Às vésperas da presidente Dilma Rousseff desembarcar na Base Aérea de Salvador, no habitual  período do "descanso de fim de ano", dos ocupantes do Palácio do Planalto (desde Fernando Henrique Cardoso ), na incrível e privativa praia de Inema, assessores em Brasília informaram ao distinto público: além de estar ao lado dos familiares que a acompanhariam na viagem, a presidente iria dedicar-se apenas à leitura de alguns livros levados na bagagem.

Não é fácil enxergar o que acontece de fato em Aratu. Nem mesmo ao ar livre na praia de areias cristalinas entre o mar de água azul turquesa, como as destes dias ensolarados do verão baiano, e o pedaço do que ainda resta preservado da luxuriante Mata Atlântica. Esta, a mata em sua flora e fauna, vítima nos últimos anos de um dos mais predatórios ataques de sua existência de atentados históricos desde o Descobrimento em 1500.

Desta vez, fruto principalmente da selvageria da ocupação imobiliária consentida (ou pretensamente legalizada) até os últimos dias da administração do prefeito João Henrique. Com vistas grossas e complacência dos órgãos ambientais do Estado e da União, diga-se a bem da verdade.

O novo prefeito, ACM Neto (DEM), assumiu prometendo “um basta ao abuso” e a revisão de parágrafos e itens malandros do PDDU, o código de desenvolvimento urbano reformulado e aprovado altas horas da madrugada pala Câmara de Vereadores da terceira capital do País, no último dia do governo JH.

Agora é esperar uns dias ou um tempo, e conferir. É preciso verificar se a fala de Neto é “pra valer”, ou mais um desses exercícios retóricos tão comuns em começo de governo na terra de Gregório de Matos e Rui Barbosa, que se atira na lata do lixo da primeira esquina que aparece, depois da posse.

Mas o tema principal destas linhas é a mais recente passagem de Dilma Rousseff pela Base de Aratu. Visita encerrada abruptamente no começo desta semana, com um dia de antecedência em relação ao tempo inicialmente previsto, para que a presidente pudesse estar presente na reunião de cúpula anual do poder em Brasília.E, assim, ver bem de perto o estranho, misterioso e complicado bailado de seu governo na área de Minas e Energia, conduzida pelo imponderável ministro Edison Lobão.

Voltemos então ao pedaço de mar da Base Naval de Aratu, para não perder o rumo em meio aos caminhos intrincados (e intrigantes), cheios de desvios em Salvador, na Bahia e no Nordeste, destes dias iniciais de 2013. De saída, assinalo o que pode parecer indesculpável descuido jornalístico ou falta de informação. Mas a verdade é que desconheço registro ou depoimento de alguém ou de algum veículo de comunicação, com credibilidade, em que esteja demonstrado, factualmente, o contato da presidente da República com algum livro por estes dias. Um romance, um exemplar de não-ficção, uma publicação de poesia, uma biografia qualquer, que ela tenha lido, ou ao menos passado a vista na Bahia.

Nem mesmo o formidável exemplar de “Marighella, o Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, narrativa primorosa do jornalista Mario Magalhães que, no País atualmente dividido em quase tudo, além do Fla x Flu, consegue uma impressionante quase unanimidade de aprovação e elogios de leitores e críticos para seu trabalho literário e de pesquisa. Merecidamente, acrescento.

O que é certo, porque vastamente documentado em relatos diversos (públicos e de bastidores) e em imagens sugestivas (por exemplo, o passeio de três horas em recantos de beleza rara da Baia de Todos os Santos,  a bordo da portentosa lancha da Marinha, ao lado do governador e companheiro de partido Jaques Wagner), é que a presidente Dilma dedicou boa parte do tempo da sua estada em Inema à costura.

Esclareço, antes de algum eventual desmentido: A costura referida nestas linhas não é aquela prosaica atividade antes praticamente restrita às mulheres diante de suas vigorosas e duráveis máquinas “Singer” ou “Elgin”, presentes em tantos relatos históricos e romances brasileiros. Aqui se fala de “costura política”. Atividade que virou febre para mulheres e homens públicos ou da iniciativa privada no Brasil destes dias complicados e de rumos indefinidos. Nos governos, no Congresso, nos Tribunais de Justiça, nos corredores, nos escritórios públicos e privados, no mar, na praia ou nos ambientes mais restritos e fechados na área de segurança, a exemplo da base naval da Marinha, na zona suburbana de Salvador.

Foi nesse cenário de sonhos que a presidente Dilma realizou as “costuras” mais secretas e mais importantes em suas férias de fim de ano. Primeiro, revela o jornal A Tarde em texto assinado pela bem informada repórter e editora política, Patrícia França, a ocupante do Palácio do Planalto conversou a sós com Wagner, tentando convencer o dirigente petista a ser o coordenador na região Nordeste de sua provável campanha de reeleição presidencial em 2014.

Depois, em Aratu, onde passou estes dias com a mãe, a filha, o neto e o genro , Dilma recebeu para um almoço no sábado (5/1),  os governadores da Bahia, Jaques Wagner (PT), e de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. (os sussurros indicam ser o nome preferido de Wagner, que esta segunda-feira, 14, embarca em nova viagem à China), para vice na chapa da reeleição

Neste caso, mais demorada, complexa e delicada “costura política” ( temperada com agrados e promessas de mimos administrativos ao líder pernambucano) cuja extensão e resultados só serão conhecidos mais tarde, em futuro próximo ou mais distante, quando a campanha que já se ensaia, começar pra valer. A conferir.

 Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail : vitor_soares1@terra.com.br