Parem as máquinas, tirem as crianças da sala. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgou nesta semana pesquisa realizada em 158 países, com apoio do Instituto Gallup, sobre o índice de felicidade da população. Segundo o estudo, o brasileiro é o povo mais feliz do mundo, enquanto os habitantes da Síria são os menos felizes.

Bem, não há qualquer dúvida que o brasileiro médio, com mais de 8 mil quilômetros de praias na costa, país em crescimento, com boa oferta de emprego, futebol na TV, carnaval quatro dias por ano tende a ter mais alegrias que um cidadão vivendo sob a ditadura de Bashar Al-Assad, permanentemente ameaçado por bombardeios. Essa comparação é fácil. Difícil é qualificar o Brasil como mais feliz. É algo tão subjetivo que dizer que a média da expectativa de futuro (de 1 a 10) ter chegado a 8,56 para os brasileiros e a 8,98 para mulheres não significa absolutamente nada.

Pergunta: algum entrevistado passa duas horas por dia trancado no trânsito de São Paulo? Alguma entrevistada mora na Baixada Fluminense e trabalha de doméstica na Zona Sul do Rio? Algum entrevistado corta cana no Nordeste? Alguma feliz brasileira pega transporte coletivo para ir de uma cidade-satélite até Brasília, sob um sol escaldante?

Curioso a FGV dar aval a pesquisas do gênero. Como definir que o cidadão brasileiro é mais feliz que o panamenho, o costarriquenho e o colombiano -que ficaram nas posições seguintes?

Verdade que o Brasil tem fama de ser feliz, de ter um povo alegre, mas essa é a típica pesquisa que terá resultados absurdamente antagônicos dependendo do entrevistado. Tanto no Brasil como em qualquer outro país. Como é possível medir felicidade?

Sabe o Uruguai, aquele país vizinho, onde não há trânsito, a carne e a cerveja são da melhor qualidade e o ensino básico é o melhor da América Latina? Pois os uruguaios ficaram na 46ª posição. Isso que venceram a Copa América do ano passado!

Nada contra pesquisas, mas é preciso saber para que se pretende ter seus resultados. Pesquisas não revelam novidades, podem, no máximo, dar aval a alguma decisão já tomada. E mesmo se o resultado de uma pesquisa for contrário a alguma ação, não quer dizer que não se deva fazer isso ou aquilo.

O Google foi uma invenção de dois jovens – um russo e um americano. Nenhuma pesquisa indicava a necessidade de um site de busca tão potente. Se alguém fizesse uma pesquisa na época, o AltaVista apareceria como site de busca preferido – e definitivo. Hoje o AltaVista é um subproduto do Yahoo. E o Yahoo? Vive em função de seu e-mail, não das buscas. Alguma pesquisa indicou a criação do iPad ou do iPhone? Não, os gadgets que conquistaram o mundo foram invenções sem pesquisa da equipe de Steve Jobs na Apple.

A FGV garante ter entrevistado 200 mil pessoas em 158 países. Seria bom utilizar essa linha de comunicação com 200 mil cidadãos do mundo para algo mais útil do que o índice de felicidade. Quem quer a Copa no Brasil? O que você acha da invasão americana no Afeganistão? Falkland ou Malvinas? Hugo Chávez é confiável?

Só que agora a pesquisa já está pronta. Viva a felicidade!