Sasha Grey é linda, culta, dada a ter ideias; e escolheu o caminho asséptico das sombras. Você leu o que eu escrevi? Vou repetir: caminho asséptico das sombras. Sombra porque fazer sexo de todas as formas explícitas diante das câmaras pode muito bem ser tratado como algo obscuro, e asséptico porque a industria americana de filmes pornográficos é cheia de regras sobre conduta e saúde dos participantes.
Pois bem, recentemente o imponente The Guardian fez uma matéria com Sasha, ela conta que se aposentou do sexo atuado e passou para a música cantada. Porém encontrou uma cena bem parecida com a da pornografia, algo como terra de ninguém, um verdadeiro oeste selvagem, cujos bandidos são os orçamentos micados, e principalmente a pirataria. De modo que a linda Sasha não sabe se dança ou segura a criança.
Pornografia e música, protagonistas da Internet, duas poderosas indústrias se esvaindo mercê do descontrole total e absoluto. Na web tudo jaz, cinema, literatura, jornalismo. Por mais que a indústria do entretenimento esperneie, tente criar barreiras, o fato que cada vez mais parece entregue, nocauteada, um bicho sangrando em cima de um formigueiro.
Bom, mas isso nós, as formigas, já sabíamos, não precisávamos da Sasha para nos contar. O que a gente quer aqui é fazer um exercício da futurologia. Aonde que isso vai dar? No caso dos filmes XXX o pessoal está tendo que largar o bastão (desculpe). Há tanta pornografia disponível na Internet que a gente ia precisar de umas 50 adolescências só para cruzar a fase anal.
Então chegamos no grande busilis, ei-lo: ao que parece, excetuando eventuais documentos ainda não revelados pelo Wikileaks, tudo, absolutamente tudo, está catalogado, escaneado e disponível. Há não muitos anos (ok, algumas centenas) um sujeito podia olhar para o mar do outro lado do mundo e “imaginar”o que será que havia do lado de cá – se a Terra acabava numa valeta, essas coisas. Ou algo mais prosaico, se ia chover, se ia ter trânsito na ida para praia, ou se aquilo que gente via numa revista sueca era realmente possível. É um problema um mundo conhecido, sem mistérios, a vida civilizada necessita ilusão. Imaginar descobertas é ter esperança num sentido.
E ainda por cima sabemos o tempo inteiro o que cada um está fazendo, onde está, com quem; ou pior, pensando. Há um quê de pornografia nisso, sendo a pornografia um jorro no vazio, orgasmo no vácuo. Ao que parece essas partículas bilionésimas de seres, todos os dias procurando e emitindo dados e contra-dados, funcionam como um grande reator a produzir energia para…nada.
Capa do livro "Neü Sex" de Sasha Grey