POR BOB FERNANDES
 
Nas dramáticas trinta e poucas horas do golpe e contragolpe na Venezuela, em abril de 2002, uma frase entrou para História. Dita a Luis Miquilena, antigo e influente aliado de Chávez, depois tornado inimigo e envolvido na tentativa de derrubá-lo. Dita também ao general Raul Salazar, entre outros militares graduados. E, por fim, frase repetida com variações, então já como aviso e a senha que terminaria por desmanchar o golpe na manhã do sábado, 13 daquele abril. Frase proferida por Raúl Isaías Baduel, o general que comandava a 42ª Brigada de Paraquedistas em Maracay. Que tinha, a menos de 100 km da capital, o poder de bombardear, o poder dos caças F-16. Frase que provocou pânico e correria no Palácio Miraflores e no Forte Tiuna, o maior do país, e pos golpistas para correr:
 
- Se vocês não devolverem, em perfeito estado de saúde, o presidente Hugo Chávez, haverá violência generalizada na Venezuela e faltarão postes para pendurá-los…
 
Quase 11 anos depois do golpe, Hugo Chávez está morto. E o homem que, em Maracay, encabeçou a estratégia e a principal base para o contragolpe está preso. Preso na cadeia de Ramo Verde, em Los Teques, a uma hora de Caracas.
 
Acusado de corrupção -que nega com veemência e cobra provas- depois de afastado do Ministério da Defesa, Raúl Baduel, 57 anos, foi condenado a oito anos e encarcerado está já há quatro anos.
 
- Sou um preso de consciência, preso porque, em 2007, me aferrei à Constituição, me opus à mudança da Carta para permitir a reeleição de Hugo Chávez- diz Baduel.
 
Em 2007, com Baduel apeado do Ministério da Defesa e aliado a setores da oposição contra a mudança na Constituição, Hugo Chávez sofreu sua única derrota em 16 eleições –nacionais, estaduais, municipais ou referendos.
 
Chávez e Baduel foram amigos por 35 anos, de 1972 a 2007. Se tratavam por "papa", papai, e eram compadres. Na terça-feira, 5, preso numa cela de uns 40 metros quadrados, em meio a uma pilha de livros e pôsters, o general Baduel soube, profundamente comovido, da morte do antigo amigo.
 
Extremamente religioso, fiel a Nossa Senhora de Coromoto, padroeira da Venezuela, e a São Miguel, padroeiro dos paraquedistas, Baduel ora antes de todas as refeições.
 
Orientalista, adepto do Aikido desde os 15 anos, durante os dias do golpe e do contragolpe, moveu-se estritamente de acordo com os ensinamentos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e do Tao.
 
De conversas com Baduel em anos anteriores, este repórter tem um exemplar de A Arte da Guerra, com os trechos pelo general assinalados durante aqueles dias de abril de 2002.
 
Acusado de corrupção, Raúl Baduel foi julgado e condenado três anos depois de afastado do Ministério da Defesa.
 
Nestas últimas semanas de fevereiro, primeiras de março, Terra Magazine, do portal Terra, tem conversado com personagens decisivos do passado recente e do presente da Venezuela.
 
Além de testemunhar e relatar as semanas que se seguiram à volta de Chávez a Caracas, entrevistou, primeiro, aquele que poderia ser – e será, como agora definido- o candidato à Presidência da República pela oposição, Henrique Capriles. A Terra Magazine, então, o governador de Miranda adiantou:
 
- As circunstâncias me obrigariam a ser candidato a presidente.
 
Ouviu também o prefeito de Caracas e vice-presidente de Chávez entre 2007 e 2008, Jorge Rodríguez,  executivo das últimas e vitoriosas campanhas do então presidente e do chavismo.
 
Entrevistou também o general Jesús Rafael Suárez Chourio, hoje comandante da mesma poderosa 42ª Brigada que Baduel comandava durante o golpe e contragolpe de 2002. Chourio, amigo de Chávez por 33 anos e seu Chefe da Guarda Pessoal até chegar ao generalato, em 2011.
 
Final de uma manhã. Clara Aurora, mãe de Raúl Baduel, vai entrar em Ramo Verde para visitar o filho. Com Raúl estão Raúl Emílio, filho que deixou o Exército depois do afastamento do pai, e Andreina, Margareth, Rayrin Maria… algumas de suas filhas. São 12 filhos em quatro casamentos.
 
Surpreende, pela franqueza, a resposta de Clara Aurora sobre os motivos do rompimento entre o filho e Chávez:
 
- O que provocou esse rompimento, essa briga? Eles foram amigos por mais de 30 anos, tratavam-se por "papai", são compadres, Raúl o salvou no golpe e ele o fez ministro do Exército e depois da Defesa. O que aconteceu para esse rompimento de maneira tão dura?
 
- El poder los enfermó…- responde, quase num suspiro, Clara Aurora.
 
O poder os adoeceu.
 
Ao saber da resposta da mãe, Baduel sorri e diz:
 
- Mama Clara sempre foi uma mulher forte…
 
Baduel fala, também, sobre aspectos positivos dos 14 anos da Era Chávez:
 
- Não há como negar os progressos sociais, que são muitos, bem intencionados, e que produziram efeitos muito positivos em favor dos pobres e miseráveis, não há como negar isso.
 
Quanto aos negativos, cita:
 
- …tornar permanentes uma série de programas sociais que se prestam a comprar consciências, e negativo é a grande corrupção…
 
Não é necessário entrar no presídio em Ramo Verde para saber o que está nas prateleiras e paredes da cela de Baduel. Os livros são os mesmos que sempre estiveram no alojamento ou em suas salas de comando, de Maracay ao Ministério da Defesa. Com alguns acréscimos.
 
Lá estarão, a ecoar no ambiente, dezenas de discos de cantos gregorianos. E algum disco de Frank Sinatra, ou a regravação feita pelo amigo Jorge Calheiros. Muitas vezes, rodando a mesma, significativa, canção: "My way".
 
Pelas paredes, pôsters de Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, e Martin Luther King. Espalhados pela cela, os livros. Biografias e autobiografias: entre outros, de Mandela, de Bill Clinton, a biografia de Hitler escrita por John Toland. Muito manuseados, páginas com marcações, exemplares do Velho e do Novo Testamento.
 
Leitura de cabeceira, De La Dictadura a La Democracia, un sistema conceptual para La Liberación, de Gene Sharp.
 
Não é preciso entrar na cela para saber que lá estarão exemplares do I Ching, do El Evangelio del Tao, de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, de obras de Confúcio…e que lá estará o pequeno exemplar da Constituição da República Bolivariana de Venezuela, tornado popularíssimo por Hugo Chávez.
 
Abaixo, algumas das respostas de Raúl Baduel:
 
Terra Magazine: O que levou ao rompimento de uma amizade tão antiga, que parecia tão sólida e fortalecida depois da sua ação no golpe de 2002, da sua ida para os ministérios do Exército e, depois, da Defesa?
 
Raúl Isaías Baduel: Certamente muitas coisas… hoje vejo com clareza que, além dos motivos mais recentes, havia outros que sempre estiveram por aí…
 
Quais, por exemplo?
 
Dos recentes, minha posição em favor da Constituição e contra a mudança, tentada e derrotada em 2007, que buscava permitir nova reeleição. Fui contra e disse isso a ele. Mas, ainda antes, como ministro, participava das reuniões do Conselho de Ministros e, algumas vezes, me colocava contra, e o dizia, em questões com as quais não concordava. Por exemplo, na área econômico-financeira.
 
Desde que cheguei ao Ministério do Exército, montei uma equipe de assessores e eles me auxiliavam, me forneciam dados, informações e opiniões para que eu chegasse às minhas posições…
 
E quais as consequências disto?
 
Ele me chamou algumas vezes, me dizia, "olha, existem questões que se têm que agir mais politicamente, não dá para recusar tudo… isso, muitas vezes, cria problemas, desconfortos". Fui percebendo que, aos poucos, depois de chegar ao Ministério da Defesa, esses sinais, a princípio quase imperceptíveis, foram se ampliando, se tornando mais frequentes…
 
Mas já havia algo nessa antiga amizade, velha relação entre vocês?
 
Agora vejo que sim, agora sei que sim. Creio que o principal nisso foi um desconfiança, sempre alimentada pelos áulicos, pelos que querem o poder, desde que me coloquei contra o golpe contra Carlos Andrés Pérez, no 4 de fevereiro de 1992… me coloquei lealmente, pedi desligamento do Movimento Bolivariano Revolucionário-200, do qual éramos parte já há alguns anos. Afastei-me, não participei da tentativa de golpe, e aquilo levou a uma desconfiança, e a uma intriga nas proximidades dele, que nunca cessaram.
 
Por que o 4 de fevereiro e por que você não participou?
 
O movimento tinha bases entre os jovens oficiais e soldados, havia muita corrupção nos governos, nas forças armadas e, em 1989, quando Carlos Andrés Pérez instituiu um pacotaço econômico, los cerros bajaran (NR: em 27 de fevereiro, a população pobre ou miserável que mora nas montanhas e encostas de Caracas desceu para protestar na cidade, com mais de 300 mortos, cifra oficial, ou mais de 3 mil e 500, número extra-oficial). E quando aconteceu aquela violência contra a população, a mistura de tudo aquilo incendiou ainda mais a nós, que desde há muito tempo havíamos jurado libertar a Venezuela do controle dos oligarcas, sistema que então já tinha quase 40 anos com dois partidos se alternando no poder…
 
O que era o país, a sociedade, aquela Venezuela de antes?
 
Uma pequena elite de ricos, milionários, e uma enorme massa de pobres e miseráveis. Contra isso nos revoltávamos. Quem está fora, quem não é daqui, não conhece, não sabe o que era nossa realidade…
 
Então por que você não participou do 4 de fevereiro de 92?
 
Porque não acreditava naquilo daquela forma. Por dois motivos, pelo menos. Ele, Chávez, havia prometido ao pessoal da esquerda, que vinha da luta armada dos anos 60 e 70, que a data seria o 17 de dezembro, dia da morte de Bolívar…
 
…e o que houve?
 
Aí ele decidiu e comunicou que seria no 31 de dezembro, na mudança do ano. Quem conhece a Venezuela sabe que o 31 de dezembro é a  festa mais importante, bem mais do que o Natal, e aí disse a ele o que pensava…
 
…ou seja?
 
Disse que não estava de acordo. Primeiro, porque os danos colaterais poderiam ser enormes, é a grande festa do nosso povo, imagine um golpe no dia 31 de dezembro? E, segundo, não menos importante, e eu perguntei isso a ele, foi: "E onde está o projeto de país? Ok, teremos êxito militar, derrubaremos os oligarcas, os corruptos, mas o que vamos fazer com os generais, os almirantes, com todos eles? Qual é o projeto de poder?".
 
Disse isso e solicitei minha passagem para a reserva no nosso movimento. O Gabriel García Márquez fez uma crônica sobre isso numa viagem que fizemos, nós, em 1999, quando Chávez já era presidente e fomos a Cuba, nos encontramos com Fidel.
 
Daí a desconfiança?
 
A semente, sempre regada pelos áulicos. Depois vieram esses episódios conhecidos, e outros.
 
Você está condenado e preso por corrupção, é isso?
 
Em entrevista a dois jornalistas do El País, anos atrás, Chávez  me acusou de ter roubado US$ 15 milhões. Disse que tinha provas, que me mostrou isso e eu abaixei a cabeça e chorei. Disse que perdeu um amigo, mas que não havia nem haveria privilégio para ninguém. E, antes disso, ele mesmo dizia que não sabia de nada, que isso era com a Justiça, e que mandaria o ministro Rangel Briceño abrir investigações.
 
E o que aconteceu?
 
Fui acusado de subtração de fundos e bens da Força Armada, de abuso de autoridade e de atentar contra a honra militar…detiveram um oficial que trabalhava comigo e construíram uma suposta expertise financeira. Acusaram esse oficial de, num sábado de outubro, ter sido visto por guardas do Ministério da Defesa saindo com US$ 3,5 milhões em maletas…
 
Qual a consequência legal imediata?
 
Indiciado por delito de uso de dinheiro público eu deveria ter sido julgado pelo mais graduado Tribunal Militar…mas, claro, nada foi feito assim.
 
Você admite alguma responsabilidade em alguma ação?
 
Nenhuma e nem eles têm prova alguma de nada. No atribuído crime contra a honra militar está uma das motivações, ali há a "inabilitação política" pelo tempo que dure a pena. Mas, se eu quisesse disputar a Presidência, ainda há outra lei que impediria, estou desqualificado pela Constituição…
 
E as provas?
 
Não há prova alguma…e disse isso aqui num encontro, muito respeitoso e sereno, que tive com a ministra de Assuntos Penitenciários, Iris Varella, que me pareceu muito bem intencionada. Ela era deputada em 2008, foi ela quem me acusou e depois ratificou antes de ser ministra.
 
Mas com base no quê te acusaram?
 
Entre outras coisas, disseram que eu tinha uma conta com um e meio ou dois milhões de dólares no Panamá, além de imóveis no exterior…bem, em 2008, depois disso, estive no Panamá e me encontrei com um vice-presidente do HSBC que lá estava, esse era um banco onde disseram que estariam minhas contas…
 
E ele disse o quê?
 
Disse: "Pela primeira vez eu vou dar uma referência bancária em sentido contrário, não há nenhuma relação sua com o banco, nem direta e nem indireta. Verifiquei os códigos que disseram ser da conta que lhe atribuem, mas não são códigos desse banco". 
 
Em 2007, e também um pouco depois, você trabalhou com setores da oposição. Como foi a experiência?
 
Profundamente frustrante. Teve gente como Ismael García, do partido PODEMOS, que agiu corretamente, mas, mesmo com suspeitas de tentativa de fraude e com números mostrando que venceria o NÃO à mudança na Constituição, recebi telefonemas de líderes da oposição, eu disse da oposição, que pediram que eu admitisse a vitória do SIM. E isso não ocorreu apenas uma vez.
 
Incrível….e diziam o que ao pedir isso, esses líderes da oposição?
 
Um deles disse: "O senhor pode dizer que houve uma derrota eleitoral, mas que foi uma grande vitória política".
 
O que você, preso há 4 anos, pensou nestes dias em que seu amigo por 35 anos, Hugo Chávez, estava morrendo?
 
Aqui, preso, me aproximei ainda muito mais de Deus. Não tenho ódio, desejo de vingança e nem nada. Entreguei a Deus, pedi sinais para compreender tudo isso. Em páginas abertas ao acaso, está clara a palavra de Deus nos salmos 35, 94 e 109: Ele, Deus, é o administrador da vingança.
 
Eu orei para Deus e por ele, Hugo Chávez. Em junho de 2011 (NR: quando se soube do câncer do presidente na região pélvica), orando para Deus, pedi que tivesse misericórdia e tocasse o coração de Chávez. Pedi que me desse algum sinal. Antes de fazer meus exercícios, no dia 25 de junho, ouvi uma voz que dizia: "É a minha vontade". E me foi indicado Isaías 47…
 
Dia 1º de julho, cinco dias depois, estava orando de novo e me ligaram amigos de infância, que sabem que sigo Deus desde sempre. Através da família recebi uma mensagem de um amigo lá de Guarico, que me pediu: "Peça por ele e pelo país".
 
O que você fez?
 
Orei, pedi novamente pelo país e por Chávez, que estava no limbo. Pedi a Deus que me atendesse. Peguei a Bíblia da Sociedade Bíblica, ela fechada e sem marcação, abri novamente ao acaso…
 
…e…
 
…novamente Isaías 47… a "A Queda da Babilônia".
 
Os resultados dos governos Chávez. Quais seriam positivos?
 
Não há como negar os progressos sociais, que são muitos,  que são bem intencionados, e que produziram efeitos muito positivos em favor dos pobres e miseráveis, não há como negar isso. De fato, houve avanços, um deles o fim do analfabetismo, além de outros índices sociais muito importantes. Querer negar isso seria querer negar a História e algo muito injusto.
 
E os efeitos negativos?
 
Negativo é tornar permanentes uma série de programas sociais que se prestam a comprar consciências, e negativo é a grande corrupção. Discuto essas questões, e a democracia, num livro. Eu queria um outro nome, mas a editora o chamou de Mi Solución, Venezuela, Crisis y Salvación.
 
A propósito, a você, que foi amigo tão próximo, que foi ministro e o conheceu tanto e tão bem, eu pergunto: Hugo Chávez, ele, envolveu-se com corrupção, foi corrupto em alguma situação?
 
Não, isso não. Ele nunca se importou com bens materiais, com dinheiro, isso não. O que ele sempre quis foi o poder… manter o poder, e isso não é necessariamente um mal menor.
 
Antes disso tudo, em algum momento depois de chegar ao poder, você imaginou que algo assim, como vocês romperem, poderia acontecer? E por qual razão, a razão real, verdadeira, você imagina que isso se deu?
 
Nunca, lá atrás, imaginei algo assim…mas…
 
…mas…?
 
Depois disso tudo, olhando para trás e para o que aconteceu, me dei conta, percebi…
 
O que você percebeu?
 
Em 1999, ele recém-empossado na Presidência, eu trabalhava com ele como secretário particular, atravessávamos noite adentro trabalhando, aquela coisa interminável, exaustiva, e, numa madrugada, conversando como amigos, como irmãos que éramos, que sempre fomos; nos chamávamos por "papa", eu disse a ele: "Papa, aqui estamos, aqui você chegou… será um tempo de muito trabalho, muitos desafios, muitas lutas, mas você tem e terá condições de vencer… em dois mandatos, você conseguirá atingir os objetivos que sempre buscamos, que você sempre quis alcançar, o de transformar, de mudar a Venezuela…"
 
E o que ele respondeu?
 
Ele não disse nada, apenas me olhou…
 
Com aqueles olhos fundos…
 
…sim, e hoje eu penso que ali ele já pensava na reeleição, e hoje eu acredito que, naquele momento, ele pensou que eu iria querer sucedê-lo no poder…
 
Aqui, à entrada da prisão, encontrei-me com sua mãe antes que ela subisse para visitá-lo. Perguntei a ela o que havia acontecido entre vocês dois, por que amigos tão próximos, com uma história de lutas tão profundas e há tanto tempo, haviam rompido a amizade de maneira tão dura, e ela apenas me disse: "El poder los enfermó…"
 
Mama sempre foi uma pessoa muito forte…
 
Obrigado.