O carro da Brigada Militar (a PM de Porto Alegre) estaciona dois metros à frente de uma gigantes placa de "Proibido Estacionar", quinta-feira às 13h. Saem de dentro quatro brigadianos devidamente uniformizados – três homens e uma mulher. Eles não estão atendendo a uma chamada, nem defendendo a segurança pública. É hora do almoço e o carro está em frente a um popular restaurante de um bairro nobre da cidade.

Os quatro entram no restaurante. Simpáticos, cumprimentam os funcionários e entram na fila da comida. Servem-se como quem está com muita fome e ainda pegam latas de refrigerantes. Comem, cumprimentam outra vez os funcionários e vão embora sem pagar.

O fato de cobrar ou não dos policiais é uma decisão do dono do restaurante. Verdade que há sempre um aviso: "se houver qualquer problema de segurança por aqui ligue para a gente". Esse aviso não deveria vir anexado aos pratos de comida grátis, afinal trata-se de uma obrigação da BM proteger o cidadão e a sociedade.

A prática de se oferecer comida sem custo a policiais militares é tão antiga que virou mania. Mas é imoral. O almoço grátis não pode ser o pedágio para a segurança do local. Significa, então, que o restaurante que quiser cobrar do PMs, como se cobra de médicos, engenheiros, jornalistas e corretores de imóveis, terá menos segurança do que os que oferecem a comida? Ou quem sabe a Polícia se negará a atender um chamado dos restaurantes que "não colaboram"?

A sociedade, sem se dar conta, abençoa a ilegalidade cotidiana. Sem discutir essa prática, ela a aceita. 

Na rua o carro para em local proibido, onde a fiscalização multa com peso na conta bancária e pontos na carta o cidadão comum que ousar estacionar ali. Nenhum problema para carros em serviço estacionarem onde não se deveria. Mas, de novo, carros em serviço, não em horário de almoço.

Os pequenos delitos que a sociedade observa em silêncio – e colabora – são o início do fim da cidadania. Oferecer propina a um fiscal de trânsito prestes a fazer o teste de bafômetro e confirmar embriaguês é delito. Deixar a sujeira do cãozinho na rua é delito. Parar o carro em local proibido "só por um minutinho" é delito. Oferecer comida grátis a policiais tentando obter vantagens com isso também é delito.

Se a sociedade não interromper essas práticas, será cada vez mais comum assistir Renan Calheiros tomando posse na presidência do Senado, por exemplo. O país só vai mudar se o comportamento do cidadão mudar também.

 

PS: Retirei a identificação do carro para que os policiais não sejam descobertos e sofram represálias. A prática é comum a toda corporação. Não será punindo um grupo que o problema estará resolvido.