Dilma, Lula e Wagner diante do corpo de Chavez em Caracas

Dilma, Lula e Wagner diante do corpo de Chavez em Caracas

Em Salvador da Bahia, na pernambucana Recife, em Brasília e outros recantos do País, não poucos políticos, jornalistas, marqueteiros e mais gente, no entorno do poder, se roeram com vontade de virar a mosca do rock famoso do baiano Raul Seixas.Queriam estar no vôo do avião presidencial que saiu do Planalto Central na última quinta-feira, com destino a Caracas, para as homenagens fúnebres à Hugo Chávez.

Não uma mosca chata que pousa na sopa ou azucrina passageiros o percurso inteiro.Apenas uma que se aboletasse discretamento em um canto qualquer do avião, para assim poder escutar as conversas entre a presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula  e o governador da Bahia, Jaques Wagner (petistas os três) que viajaram juntos para as cerimônias fúnebres na  capital da Venezuela – centro nervoso das atenções da política internacional e da curiosidade geral do planeta nestes dias efervescentes de março de 2013.

Não é raro nem difícil, em oportunides como estas,na política,embutir encontros, conversas e acordos de outra ordem, mal disfarçadas entre as lembranças e tributos à memória do morto esquentado, polêmico e revolucionário. Amigo comum e companheiro dos três passageiros ilustres do Brasil na rota do Caribe.

Antes que alguém reclame, ou faça cara feia de quem não gostou da observação (puramente jornalística), digo como os franceses: “Amaldiçoado quem pensar mal destas coisas”. E sigamos em frente com esta história “da hora”, como no rock do saudoso grupo de Guarulhos “Mamonas Assassinas” (liderado  por Dinho, um baiano de Irecê, legitimo herdeiro artístico de Raul). 

O embarque do ex-presidente Lula no vôo Brasília – Caracas era previsível, embora o autor destas linhas de informação e opinião desconheça os detalhes das confabulações que resultaram na carona privilegiada. Quanto a Jaques Wagner – pelo grande número de testemunhas – o convite para a viagem veio por acaso. E, como se sabe, “se o assunto é viajar, é com Wagner mesmo que se resolve”, dizem os soteropolitanos, sem pedir muito segredo.

Na quarta-feira, 6, o governador da Bahia participava, em Brasília, com outros colegas, ministros, parlamentares e demais interessados (não poucos), da solenidade para mover o programa PAC-2 e tentar destravar o gargalo nacional da infra-estrutura deficiente e cada vez mais emperrada. Sem perder de vista a esperada colheita de alguns frutos ainda antes das eleições sucessórias para a presidência da República e governos dos estados, em 2014.

No meio da cerimônia, o Palácio do Planalto e a diplomacia brasileira acertaram para quinta-feira, 7, o embarque da presidente Dilma às homenagens derradeiras ao ex-líder morto em Caracas. Com Wagner à sua frente, Dilma não perdeu tempo nem a chance: convidou o governador para seguir no seleto vôo presidêncial, sob pretexto “das profundas ligações de Chávez com a Bahia, onde ele esteve duas vezes em seu governo”. Principalmente Salvador e Praia do Forte, onde o agitado e agitador da revolução bolivariana deixou históricas recordações.

O governador viajou, logo em seguida ao convite, para arrumar a bagagem no Palácio de Ondina e, na manhã do dia seguinte, já estava sentado com Lula e Dilma (sem a mosca de Raul ao que se sabe) voando para a Venezuela. Que chance inestimável para recordações mútuas de causos e feitos de/ou com Hugo Chávez, o amigo e companheiro comum!

A ainda tempo de sobra para acertar ponteiros atrasados da política brasileira. Um deles, o convite à espera de resposta definitiva, feito por Dilma a Wagner (com as bênçãos de Lula ) no começo do ano, para que ele permaneça à frente do governo baiano até o último dia do mandato, sem disputar nenhum cargo eleitoral.

Assim Wagner poderia exercer plenamente a coordenação, na estratégica região Nordeste, da campanha para reeleição de Dilma. Complicada ultimamente com a disposição, aparentemente firme, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, guia nacional do PSB, aliado governista descontente, para disputar o lugar de mando de Dilma no Palácio do Planalto.   

Uma viagem, como se vê em parte, e em parte se deduz, das mais interessantes e, quem sabe, produtiva em seus resultados de futuro. Apesar das circunstâncias fúnebres da sua realização. A mosca do rock de Raul seguramente iria “se lavar”, como dizem os baianos da capital.

Daí, talvez, a frustração de tanta gente da política, da comunicação e dos negócios, por não embarcar também, mesmo transmutada e escondida em um cantinho qualquer  do avião presidencial, no vôo que saiu quinta–feira da Base Aérea de Brasília com destino à Caracas.

Repito, antes do ponto final, o que disse no meio do artigo: “Amaldiçoado quem pensar mal dessas coisas”.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br