O texto que transcrevo mais abaixo, foi escrito há sete anos. Num sábado de Carnaval como hoje. Lembrei por isso e também porque nele eu menciono fatos interessantes da Coréia do Sul. Originalmente postei em meu antigo blog Anomia. Na época, passei o Carnaval na Ásia a trabalho. Amo esse texto, pelas recordações, inclusive de quando o escrevia, pois tive a inspiração logo após ouvir a canção Manhã de Carnaval – por isso o título pela feliz coincidência, era justamente um sábado de carnaval como hoje e toca uma de nossas obras-primas lá do outro lado do mundo. Todas as minhas incursões à Ásia, num período de dez anos, eu era uma testemunha que contemplava fatos emblemáticos, muitos nas andanças diárias e em cada pequeno detalhe dissonante do meu mundo no Brasil, do que eu via por lá.

Para me distrair nas horas vagas, escrevia no meu antigo blog Anomia. Espero que gostem do texto, o que mais observo em uma releitura é que ali já se percebia que mesmo com toda tecnologia existente, embora a gente se achasse mais perto dos lugares por causa de uma falsa sensação de proximidade geográfica que a Internet possibilita, o resultado prático para mim era cruel: quando se está muito tempo longe de casa, o tátil ganha o seu lugar de cátedra na cadeia dos sentidos humanos. Um "dilema" que a Internet e a bem da verdade, a própria ciência – se é que um dia – irão tentar aproximar, embora divide que ao menos equiparem.

Já ali em Seoul em via os jovens estudantes no metrô sem trocar palavra alguma com os colegas do lado, mas imersos na febre de então que era mais o SMS e se não estou enganado, ainda antes do Iphone ganhar espaço e também o Android. Antes do Twitter que seria criado no mesmo ano. É verdade que de lá para cá são apenas sete anos, mas parece bem mais, basta lembrarmos que ali em 2006, era um mundo ainda sem Iphone, Ipad e outros tablets. Já o calor de um abraço, de que tanto falo no texto, continua tendo a mesma força, quando braços se dão em cumplicidade. Uma cumplicidade doce e maravilhosa que nos dá a certeza de que tecnologia nenhuma, por melhor que seja a sua intenção, irá suplantar o misterioso e invisível poder que há em um simples abraço entre pessoas que se amam.

Antes de ler o texto, mas no mesmo mote de tecnologia que tenta aproximar pessoas, vejam este vídeo, com a linda história do brasileiro que sonha em ter o ator Sean Penn na estréia de sua primeira grande-produção. Conheçam o Ariel, ator de Colegas:

 

 

 

"Manhã de Carnaval na Coréia – Não mais que um texto, quase um desabafo nostálgico. Um breve e merecido update desta última viagem, novamente em solo Asiático. Durante o almoço em um restaurante Italiano, na Cidade de Songnam, próxima da Capital Seoul, o ambiente é invadido por acordes conhecidos. É Manhã de Carnaval, na voz inconfundível de Astrud Gilberto, embalando a música de Vinícius de Moraes e Luis Bonfá, a me aumentar mais ainda a saudade do Brasil, enquanto observo a neve cobrir as ruas desta distante Coréia do Sul. Aliás, a saudade tende mesmo a crescer quando se tem à mão tantos instrumentos high-tech como nos dias atuais. Em vez de ajudar, as tantas engenhocas, tais como web-cams, microfones, Google Earth e outros sofwares incríveis, câmeras digitais, Ipod's e todo o restante do imaginário a compor a tecnologia de hoje na Internet, somente me fazem sentir mais distante. Daí surgiu a idéia deste texto de hoje, após a brisa que me trouxe a músicalidade brasileira, o qual foi fecundado durante o frio inóspito do desfalecer do inverno no hemisfério norte, sozinho num restaurante e após chegar à conclusão de que seria melhor trocar toda pérfida facilidade no maquinário disponível dos dias atuais, pelo calor de um tenro abraço teu… Os pensamentos voam longe, passando por tantas recordações antigas, por rostos amigos, amores esquecidos, até ancorar nas lembranças ainda latentes de uma certa paixão passada. Recordo de uma noite especial, que restou marcada pela chuva fina que batia no vidro do carro estacionado à velha e saudosa Praia de Iracema (ainda não dominada pelo medo e que hoje parece não mais existir), numa época onde ainda se estacionava ao lado do Restaurante La Trattoria (talvez os antigos frequentadores irão lembrar do detalhe). A Praia de Iracema, nos idos dos anos 80, então um indecifrável recanto boêmio da Capital Alencarina. Percorro a lembrança que me leva a ouvir de novo a voz de Leila Pinheiro cantando Benção Bossa Nova no som do carro, enquanto lá fora o mar atacava violentamente a rebentação. Lembro dos vidros embotados do carro, de milhões de beijos eternizados naquela noite que acabou ímpar. Meu pensar resvala por entre causos e cousas e rebenta no título que havia escolhido como certo para este texto: Pérfidas Tecnologias (ou A arte de Estar Sozinho). O título da música do poetinha Vina, extraída da obra-prima Orfeu da Conceição me pareceu mais simpático. Retorno às lembranças e percorro tantos anos e momentos num átimo apenas, a recordar -talvez por ansiar desesperadamente um porto seguro a me servir de contraste com o frio Polar que desceu as temperaturas daqui a quase vinte graus celsius abaixo de zero – das areias claras da Praia do Cumbuco, também localizada no Estado do Ceará, onde o Poeta Jorge Maia compôs Clara Manhã, um clássico que não deveria apenas ser do conhecimento de poucos privilegiados, mas sim uma espécie de hino dos navegadores mordernos. A música me leva à conclusão de que, com ela, acabo inconscientemente reprogramando minha mente, de tantas boas lembranças que ele me traz. Clara Manhã também me faz recordar da intrépida amiga jornalista Clara Quintela, a ganhar as ruas e redações de Sampa esbanjando talento. Já Jornalismo, me leva ao inacabado Curso de Comunicação Social na UFC, lembro dos colegas, de tantos porres e poucas aulas (para mim pelo menos). Atos e festas do CA e do DCE, algumas boas cervejas regadas com o excelente papo, onde desfilavam pessoas inesquecíveis, confraternizando junto com os demais amigos – a mesma lua por testemunha – no emblemático Estoril. Voltando à nossa música, sempre que estou pelo mundo sou abraçado por ela onde quer que eu esteja. Lembro com carinho, alguns anos atrás, da alegria causada por outro clássico da Bossa Nova quando passeava por Budapeste. Que seja a nossa música, além de um doce abraço, uma espécie de Voyager tupiniquim lançada aos confins deste planetinha azul. Num outro dia, enquanto tomava uma cerveja num Outback de Seoul, percebo que a ocidentalização do oriente é inegável quando se observa as mudanças de comportamento, principalmente na juventude de países como o Japão e Coréia. Penso que assim, numa ocidentalização aparentemente voluntária, tal mudança seja menos injusta do que quando realizada à fórcepes, infelizmente coisa ainda corriqueira nos tempos ditos modernos. Enfim, são só devaneios deste turista acidental…"