Djavan e a trilha sob medida para a era Joaquim Barbosa
 
 
 
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 Estava indeciso quado a cerimônia começou, mas a presença do cantor e compositor Djavan, na grande e expressiva festa de quinta-feira (à tarde e à noite no Planalto Central), me oferece de súbito a solução para a dúvida que me assaltava naquele  momento histórico: a escolha da melhor e mais apropriada trilha musical para ornamentar as linhas deste artigo semanal, sobre a posse do ministro relator do processo do Mensalão, Joaquim Benedito Barbosa Gomes, na presidência da Suprema Corte de Justiça do Brasil.
 
 Sou daqueles convencidos de que grandes e significativos momentos da história de um país pedem grandes canções. Assim como nas trilhas sonoras de filmes marcantes ou das grandes novelas de TV. Em geral, acompanhando ou fazendo a marcação dos passos, palavras, ações e reações de personagens fortes e emblemáticos.
 
 Diante do aparelho de televisão, em Salvador, acompanho a chegada da presidente Dilma Rousseff , com atraso “e cara enfezada” (como se diz lá no meu sertão do Vale do São Francisco). Vacilo entre duas canções para a minha trilha.
 
 Uma delas, “Tanto Mar”, que Chico Buarque de Holanda escreveu, há décadas, para celebrar com os lusitanos, do outro lado do oceano, a Revolução dos Cravos que mudou a face de Portugal e reapresentou a nova cara e novo jeito de Lisboa para o mundo.
 
 Enquanto o estalo não vem, sigo o bailado nervoso da gente do cerimonial para acomodar as coisas e as pessoas em seus devidos lugares. É a dança sutil dos emblemas e signos do poder, complicada e sempre sujeita a “ruídos de comunicação”, como alertava  o mestre da teoria e da prática do jornalismo brasileiro, Juarez Bahia, quando no comando da Editoria Nacional do Jornal do Brasil, antes da precoce e inesperada partida.
 
 A lembrança de Bahia não é casual neste artigo, esclareço. Tem muito a ver com a incrível semelhança – física, de caráter, de comportament e história pessoal de vida –  do notável homem de comunicação nascido na baiana Feira de Santana, e o magistrado de Paracatu, interior de Minas Gerais, centro e razão das comemorações desta semana na capital do País. Obra e imagens de Juarez Bahia andam espalhadas por aí, além da memória dos que o conheceram de perto e o admiram. Quem quiser, basta conferir. Sugiro a Internet.   
 
 Na tela da TV segue o bailado no palácio do STF. Observo a pluralidade raramente vista em tamanha dimensão, e com tal amplitude, em cerimônias do gênero: o movimento dos personagens principais e dos coadjuvantes misturados no plenário e no grande salão do STF: artistas, juristas, magistrados, convidados estrangeiros, celebridades de todo tamanho e qualidade, circulando entre “gente comum”. Sintetizando tudo, a emocionante presença de dona Benedita, mãe do ministro empossado, cheio de carinhos e cuidados.
 
 Quase inacreditável, mas muito bonito de ver. No canal fechado de TV Globo News, em que estou sintonizado,  uma comentarista destaca a grande  participação de artistas que se deslocaram de seus afazeres para comparecer à posse do ministro Barbosa. Entre os nomes, ela cita o cantor e compositor alagoano Djavan (de antigas e profundas ligações com Brasília) e eu grito: “Eureka!”.
 
 A trilha musical para esta data e esta festa  está escolhida: “Linha do Equador”. Canto, imaginariamente, trechos da letra e da melodia de uma das mais belas composições de Djavan. Separo, copio e colo com o mouse, o trecho que considero mais simbólico e expressivo nas linhas deste artigo semanal de opinião.
 
“Céu de Brasília / traço do arquiteto/ gosto tanto dela assim/gosto de filha, música de preto / gosto tanto dela assim / essa desmesura de paixão/ é loucura do coração / minha foz do Iguaçu/ polo sul, meu azul / luz do sentimento nu / esse imenso, desmedido amor / vai além de seja o que for/ vai além de onde eu vou/ do que sou, minha dor / minha linha do Equador”
 
Que palavras melhores alguém poderia escolher para a trilha musical do ministro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, na tarde  histórica de quinta-feira, 22 de novembro de 2012, em que um negro de 58 anos de idade, nascido em área rural e pobre de Minas Gerais, assumiu pela primeira vez a presidência da Corte Suprema do Brasil?  Seguramente, só as palavras do próprio novo presidente do STF, em trechos do memorável discurso que ele pronunciou no ato da posse:
“É preciso ter a honestidade intelectual para reconhecer que há um grande déficit de Justiça entre nós. Nem todos os cidadãos são tratados com a mesma consideração quando buscam a Justiça. O que se vê aqui e acolá é o tratamento privilegiado”…
 
“O juiz deve, sim, sopesar e ter em conta os valores da sociedade. O juiz é um produto do seu meio e do seu tempo. Nada mais ultrapassado e indesejado do que aquele juiz isolado, como se estivesse fechado em uma torre de marfim”.
 
“Não se pode falar de instituições sólidas sem o elemento humano que as impulsiona. Se estamos em uma casa de Justiça, tomemos como objeto o homem magistrado. O homem magistrado é aquele que tem consciência de seus limites. Não basta ter formação técnica, humanística e forte apelo a valores éticos, que devem ser guias de qualquer agente estatal. Tem que ter em mente o caráter laico da sua missão constitucional (para que) crenças mais íntimas não contaminem suas atividades."
 
"É hora de expurgar tudo o que vem de fora da essência da Justiça, que distorce sua natureza e a desvia de seu fim. Da bajulação à corrupção e à falta de ética. Menos firula e mais eficiência"
 
Bem-vindo, Joaquim!!!
 
Vitor Hugo Soares é jornalista- E-mail: vitor_soares1@terra.com.br