Ana Miranda e eu estamos na comitiva de trinta e três prosadores que representarão o Brasil na Feira de Frankfurt. São setenta intelectuais das letras, além de artistas plásticos, músicos, bailarinos, atores, encenadores e numerosa equipe de produção. Nesse mês de março, fiquei sete dias na Alemanha ao lado de oito escritores, entre Leipzig, Berlim, Colônia e Frankfurt, nos eventos de promoção e divulgação da festa brasileira de outubro. A Fundação Biblioteca Nacional e seus vários parceiros, como a Câmara do Livro, nos deram uma mostra de eficiência e das numerosas ações programadas para Frankfurt/2013.

A Feira de Leipzig é a mais antiga da Alemanha e já foi a mais importante. Com a divisão do país, depois da Segunda Guerra, Leipzig passou a fazer parte da República Democrática Alemã (RDA), fundada em 1949 no território de ocupação soviética, e que deixou de existir em 1990, com a reunificação. É fácil compreender porque a Feira de Leipzig perdeu espaço para a de Frankfurt: os comunistas não viam os livros como produtos de consumo ou mercadoria. Tudo o que é Frankfurt: uma feira de negócios, voltada para o mercado consumidor de livros. Num jantar com o presidente da feira, num restaurante onde supostamente Goethe escreveu a cena do encontro entre Fausto e Mefistófeles, um agente literário falava ao meu ouvido que Frankfurt se mantém em alta porque vende e dá lucros. E isso é o que importa às sociedades capitalistas, mesmo quando o assunto é literatura.

Da Alemanha viajei para o Salão do Livro de Paris. Neste ano, a Embaixada do Brasil criou um espaço exclusivo, com um pequeno auditório e prateleiras de livros para expor e vender. Foi um empreendimento arrojado, de grande sucesso, uma ação preparatória ao ano de 2015, quando o Brasil será o país homenageado. Éramos cinco escritores oficialmente convidados, e havia outros que se encontravam de passagem e também entraram na programação.

Nos dois eventos percebia-se interesse pela literatura brasileira, além da mera curiosidade. Havia ótimo público nas palestras e lançamentos de traduções. Parecia que finalmente deixávamos de ser o país do carnaval, do futebol, da mulata sestrosa e dos índios, e passávamos o recado de que o Brasil possui escritores escrevendo bem. Mesmo que alguns agentes e editores ainda queiram apostar nos estereótipos de Brasil, nas cores exóticas fixadas pela literatura que mais foi traduzida e vendeu no mercado externo: a de Jorge Amado. Não refiro Paulo Coelho porque ele escreve livros sem fronteiras.

Há uma expectativa por literatura com cor e cheiro de Brasil, que não trate dos mesmos temas abordados por escritores europeus. Não compreendi bem o que é isso. O chamado romance de cultura, permeado de ensaios, com vários livros dentro do mesmo livro não é bem visto, segundo me falaram alguns agentes. Voltei dos encontros de Leipzig, Frankfurt e Paris um tanto confuso sobre nossa produção literária atual. Lendo os meus contemporâneos brasileiros, sou capaz de uma avaliação otimista, em que prevalece a diversidade de temas e muita criatividade. Lá fora, na Alemanha e na França, me parece que constroem um novo imaginário de Brasil, urbano como o restante do mundo, cercado de periferias e favelas violentas, mas sem o cuidado de uma análise mais profunda.

O outro gosto que percebi também existe nas bandas de cá, o da “pedofilia” literária, essa obsessão pelo que produzem os jovens, como se a pouca idade fosse garantia de escrever bem igual a Rimbaud.

Não será fácil exportar nossa literatura, conquistar leitores e ganhar o mercado. As pessoas só falam na crise do livro, na diminuição das vendas, na queda vertical do número dos que leem.  Foi esse o tema de uma longa conversa com alunos e professores da Sorbonne. É esse o tema de todas as conversas sobre livros. Conversar sobre problemas é buscar soluções. Na Universidade francesa, os professores se queixaram do baixo nível dos alunos. Eu me queixei de nossa precária formação escolar, dos analfabetos funcionais, da batalha que teremos de vencer para chegarmos a ser uma nação de verdade: a educação.

Os eventos de Leipzig e Paris são um passo firme. Há instituições como a Fundação Biblioteca Nacional, Embaixada do Brasil, Ministério das Relações Exteriores, Câmara do Livro e muitas pessoas comprometidas com o sucesso dos eventos. E consciência de que as ações não podem ficar num único passo, é necessária uma longa caminhada. Ainda bem que existe vontade para isso.