O título acima foi recolhido de uma resposta dada pela escritora moçambicana Paulina Chiziane, que esteve recentemente em Brasília, quando da realização da I Bienal Brasil do Livro e Leitura, evento capitaneado pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal, sob a liderança do poeta Hamilton Pereira, conhecido popularmente como Pedro Tierra. A resposta referia-se a pergunta feita por mim, tanto a ela quanto ao escritor angolano Ondjaki, que participavam da mesa de debate sobre a Literatura Africana Contemporânea, sobre qual a era a percepção que eles, enquanto africanos, possuíam, da imagem do Brasil no continente africano, hoje.

Inicialmente fiquei surpreso com a objetividade e veemência da resposta. Como se diz no popular, uma resposta curta e grossa. Mas ela foi adiante e disse: “No século XV os europeus chegaram em África com a espada em uma mão e a bíblia na outra, para nos colonizar. Hoje, os brasileiros chegam com a bíblia e suas igrejas destruindo nossas tradições, levando o medo e o desassossego ao nosso povo e querendo nos ensinar quem é Deus!”. Duro de ouvir, difícil de admitir, mas é a pura verdade. Para quem já esteve em algum dos países de língua portuguesa no continente africano saberá exatamente do que a escritora estava falando – a presença dos neopentecostais, em particular da Igreja Universal do Reino de Deus, com sua intolerância religiosa, na velha e querida mãe África.

O impacto da resposta da escritora moçambicana está soando na minha cabeça até hoje. Lembrei-me da ingenuidade, misturada com ignorância com que boa parte dos brasileiros (muitos letrados) se referem ao continente africano, ora como um único país ora como se fosse um bando de idiotas no aguardo da salvação civilizatória ocidental. Lembrei-me da ingenuidade, temperada de afro-centrismo, dos nossos companheiros do movimento negro, que imaginam que só o fato de termos a pele negra nos dá a condição de irmãos em África. Lembrei-me, por fim, das palavras de outro escritor africano do (Togo), Kangni Além, também presente na Bienal que afirmou categoricamente, para mim, que eu poderia ser, seu irmão imigrante ou estrangeiro, nunca seu irmão africano.

Todas essas lembranças levaram-me a refletir sobre o quão distante nós, ainda estamos, de entender qual o papel que o Brasil, país com população majoritariamente de origem negra deva ter no continente africano. Em que pese a grande contribuição dada pelo mandato do ex-presidente Lula, que buscou de forma incessante aproximar o Brasil das suas origens, e neste sentido, é importante frisar que esta busca não objetivava exclusivamente a construção de parcerias estratégicas na região, mas também se relacionava com o compromisso assumido com a comunidade negra brasileira, de dar mais atenção as questões relacionadas a África e o Brasil. Mas, apesar deste esforço tão ironizado e combatido pela mídia da Casa Grande, ainda assim, estamos longe de compreender a complexidade destas relações e das nossas responsabilidades diante das mesmas.

Afirmo isto, pois mesmo para mim, um militante já curtido e experimentado, doeu ouvir a resposta de Paulina Chiziane. E doeu mais ainda, saber que não temos dado a devida atenção a este flagelo que é a invasão dos pregadores da intolerância religiosa entre nós daqui e dacolá. E quando digo nós, não estou falando exclusivamente dos militantes do movimento negro, até porque, estes tem lutado desesperadamente contra esta violência inominável a liberdade de culto em nosso país e que agora espraia-se pelo continente africano com a chancela brasileira. Estou falando dos cidadãos democratas, de esquerda, dos partidos que estes cidadãos militam, daqueles que acreditam na diversidade cultural, na pluralidade religiosa e num estado laico. Mas que em nome da conquista de um naco do poder tem aberto mão de princípios clássicos do projeto democrático e possibilitado o avanço das forças retrogradas e conservadoras, cujas primeiras vítimas tem sido os negros e suas religiões de matriz africana.

Enfim, espero que o alerta dado pela escritora moçambicana, sirva ao menos para nos estimular a defesa da garantia constitucional da liberdade de culto e ao respeito a soberania dos países irmãos.

Axè !

Zulu Araújo

Toca a zabumba que a terra é nossa!