Ao sul de Mendoza, na Argentina, a pequena cidade de San Rafael concentra algumas experiência interessantes e variadas de enologia. Desde um projeto arrojado imobiliário, no qual o proprietário de um lote pode fazer seu próprio vinho, como a Algodon, até a tradicionalíssima Casa Bianchi, conhecida dos brasileiros com seu pioneiro Don Valentin Lacrado, um dos primeiros cases de sucesso do vinho argentino no Brasil. Mas também uma filial da bodega Lavaque, original da região de Cafayate, bem mais ao norte, ou a novíssima Funkenhausen.

San Rafael sofre com granizo, seus vinhedos quase sempre contam com alguma tela de proteção. Na oportunidade em que lá estive presenciei um tempo inclemente, com muito vento, mais chuva do que o esperado e, sim, granizo. A Algodon mantém uma bodega pequena e simples. Foi sob uma tempestade, ao aconchego de uma lareira, que provamos um chardonnay 2011 e um bonarda 2009. O branco era leve, seco e elegante, com toque de maçã e mel. Curto, porém. O Bonarda tinha aroma apimentado e frutado. Seco, firme e de boa acidez. Ao que sei, ainda não é importado para o Brasil.

A Funkenhausen é fruto do sonho de um empreendedor portenho alienígena ao mundo do vinho. Tem lindos e bem cuidados vinhedos novos, irrigados, e seus rótulos levam um nome que demonstra a ansiedade de um peixe fora d'água, apesar de ter aguardado parcos 2 ou 3 anos pela primeira produção, uma fração de existência no mundo do vinho: La Espera. Esta ansiedade não atrapalhou em nada. Graças a agrônomos e enólogos talentosos e conscientes, sua jovem linha expressa muito bem castas e terroir. Dos varietais de cabernet franc, syrah, cabernet sauvignon e malbec, destaco o La Espera Syrah 2007, cor rubi brilhante, aromas intensos de goiaba e ameixa, encorpado, de taninos firmes, seco e de acidez delicada. Na boca, frutas vermelhas intensas e muita persistência. Seu corte malbec e cabernet sauvignon 2007 também se destaca. Vamos prestar atenção neste produtor.
 

O outro destaque positivo em San Rafael foi ter descoberto a linha popular Rio Seco da Lavaque. Importado com exclusividade para o Brasil pelo Walmart, seus vinhos básicos estão com preço abaixo de R$ 10. Parece milagre? Seus malbec, bonarda e cabernet sauvignon sem nada de madeira são limpos e honestos. Seus reserva, com as mesmas castas e mais um pinot noir, estão abaixo dos R$ 20.

O vinhedo de pinot noir, enorme, visto da sala de almoço, era irresistível. Num passeio a pé entre as videiras me perguntava o que pensaria um produtor da Borgonha ao ver estes pés de vinha com mais de 60 anos, bem cuidados, produzindo tal vinho barato. Provavelmente imploraria para cuidar e vinificar um pedacinho daquela terra.