rabo de Galo nada mais é do que a apropriação do conceito de coquetel (Cock=Galo + Tail=Rabo) para nosso ambiente. Tanto é assim que a receita de Rabo de Galo varia de região para região.

Na maioria das localidades, o coquetel é apenas uma mistura meio a meio de cachaça e vermute tinto seco, num copo pequeno. Mas as variações são muitas. No nordeste usa-se conhaque (de baixa qualidade) no lugar da cachaça e o conhaque de alcatrão no lugar do vermute. Em São Paulo, graças à influência italiana, o Cynar, um drink à base de alcachofra, aparece frequentemente, também substituindo o vermute. Existe quem use o termo, de maneira confusa, em lugar de Farmacinha, a mistura de todas as bebidas disponíveis no momento. Fiquemos, porém, no Rabo de Galo clássico.

O primeiro e mais importante ponto em defesa do nosso herói é que este não pode ser julgado se não for preparado com matéria-prima de bom nível. Há quem diga que é pecado colocar cachaças de qualidade no preparo destas misturas. Mas há quem responda que uma corrente é tão forte quanto o mais fraco de seus elos. Uma boa cachaça e um bom vermute se combinam às mil maravilhas. Um destilado bom e uma bebida aromática mais fraca é a combinação básica de vários drinks clássicos. Não tem como dar errado.

Segundo ponto: a quantidade. Na maioria dos estabelecimentos, o Rabo de Galo é preparado e servido a olho, na frente do cliente. Quase sempre com movimentos rápidos e às vezes simultâneos. As garrafas são puxadas de uma prateleira ou estão embaixo do balcão. Se o bebedor se distrai com o movimento da rua e perde dez segundos, ele nem enxerga o preparo. O Rabo de Galo se materializa na sua frente miraculosamente. Mas seria este o melhor jeito de preparar o coquetel. Tendo a considerar que a melhor versão leva 2/3 de cachaça e 1/3 de vermute. Imagino que a fórmula tradicional (meio a meio) mascare mais o uso de cachaças de baixa qualidade. Mas com matéria-prima boa isto deixa de ser necessário.

Terceiro ponto: a temperatura. Tenho pra mim que o Rabo de Galo é um coquetel versátil e pode ser consumido na temperatura ambiente, quando o clima for frio. Mas ganha muitos pontos se preparado com as bebidas previamente geladas ou com pedras de gelo. Ou ainda usando uma coqueteleira com gelo, à maneira de um dry martini, para depois coar no copo.

Claro que, de acordo com o seu gosto, vale experimentar o grau de doçura e/ou amargor do acompanhante da cachaça. Pode-se variar de um vermute tinto doce até um fernet ou ainda acrescentar umas gotas de angostura. Outra experiência interessante é testar cachaças envelhecidas no lugar das brancas.

Se preparada seguindo as orientações acima, esta criação popular brasileira, um verdadeiro símbolo líquido das idéias de Oswald de Andrade, não deve nada aos drinks aperitivos mais clássicos, como o Negroni ou o Manhattan, sorvidos nos mais requintados bares do mundo. Se duvidar, prepare as três receitas abaixo e compare.

RABO DE GALO

6.0 cl de cachaça
3.0 cl de vermute tinto
Despeje num copo old fashioned (opcionalmente cheio de gelo). Mexa gentilmente.

NEGRONI

3.0 cl de gim
3.0 cl de Campari
3.0 cl de vermute tinto doce
Despeje num copo old fashioned cheio de gelo. Mexa gentilmente.
Decore com uma fatia de laranja.

MANHATTAN

5.0 cl de Rye or Canadian whiskey
2.0 cl de vermute tinto seco
1 gota de Angostura
Despeje os ingredientes numa coqueteleira com muito gelo. Mexa bem e coe num copo de martini. Guarneça com um pedaço de cereja em compota.

Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

Fale com Mauricio Tagliari: mauricio.tagliari01@terra.com.br

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