Hoje faz 130 anos que Karl Marx, o monstro, o diabo, o mouro, o judeu, o pai do socialismo, o sonhador pai dos pobres, o beberrão, o rato das bibliotecas britânicas, o estudioso que previu as crises cíclicas do capitalismo a nos assolar constantemente  morreu, pobre, em Londres.  

Talvez o leitor saiba que Marx era filho de um advogado judeu convertido por razões políticas ao luteranismo, por sua vez proprietário de alguns vinhedos no início do século XIX. Sim, Marx e vinho não são assuntos tão distantes.

Os vinhedos ficavam em Viertelsberg, um terroir de qualidade, dizem, mediana, perto do castelo de Gruenhaus, atualmente conhecido como Carl von Schubert’s Maximin Grünhäuser. Hoje o Weingut Erben von Beulwitz produz um Spaetburgunder (Pinot Noir) com um rótulo em homenagem ao mais ilustre filho da velha Trier. Ao que parece não é realmente originário dos velhos vinhedos da família, em Mertesdorf, vendidos em 1857, mas de terrenos próximos. Não provei. Fica, porém, a dica ao turista que passar por lá.

A situação dos vinhateiros do Mosel foi um dos temas que chamou a atenção do jovem Karl para a desigualdade social e as dificuldades do povo diante da dura posição dos governos prussianos. Bom copo que era, sendo inclusive presidente da Trier Tavern Club Drinking Society quando estudou na University of Bonn, Marx era sensível ao drama dos produtores diante da inclemência do tempo, dos banqueiros e dos coletores de impostos.

Numa série de artigos, desafiou a censura e criticou a falta de apoio aos produtores de vinho, o que o levou ao seu primeiro exílio em Paris, onde conheceu Engels, depois  Bélgica e mais tarde Inglaterra. Ao que parece, as veleidades poéticas e as bebedeiras do jovem Marx foram abandonadas e seu interesse por política e economia começaram justamente por causa do vinho.

Casado com a bela Jenny, passou por dificuldades e viu filhos morrerem enquanto escrevia sua tão mencionada, comentada e pouco lida obra-mestre, O Capital. Imagino que deva ter sentido saudade do doce néctar da sua terra na fria Londres. Quantos copos de uísque barato e gim deve ter sorvido para se aquecer e esquecer a fome nas madrugadas sob fraca luz de vela. Numa época em que o Estados Unidos da América ainda eram vistos como fonte de esperança, foi um missivista ativo com Abraham Lincoln, reeditando um tipo de conexão do passado entre presidentes americanos e pensadores progressistas europeus.

Mesmo que suas ideias tenham sido tão desvirtuadas, manipuladas e sua influência titânica tenha definhado, ergo hoje um brinde ao defensor dos vinicultores. Prost, Karl!