O papa renunciou numa segunda de Carnaval! Quanto simbolismo! Que ruptura! Nada que me afete. Sou ateu convicto apesar de minha formação de juventude num colégio jesuíta. Mais do que ateu, sou muito crítico às religiões organizadas. É difícil contabilizar, mas provavelmente mais mal se fez em nome de um "ser superior" do que por qualquer outra ideologia na história da humanidade.

As religiões adâmicas e todas as suas ramificações tendem a ter seus momentos ferozes. Talvez hoje a vertente de Roma seja até uma das mais esclarecidas. Radicais muçulmanos e cristão-evangélicos ainda combatem violenta e intolerantemente por todo o paralelo 10 da África, Ásia e Oceania. Judeus e palestinos trocam gentilezas na Terra Santa. O ser humano e suas convicções…

Conheço gente que tem um certo medo de vinhos. Não de seus efeitos inebriantes. Mas de encará-lo e apreciá-lo com liberdade. Acham complicado. Um amigo, notório apreciador de boa cerveja, fica tímido e, apesar de gostar, evita tomar conhecimento dos segredos do vinho. Num jantar recente, ficou impressionado ao saber que quando dizemos "aroma de flores brancas" ou  "frutas vermelhas" isto não significa que haja um acréscimo de certas substâncias ao líquido ou, mais sutilmente, que haja plantações destas espécies perto do vinhedo. Que é apenas a linda bioquímica do suco de uva fermentado. No entanto, não teve dificuldade alguma em perceber a acidez, os taninos e os aromas terciários, quando comentados e explicados. Será que abalei suas convicções?  

Convicções, dogmas, certezas, paradigmas! Outra  coisa que me intriga é conhecer pessoas inteligentes, sofisticadas e eruditas carregando fé inabalável e convicções teológicas arraigadas. Não falo de rednecks que creem no tosco design inteligente. Estes, eu incluo entre os radicais maléficos, assim como o taliban.  Mas, principalmente entre católicos europeus e americanos, há um certo movimento silencioso no sentido de flexibilizar os dogmas e adaptar a ideologia ao conhecimento científico do mundo moderno, numa busca por um "deus pessoal" e por um código moral compatível,  em parte sob influência de uma cultura new age, que adaptou também o budismo e religiões xamânicas. Uma coisa tipo "respeito a tradição, mas sejamos razoáveis"…

Mas e o papa? Não é que em plena festa pagã o santo padre nos prega esta peça? Claro que ele deve ter seus motivos, seu direito de dizer "afasta de mim este cálice". Mas estamos acostumados a ver o papa morrer e ser substituído depois de os cardeais soltarem aquela fumacinha branca. Há especulações sobre os reais motivos do cardeal Ratzinger. Surge, aqui e ali, a ideia de que, no fundo um erudito sofisticado, ele não tinha mais forças para defender aquilo em que não podia mais crer.

Ratzinger, dizem, é abstêmio. Não sei como isto pode ser possível, se o padre deve beber o vinho, símbolo do sangue de Cristo, na liturgia da missa. Mas se ele "pediu para sair" na segunda de Carnaval espero que, simbolicamente ao menos, em um mundo de Merkel, Dilma e Obama, a escolha quebre o paradigma europeu. Isto é, que venha um papa não europeu. Afinal, paradigmas estão aí para serem superados.

E já que falamos de carnaval e paradigma, sem entrar no mérito da estratégia, aplaudo a iniciativa de levar o vinho às passarelas do samba. O enredo da paulistana Vai Vai homenageou o vinho do Brasil. Me pareceu um desfile bonito. Não consegui gostar da música, com sua letra confusa, como são quase todas as letras de escola de samba nos últimos 20 anos. Que saudades de Silas de Oliveira! Mas o importante é que o tema chegou a uma festa e a uma plateia tradicionalmente cervejeiras.


Numa ação interessante, foi escolhido em degustação oficial às cegas, realizada no ano passado na quadra da Escola de Samba Vai Vai, em São Paulo – com especialistas brasileiros e a comunidade do samba – o Saint Germain Branco Suave da Vinícola Aurora como o vinho oficial do Carnaval 2013, na categoria "branco aromático".

Envasado em caixinhas tetrapak especialmente criadas para esse evento do vinho brasileiro na avenida, este "suave" no nome indica que tem um paladar adocicado, que busca cair no gosto mais popular, acessível aos neófitos das diferentes classes sociais. Docinho, fresco e levinho. Sem complicação ou profundidade. Nessa embalagem tetrapak especial, o vinho seria vendido a preços promocionais (R$ 4,99) nas arquibancadas do Sambódromo paulistano durante os dias de desfile de Carnaval na capital paulista, disputando espaço com a até então onipresente cerveja.

Seria, eu disse. Infelizmente, a ação precisou ser cancelada, ao que parece, por conta de uma lei da cidade paulista que limita o tipo de bebida permitido para a venda nessas embalagens. Caso o produto fosse comercializado no Anhembi, os responsáveis poderiam ser multados em até R$ 2 milhões. Parece que o paradigma não foi quebrado desta vez…

Apoio toda iniciativa para democratizar o vinho. Ainda que preferisse a opção espumante brut para uma ocasião como esta. Se houvesse carrinhos de espumante brut nas praias, assim como há vendedores de picolé, de mate e queijo de coalho, se templos e igrejas não tivessem isenção tributária, e o vinho tivesse, o verão e o mundo seriam bem mais interessantes.