POR BOB FERNANDES, DIRETO DE CARACAS
 
Um espetáculo impactante. Raro para quem não mora na Venezuela.
 
- Com a maior neutralidade possível… a Venezuela terá um futuro sem Chávez em curtíssimo prazo… (José Angél Hernández, analista político, num telejornal).
 
- Vocês viram? Angél Hernández diz, num comentário político de TV colombiana, que Hugo Chávez está "terminal". Isso é inacreditável. (Mario Silva, no La Hojilla, no Canal 8, estatal da Venezuela, ao reproduzir o comentário de Angél Hernández).
 
- Vou ler esse e-mail de Miguel Enrique Otero (editor do diário El Nacional). Ele escreveu (câmera no texto): "Mario Silva, esse consumidor de cocaína… se segue assim, matamos dois com um só tiro. Um com câncer (Chávez) e o outro de enfarto (Mario Silva)… os dois serão embalsamados… "
 
- Pois eu digo, Miguel Enrique Otero, quem vai morrer de enfarto é você. Você foi quem roubou milhões de dólares de quem está morrendo nos Estados Unidos. Você, que tem um diário… Você é um ladrão! Ladrão! Eu digo, Enrique Otero, você é um ladrão!
 
Final da noite da quinta-feira, 21 de fevereiro. Um espetáculo impactante. Raras vezes, mundo afora, será possível sentir com tanto impacto a força, o poder e a dimensão da comunicação, da mídia eletrônica, quando se joga na disputa por milhões de corações e mentes. Poucas vezes, além da Venezuela, se assistirá na televisão a diálogos tão perturbadoramente agressivos, tão escrachados. E tão ideológica, política e partidariamente engajados.
 
O espetáculo se deu na sequência da informação oficial dada por Ernesto Villegas, ministro da Informação: Além do câncer em tratamento na região pélvica, persiste e resiste a deficiência respiratória de Hugo Chávez.
 
Em uma trincheira, no canal 33, a TV Globovisión, nessa noite estrelando Kiko Bautista e Carla Angola à frente do Buenas Noches.
 
Em outra trincheira, no Canal 8, estatal, Mario Silva comanda o programa La Hojilla.
 
Valendo-se de temas do dia, o Buenas Noches dedica-se basicamente a atacar desabridamente. Ataca Chávez, mas, diante da comoção provocada pelo câncer e da recente volta do presidente a Caracas, anuncia compaixão enquanto bate no governo, no vice- presidente em exercício, Nicolás Maduro. E em Chávez.
 
As notícias e manchetes dos jornais do dia seguinte servem de mote. Kiko e Carla se revezam. Nesta noite, protestam, ouvem especialistas, cobram: A Globovisión está fora do pacote de TV Digital anunciado na véspera pelo vice-presidente Nicolás Maduro. Não terá espaço no digital.
 
O La Hojilla, no Canal 8, tem um foco e objetivos anunciados e claros: esmiuçar e analisar as mensagens dos adversários. Capturar reportagens televisivas, comentários, análises políticas dos demais canais, reproduzi-los e entregar a bola para Mario Silva desancá-los, acidamente. Mario começa pela Globovisión e sua ausência no espectro digital:
 
- Mas a TV digital é exatamente para que se tenha espaço para responder aos ataques da Globovisión, da mídia da direita…
 
E a sequência é pesada. Mario coloca no ar entrevistas e análises da CNN em espanhol, da colombiana RCN, da NTV24. Antes, avisa:
 
- Notem, na CNN, Globovisión, NTV24, RCN, todos usando a mesma expressão. O tema dos comentários e os títulos é o mesmo, "incertidumbre". (incerteza). Eles receberam uma ordem de cima…
 
Luis Vicente de León, presidente do instituto de Pesquisa Datanalisys, diz ser "muito recente" a relação de Nicolás Maduro com "as massas" tomadas pela emoção com a doença de Chávez. Portanto, não há ainda como fazer um diagnóstico preciso do desempenho de Maduro em eventual pesquisa. Fala-se também em "falta de credibilidade". Mario Silva, lembra:
 
- Esse aí, o pesquisador que errou nos números a favor de Capriles (Henrique, governador de Miranda e derrotado por Chávez na eleição presidencial de 7 de outubro último), agora é analista político.
 
Quem zapeia pelas emissoras ouve a bateria de más notícias:
 
- Como será a transição sem Chávez? Faltam farinha, açúcar e azeite… incerteza na economia… incerteza na política… incerteza na vida… 96% das divisas do país são do petróleo… saquearam o país…
 
Uma senhora, Colette Capriles, na reprise de "Alô Ciudadano", de Leopoldo Castillo – da mesma Globovisión – tenta explicar alguma coisa do ponto de vista psicanalítico:
 
- Incertidumbre (incerteza)… temos nas pessoas… incertidumbre é quando quem coloca a vida de um e de outro. Estamos diante de um controle externo… insegurança existencial…
 
Leopoldo atalha:
 
- E a tolerância chegou ao limite…
 
Fazem coro com o Jornal 2001, este chavista, que titulou:
 
- Ausência de Presidente causa incerteza na população.
 
Um "constitucionalista" pergunta em seu comentário:
 
- Chávez é ou não? Está ou não está? Por que não participa de um programa de TV?
 
E afirma:
 
- Tudo isso é inconstitucional. Todos estes atos são nulos.
 
Jesú Casiqué, da Universidade de Preston (EUA), informa:
 
- Com a desvalorização da moeda o salário mínimo caiu de U$ 476 para U$ 325.
 
Na CNN em espanhol, reproduzido no La Hojilla, longo e duro comentário. Na verdade, um editorial sobre a incerteza… a crise econômica… o inconstitucional… o chavismo, o Chávez… uma aula sobre como a Venezuela deveria se portar e o que deveria fazer.
 
Até que Mario Silva interrompe e informa:
 
- Vocês sabem quem é esse "comentarista", esse analista político? Vejam essa foto antiga. Sim, é ele mesmo. O que não faz o tempo… .ele era um dos Menudos! Vocês se lembram dos Menudos? Pois é, esse aí, um dos Menudos, agora é analista político… um Menudo analisa a Venezuela… – relembra Mario Silva enquanto canta uma canção dos Menudos e exibe a foto do Menudo/Comentarista.
 
Antonio Ledezma, o Alcade (Prefeito) Mayor de Caracas. Ex-deputado, ex-governador do Distrito Federal, ex-senador. No vídeo reprisado no La Horjilla, o prefeito Ledezma bate em Chávez e no chavismo:
 
- Não houve uma derrota eleitoral, houve uma vitória impotente. Ameaçam-nos com tanques de guerra e baionetas. Tem gente que sente que o voto não é secreto, que estão vigiando os votos com olhos invisíveis…
 
E segue o vídeo com o prefeito Ledezma:
 
- É inacreditável, eu ouvi um general falar sobre revolução cubana… agora eles (Cuba) devolveram Chávez, ele estava sequestrado, um contrabando entregue à meia noite…
 
Fim do vídeo originalmente exibido num canal de oposição ao governo. E La Horjilla ataca com Mario Silva:
 
- Você visita o Mossad em Israel, você é um inepto, você sacou dinheiro roubado, você… prefeito, uma caricatura de Carlos Andrés Perez (ex-presidente da República)… você é um tipo fascista, eterno candidato à presidência da República. Você era carregador de mala de Carlos Andrés Perez, e você é de um tempo em que militares eram como preservativos, vocês usavam e jogavam fora, por isso é inadmissível pra você um general falar em revolução cubana.
 
Agora quem está na tela é Fernando Ochoa Antich, ministro da Defesa do ex-presidente Carlos Andrés Perez no 4 de fevereiro de 92, quando Chávez e os seus tentaram derrubar o governo. O general diz que o retorno de Chávez na segunda-feira foi "uma manobra política para colocar Nicolás Maduro na presidência da República". Diz também que o Supremo tomou uma "decisão inaceitável" em 9 de janeiro ao permitir Maduro no poder.
 
Chamado a opinar sobre a opinião de Antich, o professor da Universidad de Los Andes, Sant Roz, bate no ex-ministro da Defesa:
 
- Isso é macabro. É desrespeitoso dizer que, por isso, o presidente da República veio para cá. Isso é ridículo.
 
Fim dos dois programas. Os dois são encerrados com a execução do hino nacional. O mesmo hino. Com imagens diferentes, corais distintos, tratamento visual diverso:
 
- Glória al bravo pueblo…
 
Madrugada, quase manhã da sexta-feira, 22 de fevereiro. Na tela do seu site, a NTN24 dispara a manchete que começa a rodar e vai perturbar ainda mais a Venezuela:
 
- Hugo Chávez está paraplégico, segundo médico Jose Rafael Marquina.
 
Hoje à noite tem mais.