Segundo alguns historiadores, o primeiro bloco afro a surgir na cidade do Salvador chamava-se Embaixada Africana, em 1885. Logo depois, em 1886, surgiu os Pândegos da África, ambos formados por negros livres e alforriados e que faziam do carnaval seu principal espaço de crítica, ironia  e valorização da cultura de origem africana no Brasil. Como era de se esperar, foram discriminados, reprimidos e proibidos de desfilarem, ao menos no  chamado circuito central da festa carnavalesca, que compreendia àquela época o espaço da atual Rua Chile. Nem por isso, estas duas entidades, consideradas marcantes no período citado, deixaram de cumprir o seu papel aglutinador e referencial da presença negra no carnaval da cidade do Salvador.

De lá para cá, muitas outras entidades carnavalescas e sociais, com as mesmas características, nasceram, cresceram e desapareceram no seio da comunidade negra baiana, em particular no carnaval. Outras tantas se encontram vivas até hoje, a exemplo do Afoxé Pai Burocô – 1935, criado pelo Alapini – Mestre Didi, recentemente falecido, e o Filhos de Ghandy, em 1945, que continua estendendo  o seu tapete branco na avenida, saudando os orixás, a paz e convivência pacífica. Herdeiras das mais fortes tradições africanas e da luta pela preservação e valorização da cultura negra no Brasil, estas entidades foram pioneiras no enfrentamento da discriminação e do racismo no carnaval da Bahia.

Excluídas e perseguidas pelo status quo vigente, estas manifestações travestiram-se em cordões e batucadas nas décadas de 50 e 60, para driblar a discriminação, e com nomes pitorescos ganhavam as ruas da cidade do Salvador, a exemplo do Bloco Carnavalesco Vai Levando, Deixa a Vida de Kelé, Bafo da Onça e tantos outros que faziam literalmente a festa do povão, com críticas e ironias ao duro dia a dia. Eram os chamados blocos de sopro e percussão.  Enquanto isso, a elite baiana banqueteava-se nos clubes sociais, a exemplo do Bahiano de Tênis “onde preto não entrava nem pela porta da cozinha”, segundo o cantante mor Gilberto Gil.

Todo este preâmbulo é para deixar claro, que o que pretendemos celebrar, no carnaval de 2014, elegendo como tema os 40 anos dos Blocos Afros,  é a versão contemporânea deste legado histórico e não a trajetória política/cultural da luta contra o racismo no país. São na verdade, os 40 anos referentes ao processo de reafricanização do carnaval de Salvador, a partir do surgimento do primeiro bloco afro contemporâneo, o Ilê Aiyê e, evidentemente os seus parceiros – Olodum, Malê Debalê, Araketu, Badauê, Cortejo Afro, etc.  e que tanta alegria e cidadania trouxeram para o carnaval da Bahia. Oriundos dos chamados Blocos de Índios que dominavam a cena carnavalesca na década de 70, o surgimento dos blocos afros cumprem um papel preponderante tanto na modernização da musicalidade baiana quanto na pacificação da festa, que à época era considerada o paraíso da violência. Mais que isto, a presença dos blocos afros no carnaval da Bahia foi um importante elemento na ampliação do combate ao racismo, valorização da cultura de origem negra, bem como da auto-estima da sua juventude. Foi uma resposta criativa, singular e surpreendente a mais um processo de exclusão e discriminação que a negrada sofria no carnaval da Bahia. Lembro-me bem, do choque que foi para a cidade, o desfile do primeiro bloco afro. Editoriais, charges, pronunciamentos e até pedido de intervenção da Polícia Federal, fizeram parte do coro dos descontentes que consideravam um acinte a existência de uma entidade com aquelas características: formada só por negros, valorizando a música negra e pregando o combate ao racismo. “Que bloco é esse, que eu quero saber, é o mundo negro que viemos cantar pra você. Somos crioulo doido, somo bem legal, temo cabelo duro somo black pau…”  

Era a um só tempo, a pesquisa, a contestação, a música, a sonoridade, o canto, a dança, tudo posto e exercido em nome da igualdade, da alegria e da cidadania. Mexeu com tudo e todos. Uniu jovens negros e brancos, ricos e pobres. Até mesmo, o fechado circuito musical das emissoras de rádios da cidade, dominadas pelo “jabá” abriu-se para a pulsante novidade. Durante muitos anos, os ensaios dos blocos afros foram, depois da praia, o único espaço gratuito de lazer e divertimento da juventude negra da cidade. É bem verdade que pagou-se um preço alto por esta ousadia. Vários dirigentes de blocos afros foram ameaçados, agredidos, presos e até mesmo assassinados pela violenta repressão policial, mas ainda assim o saldo foi extremamente positivo. Muitas das conquistas sociais e culturais que vivemos hoje se deve a estas entidades. Até mesmo o tão aclamado Axé Music, não existiria não fosse o samba reggae criado e regido pelo grande mestre Neguinho do Samba.

Portanto, homenagear esses 40 anos de existência dos blocos afros, é homenagear essa capacidade de se reinventar que a maioria da população negra e pobre da cidade do Salvador possui. É homenagear as centenas de músicos, percussionistas, cantores, dançarinos, artistas plásticos, costureiras e religiosos de matriz africana que de maneira anônima e abnegada criam e produzem um dos carnavais mais ricos e plurais do planeta. É homenagear a cidade mais negra fora do continente africano e reconhecer que alegria pode rimar com cidadania.

Axe !