Gira a cada dia com mais velocidade a roda do tempo e da política no Nordeste. Um carrossel estonteante que faz muita gente perder o chão e o prumo à medida em que se aproximam as eleições presidencial, parlamentares e para a sucessão dos governadores estaduais em 2014.
 
Pode até parecer "coisa distante", como pensam ou proclamam alguns, pelo menos da boca para fora. A exemplo dos tucanos do PSDB de São Paulo, preocupados em tapar o dique furado com a eleição do prefeito Fernando Haddad. Ou petistas de SP e outros plagas, perdidos em seus labirintos na tentativa de armar planos e estratégias de proteção e ajuda a " velhos companheiros" condenados pelo STF no processo do Mensalão.
 
Outros, a exemplo da presidente Dilma Rousseff e vozes conselheiras que ela escuta no Palácio do Planalto, dão sinais de que já perceberam o fenômeno e se mostram incomodados com ele. Tratam, como dizia o gaúcho Leonel Brizola, de "meter a cabeça no congelador para acordar", recobrar o fôlego e aguentar o repuxo para recuperar o tempo perdido, antes que seja tarde demais.
 
Tanto que, mal desarrumou a bagagem da recente passagem pela Bahia (descanso de fim de ano dividido com muita costura política com "lideranças nordestinas"), fala-se que a presidente já prepara nova visita à região que mais votos lhe deu no pleito em que bateu o tucano Serra e se elegeu a primeira mulher presidente do Brasil.
 
O périplo na região da seca prolongada (onde começa a chover), "de cunho administrativo",  começaria por Aracaju, para inauguração de uma ponte que reduz bastante além de embelezar o percurso nas viagens entre os vizinhos Sergipe e Bahia.
Fácil verificar o significado real e simbólico do fato, previsto para acontecer ainda antes do carnaval tomar conta das ruas e de quase todos os espaços da mídia no Nordeste e no resto do País.
 
Os ruídos da roda em seu girar apressado são mais nítidos, já há algum tempo, para as bandas de Pernambuco. Ali, na beira do Capibaribe, o governador Eduardo Campos, principal líder do PSB, se movimenta de olho na cadeira de Dilma (ou em sabe-se lá o quê), com artimanhas e habilidade de causar inveja no histórico avô, Miguel Arraes.
 
Este (o velho e sábio Arraes), seguramente vibra de orgulho das façanhas do neto, cria política e herdeiro de futuro, aparentemente. Um sinal,  para os que têm fé, ou para ateus que acreditam em milagres, como o autor destas linhas. Pelo menos nos milagres do glorioso Santo Antonio  e do Senhor do Bonfim, o poderoso Oxalá dos cultos de candomblé.
 
E por falar em Senhor do Bonfim:
 
O tradicional cortejo da Lavagem do Bonfim,  semana passada em Salvador,  mostrou sinais escancarados de que as mudanças causadas  pela velocidade da roda do tempo e do poder também se verificam n a Bahia (mina de votos nas eleições presidenciais de Lula e Dilma em passado recente), principalmente Salvador, a terceira maior capital brasileira, agora sob o comando do prefeito ACM Neto, do DEM.
 
Este é outro neto nordestino capaz de fazer o avô bater palmas de orgulho, onde quer que esteja o velho fundador do carlismo, ex-prefeito da capital, ex-governador da Bahia e ex-senador Antonio Carlos Magalhães.
 
ACM, o original – a exemplo de seu mais hábil herdeiro político e aliados mais fiéis – deve ter dado boas gargalhadas durante todo cortejo da Lavagem Bonfim, ao ver o ar de surpresa e desagrado de petistas e aliados governistas da administração estadual, que vaticinam "a morte do carlismo" há anos, desde a partida "do chefe" e da chegada do petista Jaques Wagner ao Palácio de Ondina.     
 
Na verdade, há anos não se vê uma Lavagem do Bonfim tão carlista como a da última quinta-feira. A começar pelo retorno apoteótico da "onda branca" dos seguidores do bloco Filhos de Gandhy (da predileção de ACM) ao longo dos oito quilômetro da caminhada entre a igreja da Conceição da Praia e o alto da colina do Bonfim.
 
A festa, na verdade, teve o domínio quase absoluto da presença de ACM Neto e dos novos donos do poder municipal instalados na Praça Thomé de Souza. Quinta-feira, 17, no monumental cortejo pan-religioso da lavagem das  escadarias da basílica da Colina Sagrada dos baianos (e de milhares de visitantes do Brasil e do mundo o ano inteiro), eles ocuparam quase todos os espaços de visibilidade política e colheram  aplausos dos seguidores do cortejo ao longo de todo percurso.
 
Adeptos sinceros de outros tempos, ou os áulicos de sempre, de todos os governantes e poderosos da vez.  
 
Com o governador petista Jaques Wagner de novo em périplo pela China, a representação do governo estadual na grande festa dos baianos, ficou a cargo do vice, Otto Alencar , comandante das tropas do PSD de Kassab na Bahia, aliado atual de Wagner, mas ha pouco menos de uma década ex-deputado, ex-governador substituto e  nome referencial do "carlismo de raiz" na Bahia.
 
Na Lavagem desta quinta-feira, Otto parecia à vontade e feliz. Ouvido por uma repórter da Radio Metrópole na partida do cortejo, não se conteve. Cantou à capela, ao microfone, os versos iniciais do belo Hino ao Senhor do Bonfim: "Glória a ti neste dia de glória/ Gloria a ti, redentor que há cem anos/ Nossos pais conduzistes à vitória/ Pelos mares e campos baianos.
 
Quer mais? No bloco logo atrás do governador em exercício, a presença mais visível a lembrar o ocupante efetivo atual do Palácio de Ondina, a primeira-dama do estado, Fátima Mendonça, mulher de Wagner.
 
"Vim marcar o meu espaço na festa", disse a primeira-dama também ao microfone da Metrópole. Militante do PSB, Fátima iniciou o desfile no cortejo ao lado da senadora socialista Lídice da Mata, ex-prefeita da capital, nome mais apostado como candidata do peito do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à sucessão de Wagner em 2014. Chamariz de peso em um eventual palanque presidencial do neto de Arraes.
 
E a presença do PT, tão forte e ardorosa em outras lavagens? Nesta quinta-feira do Bonfim, na cidade da Bahia, o PT minguou, se escondeu.  "Ou fugiu, como o governador Wagner", sintetizou o deputado Lúcio Vieira Lima, presidente do PMDB estadual, aliado decisivo na eleição de ACM Neto a prefeito de Salvador.
 
E a roda do tempo e do poder segue girando. Cada dia com mais velocidade no Nordeste. Onde e como irá parar?. Responda quem souber.
 
Vitor Hugo Soares é jornalista . E-mail: vitor_soares1@terra.com.br