"Palanque político é bicho perigoso em qualquer tempo. Comício fora de época, então, pode ser mais perigoso ainda, e geralmente dá bolo: Mexe com quem está quieto e pode queimar a língua de quem fala além da conta".

 Isso aprendi menino, na cidade de Santo Antonio da Glória, à beira da Cachoeira de Paulo Afonso, no lado baiano do São Francisco, palco de grandes comícios e de notáveis palanqueiros entre Bahia e Pernambuco: Antonio Balbino, Miguel Arraes, Waldir Pires, Cid Sampaio, Josafá Marinho, Agamenon Magalhães e Vieira de Melo, para citar apenas alguns dos maiores e melhores que já vi em ação nas barrancas do rio da minha aldeia.

Na última terça, dia 29, a verdade do ensinamento popular se reproduziu mais uma vez. Agora, na inauguração, em Sergipe, da Ponte Gilberto Amado, politizada pelo governador petista Marcelo Déda, em "ato público administrativo" com a presença da presidente da República, Dilma Rousseff.

De novo, entre discursos, foguetório, conversas e arranjos ao pé de ouvido no confessionário do poder, ficam os ciúmes, as mágoas, os problemas previsíveis de uma campanha eleitoral antecipada demais. Seqüelas e fraturas que custam a cicatrizar, apesar dos ungüentos e panos quentes aplicados, esta semana, nas feridas provocadas pela festa na beira da ponte entre Sergipe e Bahia. 

 Vamos aos fatos, para contextualizar melhor o que alguns já batizaram – dentro e fora dos governos petistas da República, da Bahia e de Sergipe – de  “Cajazeiras sergipana”. Irônica referência ao desastroso comício, com a participação da presidente, no famoso bairro popular de Salvador,na recente campanha municipal.

 O ato baiano, marcado por equívocos e agressivas “piadas de palanque” sobre o tamanho do candidato oposicionista a prefeito, praticamente selou a derrota do deputado Nelson Pelegrino, na disputa do comando da terceira capital do País, contra o “baixinho” vencedor ACM Neto, do DEM.

 Desta vez, “na terra do Condor”, faltando ainda quase dois anos para as eleições de 2014, o que estava programado para ser uma “calorosa festa de confraternização e união nordestina”, acabou virando um complicado bafafá de vizinhos.

 Isso, apesar da imediata entrada em campo da turma do deixa disso e do silêncio obsequioso da imprensa regional, ou do pouco caso da mídia nacional diante do episódio. Tratado como “pinimba local”, bem ao contrário da ampla repercussão nacional alcançada pelo comício de Pelegrino, com a presença explosiva da presidente da República, em Cajazeiras, periferia de Salvador.  

 O governador sergipano Marcelo Déda, reconhecidamente um político competente e eficiente administrador público, "gente boa”, como muitos o definem, tem lá suas manias. À exemplo dos ex-presidentes Lula, entre os petistas, e FHC, entre os tucanos, Déda é do tipo que, em reunião ou no palanque, prefere perder um amigo (ou vários) a perder a piada.  

 Foi assim na inauguração da bela ponte que reduz a distância entre os dois estados vizinhos do Nordeste pela estrada litorânea, de simbolismos evidentes. Ao lado da presidente Dilma, o governador de Sergipe afirmou que a obra seria bem iluminada para que os baianos não se perdessem no caminho de ida ou de volta.

 "Toda a ponte será iluminada com olhos de gato para os baianos não se perderem. Não é que eles sejam menos inteligentes, só não enxergam bem", frisou Déda na coletiva que concedeu em seguida. Estava assim consumada a piada infeliz que azedaria o humor dos baianos na "festa de união nordestina".

 O site Bahia 247 (sucursal do Brasil 247) tratou de jogar mais pimenta no assunto: "Governador de Sergipe afirma que baiano não é burro, apenas não enxerga bem", disse no título da cobertura da festa.

 Estava consumado o desastre.

 Marcelo Déda tratou de pedir desculpas, via Twitter: “Fiz brincadeira com a sinalização da rodovia dizendo que os baianos enxergariam mal. Foi de extremo mau gosto. Peço desculpas pelo mau gosto da brincadeira com os irmãos baianos. Sou filho e neto de baianos e respeito a Bahia”; postou o governador em seu perfil no micro blog, quando o bafafá já se alastrava descontrolado nas redes sociais, estrada afora. Nordeste e país adentro .

 Fica demonstrado de novo: Palanque fora de época é mesmo o diabo. Desta vez arruinou a “festa da unidade nordestina” ao lado da presidente Dilma em Aracaju. Resta agora saber a extensão da queimadura na língua do governador Déda, de Sergipe. A conferir.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br