Antes do desembarque no carnaval de Salvador para circular em campanhas mal disfarçadas pelos camarotes e blocos mais fechados e bem frequentados por políticos, empresários, governantes e celebridades da Bahia e do País, aqui vai um lembrete: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (ela já passa este sábado na folia baiana), presenças anunciadas nos circuitos da festa, deviam reservar um tempo para leitura atenta da entrevista do historiador Cid Teixeira à revista digital Terra Magazine esta semana.

Não se imagine um exercício intelectual e informativo recomendável apenas para candidatos à presidência e seus assessores políticos ou marqueteiros. A conversa do professor Cid com o repórter de TM, Cláudio Leal, com a participação especial do antropólogo da UFBA, Roberto Albergaria, é aconselhável para muito mais gente. Aula primorosa sobre poder no Brasil, política, Bahia e baianos para qualquer pessoa, essencial a quaisquer candidatos – o socialista Ciro Gomes (PSB) e a verde Marina Silva, inclusive.

Começa na apresentação do entrevistado aos leitores: achado digno de referência em termos de concepção de texto jornalístico, com contextualização perfeita e de imediato entendimento ( fora das divisas baianas), do perfil e da dimensão de Cid Teixeira em sua província e o elevado conceito que o intelectual desfruta no meio de seu povo. Abre aspas:

“Um homem avista o casarão arruinado, no Centro de Salvador, e decide parar o carro, para contemplar os adornos. Ao lado, um mestre de obras. Malemolente, encostado no tapume, ele vê o estranho sondar os desvãos do prédio em caquinhos.

– O que era isso aí?

E o operário responde:

– Não sei. Por que o senhor não pergunta ao professor Cid Teixeira?”

Fecha aspas e pausa para breve recordação:

Houve um tempo na Bahia – e não faz tanto tempo assim – em que qualquer dúvida mais intricada sobre religião, cultura, história, arte, política, futebol ou governo, ia bater nas portas de dois endereços: o Palácio Arquiepiscopal do Campo Grande (vendido e transformado em prédio de alto luxo chamado agora de “Solar dos Cardeai”), onde morava o cardeal Primaz do Brasil, Dom Avelar Brandão Vilela; ou na porta da casa do professor Cid Teixeira.

Nas redações dos jornais locais e sucursais dos grandes diários do País – incluindo o Jornal do Brasil, onde eu então trabalhava -, nas reuniões de governos, nas associações empresarias e até nas discussões de rua era comum ouvir-se quando a dúvida insuperável se estabelecia: “Liga para esclarecer com Dom Avelar”. Ou o mais comum ainda hoje : “Liga e tira a dúvida com o professor Cid”.

Para saber mais sobre este homem, voltemos a Terra Magazine:

“Oitenta e cinco anos, a picardia dos séculos nos olhos em losango, o historiador Cid Teixeira ganhou o reconhecimento dos anônimos no programa radiofônico “Pergunte ao José”, no qual respondia a dúvidas sobre a história de Salvador e da Bahia. A simplicidade de seus relatos, sem espezinhar o vernáculo, revelava um humanista, um leitor de crônicas históricas e da literatura universal.

“O folclorista Câmara Cascudo se definia como ‘erudito de província’. E talvez Cid José Teixeira Cavalcante, nascido em 11 de novembro de 1924, seja também uma ave dessa espécie, pela despretensão da conversa e pela autoridade de intelectual à margem das vaidades acadêmicas. O romancista Jorge Amado o descreveu em “Bahia de Todos os Santos” com essa roupagem de historiador a serviço do povo, da divulgação da história ao homem comum”.

Perfeito, é a cara do entrevistado!

Afastado dos jornais, das salas de aula e dos estúdios das rádios (chegou a ser editor-chefe da Tribuna da Bahia), o professor Cid Teixeira, como revela TM, vive “a tragédia de ficar viúvo”, com todo mundo querendo indicar uma nova companhia feminina para ele. Mas segue firme: mantém seu vozeirão inconfundível, “suas leituras e a memória do cotidiano minúsculo, porém essencial para compreender a formação do povo baiano – e, claro, o brasileiro, já que as desordens nacionais nasceram na cidade do poeta Gregório de Mattos”.

Um exemplo emblemático? Voltemos a Terra Magazine e à entrevista do professor Cid.

“Doce e maledicente, como o bom baiano deve ser, Cid Teixeira identifica a vocação regional para o vira-casaquismo (fenômeni que também horrorizava o o falecido deputado autentico Chico Pinto), uma arte derivada do chaleirismo, hoje disseminada de Brasília à Cidade da Bahia, com ganhos para todos os lados”.

– Não havia revolucionários em 1930. Quando a Revolução ganhou, acabou-se o estoque de pano vermelho nas lojas. Porque todo mundo estava de lenço vermelho nos pescoços, todos viraram revolucionários – conta Cid Teixeira.

E mais não digo para não tirar o prazer da leitura integral da ótima conversa do repórter de TM e do antropólogo da UFBA, com o magnífico professor Cid Teixeira, mestre em Brasil, Bahia e baianos.

Alegre carnaval a todos.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta ( http://bahiaempauta.com.br/).

Fale com Vitor Hugo Soares: vitor_soares1@terra.com.br

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