o dia da nuvem

Falecido em 30 de janeiro de 2004, no Rio de Janeiro, o crítico, escritor, tradutor e editor Fausto Cunha foi um dos mais importantes escritores brasileiros de ficção científica na segunda metade do século 20. Ele nasceu em Recife, Pernambuco, em 1923, e começou a escrever crítica literária da década de 50. Tornou-se figura importante nesse campo, nas décadas de 60 e 70, escrevendo extensivamente para revistas e jornais. Membro da “Geração GRD” (denominação que ele mesmo criou para o grupo de autores de FC promovido pelo editor Gumercindo Rocha Dorea), foi um dos principais nomes da Primeira Onda da FC Brasileira, com André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz, e Rubens Teixeira Scavone. Dorea acredita que ele pode ter começado a escrever FC instigado por Dinah.

A sua coletânea de contos As Noites Marcianas (1960) é obra importante desse período, com duas edições (a segunda é de 1969) que apresentam seleções bem diferentes. Em 1974 Cunha publicou seu primeiro e único romance, O Beijo Antes do Sono, e em 1975 O Lobo do Espaço, um livro juvenil. O Dia da Nuvem (1980), foi o seu ultimo livro de ficção, uma coletânea de histórias. O mesmo ano viu também o retorno de André Carneiro, com o seu primeiro romance, Piscina Livre (veja os drops desta semana).

Percebe-se que Cunha foi ainda mais ativo nos anos setenta, do que no decênio anterior. Nessa época, porém, a FC da Primeira Onda havia recuado para os fundos do palco, diante da proliferação de distopias e de obras alegóricas que tratavam de condenar a tecnocracia do regime ditatorial. O Dia da Nuvem é o conto-título, escrito em 1973, que melhor cabe dentro da tônica da época.

“Última Estrela” é uma novela que ocupa mais de um terço do livro. Narra uma aventura espacial muito sexy, e portanto sugere mistura de FC americana pulp e o desinibido tipo de FC pós-New Wave (o movimento que sacudiu a FC na década de 60, a partir da Inglaterra). O herói é Del Leinster – homenagem aos escritores Lester Del Rey e Murray Leinster, este último um autor que Fausto Cunha, o crítico, menciona várias vezes, e que Fausto Cunha, o editor, publicou em Antologia Cósmica (1981), uma das melhores antologias de FC já montadas no Brasil.

Retornando de uma operação de resgate planetário, Del Leinster pára no bar conhecido como Última Stella, onde é assediado por uma garota que é na verdade a rejuvenescida telefonista Ida (que aparecera na história anterior do mesmo livro, “O Começo de Aquarius”). O encontro sexual dos dois inclui sexo oral, mordidas e podofilia (o fetiche dos pés). Mais tarde o casal se encontra conversando com Fuad, o dono da taverna. Ida e Fuad tentam arrancar do herói seus segredos – especialmente aquele envolvendo o boato de um encontro com “aranhas” inteligentes. Quando parece que eles irão formar um grupo de aventureiros – como em Ringworld (1970), de Larry Niven -, a história simplesmente abandona essa linha e mergulha num flashback da aventura de Del Leinster, e vai com ele até o fim.

A nave de Del Leinster e seus amigos – incluindo a amante ocasional Rimma – foi desviada para resgatar cientistas no “Planeta das Aranhas”. Há duas espécies no planeta: uma espécie inteligente semelhante a aranhas, e uma não-inteligente, perfeitamente humanóide mas pigméia. Os humanóides são criados como gado pelos insetóides. O Prof. Thant é quem explica a situação, mostrando ao herói um espécime feminino, Ruka, que logo se oferece a Del Leinster (os nativos são muito ativos sexualmente).

Thant conta que membros masculinos da expedição científica vinham tendo sexo com as nativas. A perfeita conformação humanóide desses “animais” é perturbadora, no contexto, e leva um tripulante a bancar Deus, tentando educar e organizar entre os humanóides uma rebelião, e lhes ensinar a fazer fogo e com ele enfrentar as aranhas. É necessário partir com esse homem, mas as buscas não localizam esse “Prometeu”. Partindo do planeta, Del Leinster reflete que esse mundo “era bom demais para ser deixado a outra raça”, e que “as aranhas estavam com os dias contados”. Ele tem sentimentos ambíguos a respeito, mas não sente simpatia pelos insetos. Tanto essa pragmática atitude colonialista, quanto a ênfase na inversão de humanos-como-gado remetem aos clichês da FC norte-americana da Golden Age (1938-1948).

Rejeitada pelos cientistas, Ruka viaja na nave do herói, assim como uma das “aranhas”. Ruka tenta seduzir Leinster na viagem, mas ele resiste. Em quarentena sobre a Terra, a aranha é morta e Ruka é poupada. Já fora do flashback, Del Leinster desperta ao lado de Ida. Ele sonha com Ruka – um explícito sonho erótico. A novela, nesse tom onírico, fecha com um exercício concretista a lá Alfred Bester.

É fascinante, em “Última Estrela”, a evocação de aventura pulp (com clichês e tudo), com o cuidado na descrição do planeta, o conteúdo sexual explícito e o tratamento sutil das implicações de bestialismo no interesse de Del Leinster por Ruka. É claro que é possível se identificar um elemento de pedofilia e de diminuição da mulher, embutidas na figura de Ruka, mas o que resgata a história é que tais aspectos parecem assombrar o herói, sem que ele precise expricitar essa aflição.

Um trabalho peculiar, adulto e inquietante, dentro da ficção científica brasileira.

“Última Estrela”, Fausto Cunha. In O Dia da Nuvem, de Fausto Cunha. São Paulo: Livraria Cultura Editora, fevereiro de 1980, p. 107.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br