No dia 29 de maio fará 100 anos que estreou em Paris, em meio a vaias estrondosas, a coreografia de Vaslav Nijinsky para a música “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Nesse tempo, a França era o centro das experiências de vanguarda e a cada semana surgia um escândalo novo na literatura, no teatro, na dança ou nas artes plásticas.
 
Revi pelo YouTube a coreografia de Maurice Béjart para “A Sagração” e me impressionei como se tornou fácil o acesso aos bens de cultura, graças à internet. Na década de 80, eu conseguia assistir boas companhias de dança num telão do Consulado Americano, em fitas VHS. Não estou mentindo, juro, naquela época era tão simples entrar e sair no Consulado, como num cinema. Nada parecido com o bunker de hoje, com estruturas de concreto – espécies de gelo baiano gigantes – cercando o prédio e ocupando metade da rua Gonçalves Maia. 
 
Se você passa de manhã, vê as pessoas na fila, debaixo de sol ou chuva, esperando a vez de serem atendidas. Ninguém está ali para assistir Martha Graham dançando Édipo Rei, nem para conhecer o trabalho de coreógrafos como Alvin Ailey, Alwin Nikolais, Twyla Tharp, Merce Cunningham e tantos outros nomes famosos que nós pedíamos ao adido cultural que mandasse buscar nos Estados Unidos. Graças a esse intercâmbio, tornei-me um conhecedor de dança e passei noites e finais de semana agradáveis, vendo filmes excelentes. 
 
O adido movimentava a cena recifense, trouxe para a cidade a companhia de dança americana Pilobolus, um sucesso na época. E aqueles eram tempos difíceis, os muros da cidade viviam pichados com frases de ordem – Fora americanos! Americanos Go home! – e a esquerda não disfarçava a xenofobia ao Tio Sam e censurava até coca-cola. Com tudo isso, que maravilha era ver Martha Graham dançando “Lamentation”. 
 
Tenho um amigo que viaja com frequência para as temporadas do Metropolitan Opera House, principalmente quando tem algum programa de Wagner. Mas ele é exceção. A maioria das pessoas busca os parques da Disney ou vai às compras. Algumas ainda adquirem bilhetes na Broadway, desde que o preço não atrapalhe a aquisição de bolsas, relógios, óculos, jeans ou perfumes. É comum viajar sem malas. Compra-se tudo por lá, até as malas. Falam que é vantajoso, livra-se o preço das passagens em três laptops ou paletós de grife. Na brincadeira, em 2012 deixamos mais de vinte bilhões no exterior e o que ficou do turismo por aqui, mal chega aos seis bilhões. Não é um bom negócio.
 
A última moda são as viagens para comprar enxovais de bebê, incluindo carrinhos, cadeirinhas, berços desmontáveis e o diabo a quatro. Augusto Boal deve ferver no túmulo, pois ele fazia uma intervenção com o seu teatro fórum, dentro dos supermercados, criticando o consumo excessivo de fraldas descartáveis e outras bugigangas. Se ele visse o quanto as mães grávidas compram agora, e aonde, e a custo de tantas dificuldades e humilhações para conseguir um visto, morreria a segunda vez. 
 
Num casamento chique do Recife, a cronista social registrou que o vestido da noiva havia sido comprado em Nova Iorque. E daí? Isso significa o quê? Que provavelmente ele foi costurado em algum endereço da China ou Malásia, como tudo o que se adquire na Europa e Estados Unidos. Ou que a noiva conseguiu visto do consulado para ir a uma loja de departamentos americana. Meu Deus! Continuamos tão colonizados quanto no tempo em que os ingleses nos empurravam roupas de lã para o nosso clima de 45 graus (acima de zero, é claro). 
 
Será que a babaquice nos anos 80 era tão escandalosa quanto a desses turistas de compras? Quando íamos ao Consulado Americano, desejávamos ver as melhores companhias de dança do mundo, investigar a revolução dos coreógrafos, conhecer o trabalho de Ted Shawn e Ruth St. Denis, suspirar com o ballet du XX Siécle, esse que revi sem esforço no You Tube. Como era difícil acessar os bens de cultura naquela época e como é tão fácil nos dias de hoje. E, no entanto, as pessoas não se interessam por outra coisa que não seja compras. 
 
Alcançávamos o êxtase na sala de projeção, lendo bons livros, estudando a história da dança, garimpando registros importantes. Será o mesmo que revirar prateleiras procurando grifes famosas? Não existe outra medida de valor? Juro que sofri um curto circuito. Help! Valei-me meu Padim Ciço do Juazeiro! A inquietação intelectual de minha geração deu nisso, em viagens de compras? E os discursos revolucionários?
 
Vou fazer as malas, ligeiro. Pensando bem, nem vou levar malas. Compro lá mesmo.