Dona Madalena foi quem me contou a história. No tempo em que tomei por obrigação conhecer e registrar os brinquedos populares do Recife, armado de um pequeno gravador e de uma máquina fotográfica. Se um dono de caboclinho, la ursa ou maracatu falava demais, era prejuízo. O dinheiro curto só permitia a compra de poucas fitas e os entrevistados não podiam falar mais de uma hora. Com disciplina de monge budista, subia morro e descia ladeira procurando brinquedos que se apresentavam no carnaval. Nesse tempo, não havia perigo em se meter pelo Córrego do Jenipapo ou pela Linha do Tiro.
As andanças duraram alguns anos e nelas conheci vários Recifes. Descobri etnias, estratos de culturas, religiões e trabalhos. Constatei que os artistas populares guardam um saber arcaico na forma de narrativas, danças, gestos, cantos, risos, falas, e nada teorizam sobre essa memória, importando-se apenas em repeti-la e ensiná-la. 
Quando essa história aconteceu, dona Madalena era rainha do maracatu Indiano, e dona Santa reinava absoluta no carnaval do Recife, como última rainha coroada, segundo a tradição dos reis de Congo. Os colonizadores brancos criaram esse ritual no século XVII e o objetivo é bem fácil de adivinhar. Desejavam manter os escravos agregados em torno das “majestades” e de uma corte eleita por dois anos, em tudo semelhante às cortes europeias. Com isso evitavam insubordinação e fugas. Um padre ou bispo coroava os reis e rainhas dos negros, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na presença dos senhores e autoridades políticas. Após a solenidade, as realezas desfilavam pelas ruas, seguidas de cortejo e batuque. Essa é a origem mais provável do maracatu, que terminou achando lugar no carnaval, como tudo no Brasil.
O reinado de Santa começou no maracatu Leão Coroado. Dizem que ela assumiu o Elefante para substituir a mãe, ou porque se casara com o dono da brincadeira. Ninguém sabe ao certo. Todos concordam na majestade com que ela desfilava. Madalena, antes de ser rainha de seu próprio maracatu, dançara na corte de Santa. As más línguas garantiam que elas não se gostavam. Além das brigas entre os dois maracatus, que terminavam em pancadaria e morte, Madalena nutria um despeito contra Santa: nunca fora coroada oficialmente. A Igreja, que sempre estivera a serviço do poder instituído, agora se recusava a fazer novas coroações. Santa, portanto, era a única rainha de direito. Só ela, além de padres e bispos, poderia coroar uma sucessora. 
Celebravam o aniversário de dona Santa na sua residência, no Ponto de Parada, com o fausto devido a uma rainha. No ano em que a história se passa, convidaram caboclinhos, blocos, troças, alguns maracatus, mas não chamaram o Indiano, nem Madalena. As duas mulheres, poderosas no meio de seu povo humilde, eram também ialorixás, mães de santo, com uma legião de filhos e mães pequenas. Santa, pelo costume de trajar sempre a cor branca, seria filha de Orixalá e naturalmente calma. Mas não tenho certeza. Madalena era filha de Ogum, orixá dos ferros e da guerra. Juntou o povo da sua corte e comunicou que todos iriam à festa de Santa e do Elefante, mesmo não tendo sido convidados. Houve protestos, temores, gritos. Consultaram Ifá, o oráculo. Ele mandou que fossem. 
Na manhã da celebração, Madalena e os seus desceram o Alto do Pascoal, vestidos a caráter: estandarte na frente, damas de paço, damas de calunga, rei e rainha resguardados do sol pela umbela. Quando avistaram a casa terreiro de Santa, cantaram uma toada.  Nada, apenas silêncio. Madalena enviou um emissário e aguardou resposta. Os minutos duravam horas. O emissário retornou acompanhado de um pajem com o estandarte do Elefante. O vassalo inclinou-se e as duas bandeiras se cruzaram no alto, em sinal de cumprimento e boas vindas. O cortejo foi recebido e Dona Santa, sentada num trono, pediu que Madalena ficasse à sua direita durante a festa.
– Madalena – perguntou lá pelas tantas –, você sabe como é que se coroa uma rainha?
– Não sei não, senhora – respondeu.
– É na Igreja do Rosário dos Pretos – informou Santa. – Venha me visitar uma tarde dessas, que eu lhe ensino tudo. Vou coroar você.
    O resto não se escutou, os batuqueiros decidiram tocar juntos. As vozes foram abafadas, mas os maracatus teimam em resistir. Resistem aos empresários inescrupulosos, que a cada ano lançam na rua os seus maracatus caça-níqueis, sem linhagem de santo, sem vínculo de nação, simulacros grotescos, cortejos mortuários de nagôs, geges e xambás. Estilizações, arremedos exaustos de gestos milenares, alheios a qualquer tradição. Indiferentes ao desejo de Santa: coroar uma sucessora.
Coisa que não fez. A morte a levou alguns dias depois da promessa.