Antes de mais nada, peço licença para escrever em primeira pessoa. Vivi o drama que conto abaixo e como versão de testemunha a história fica melhor de ser entendida.

 

Cidade do México, 20 de outubro de 2000 – 5h da manhã

Acordo com um barulho ensurdecedor de helicópteros. Estou hospedado a meia quadra do Paseo Reforma, principal artéria da megacidade. O ruído no melhor estilo Apocalipse Now quase invade meu quarto de hotel. Não, não é um sonho. Levanto e olho pela janela. Ainda não amanheceu, mas apesar da escuridão é possível enxergar luzes de quatro helicópteros, parados no ar a não mais que 500 metros em linha reta de minha janela. A curiosidade é maior que meu sono. Ligo a TV e vejo a cobertura de uma tragédia. Fogo na discoteca Lobohombo, a maior da América Latina, segundo o repórter. Não são necessários 5 minutos para entender que há mortos. E que ali está uma grande história.

Coloco uma roupa e rapidamente estou na rua, caminhando em direção aos helicópteros. Foi fácil chegar lá, acompanhado dos primeiros raios da manhã. A polícia e os bombeiros tentam organizar a situação, mas não impedem que eu me aproxime da porta principal e veja corpos e mais corpos. O IML mexicano é rápido em ensacar cada um dos cadáveres. Um saco preto com zíper no meio. Há muita gritaria, gente procurando familiares, xingando o staff da discoteca, que permanece ali. Não há mais fogo, só fumaça. Muita fumaça. E água no chão. Faz frio na Cidade do México, mas o calor do incêndio provoca suor.

Procuro conversar com assustados frequentadores do local, que escaparam por pouco, e logo descubro alguns horrores. Apesar do incêndio, as saídas de emergência foram fechadas por ordem da gerência. Os seguranças exigiam a comanda paga para permitir que a multidão saísse do local. O DJ ainda tentou acalmar a clientela, afirmando tratar-se de um pequeno incêndio "já controlado" e pediu que todos permanecessem no local. Mas o curto-circuito calou o DJ.

Fiquei muito impressionado e mal pude tomar café da manhã três horas mais tarde, já no hotel outra vez. Tentei contar tudo ao colega espanhol que permaneceu dormindo apesar do barulho dos helicópteros. Estávamos no México para prestar consultoria em um grande jornal local. Com rápidos rabiscos em uma toalha de papel bolamos a cobertura que ao final do dia se tornou realidade em 5 páginas do jornal. Conteúdo de alta qualidade para contar a tragédia que matou 22 pessoas.

Ontem dormi a 250 quilômetros da tragédia. Não escutei os helicópteros. Mas quando acordei, ao saber da catástrofe de Santa Maria, lembrei de cada minuto daquele dia no México. Uma experiência que nunca mais pensei viver outra vez, muito menos no Brasil.

Na tragédia do Lobohondo ficou provado que a responsabilidade foi de quem permitiu o funcionamento da discoteca com alvarás provisórios, que se renovavam milagrosamente. Também se atribuiu culpa aos gestores do negócio, que fecharam deliberadamente as portas de emergência e ainda dificultaram a saída dos clientes.

Apesar disso, ninguém foi punido. As manobras judiciárias se encarregaram de apagar as 22 vítimas.

Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Só que em Santa Maria morreram cerca de 250 pessoas.