Uma tendência talvez importante de 2009 foi o aparecimento dos primeiros romances de personalidades da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira (1982 ao presente). Especificamente, em 2009, Fábio Fernandes publicou Os Dias da Peste (Tarja Editorial), e Gerson Lodi-Ribeiro o seu Xochiquetzal: Uma Princesa Asteca entre os Incas (Editora Draco). O primeiro é um romance de FC sobre a “singularidade” tecnológica, e o segundo um exemplo de FC de história alternativa. Para 2010 já foi anunciado o primeiro romance de Carlos Orsi, A Guerra Justa, também a sair pela Draco.

É bom contextualizar um pouco a problemática dos romances de ficção científica brasileira.

Os primeiros apareceram logo no século 19. O mais conhecido – e mais reconhecidamente ficção científica – é O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1825-1882), que assume os franceses Jules Verne e Camille Flammarion como influências diretas. O Doutor Benignus é um de três candidatos ao título de “Primeiro Romance de Ficção Científica da América Latina”, juntamente com el maravilloso viage del Sr. Nic-Nac, do argentino Eduardo Holmberg, e Historia de un Muerto, do cubano Francisco Calcagno – todos os três publicados em 1875.

Também interessante, Rainha do Ignoto (1899), de Emília Freitas é reconhecido por acadêmicos como o primeiro romance fantástico brasileiro, com elementos de FC de mundo perdido. O livro de Freitas e o de Zaluar estão disponíveis em edições críticas lançadas por universidades.

É nas primeiras décadas do século 20, porém, que surgem alguns dos melhores exemplos de romances brasileiros de FC: Esfinge (1908), de Coelho Netto (1864-1934), com elementos daquilo que Braulio Tavares chamou de “ciência gótica”, na linha de um Frankenstein de Mary Shelley; e A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1888-1959), e A República 3000 ou A Filha do Inca (1927), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois excepcionais romances de mundo perdido.

A década de 1920 também viu alguns dos piores romances brasileiros de FC, em geral parte de um ciclo de panfletos utópicos eugenistas, como O Reino de Kiato (No País da Verdade), de 1922 e escrito por Rodolpho Teóphilo; A Liga dos Planetas (1923), de Albino Coutinho (1860-1940); Sua Excia. a Presidente da República no Ano 2500 (1929), de Adalzira Bittencourt (1904-1976), publicado pela Companhia Editora Nacional de Monteiro Lobato (1882-1948), que, por sua vez, contribuiu para esse ciclo com O Presidente Negro ou O Choque das Raças (1926), controverso romance que voltou recentemente às livrarias, motivado pela eleição de Barak Obama à presidência dos Estados Unidos (onde a maior parte do romance é ambientado, ainda que no ano de 2228).

A década de 1930 viu a entrada em atividade de Jerônymo Monteiro, quintessencial autor pulp brasileiro que, altamente influenciado pelo inglês H. G. Wells, começou com o romance de mundo perdido O Irmão do Diabo em 1932 – um romance atribuído por Monteiro ao aventureiro alemão “Walter Baron”, mas que é mais provavelmente uma farsa literária baseada na ficção de aventura que circulava na época. Essa obra, que fala de uma Atlântida internada na floresta amazônica, foi republicada postumamente em 1973 pelo Clube do Livro, com o título de O Ouro de Manoa, revisada e demonstrando certa maturidade tardia na escrita desse importante pioneiro da FC.

Monteiro começou escrevendo literatura infantil e radionovelas com o seu herói pulp Dick Peter, que ele mesmo adaptou como novelas e romances populares na década de 30. Em 1947 ele publica uma de suas obras mais marcantes, 3 Meses no Século 81, uma dinâmica viagem no tempo para o futuro distante e para uma sociedade muito inspirada nas especulações de Wells – como de resto o romance todo, com uma guerra entre a Terra e Marte, e um confronto final entre os humanos rebeldes com a sociedade controlada de que desejam fugir. Uma espécie de seqüência, Fuga para Parte Alguma (1961) é um romance de fim de mundo que apareceu pelas Edições GRD e foi chamado de “marco da ficção científica brasileira” pelo crítico Fausto Cunha. Seus A Cidade Perdida (1948) e Os Visitantes do Espaço (1963) não são tão bem sucedidos.

Em 1958 Rubens Teixeira Scavone (1924-2007) lançou o seu primeiro romance, O Homem que Viu o Disco Voador, seguido deDegrau para as Estrelas (1961), obras que didaticamente explicam o mito do disco voador e a astronáutica. Scavone iria se notabilizar mais por seus contos e pelo romance mainstream de 1973, Clube de Campo, que recebeu um Prêmio Jabuti.

Esses foram alguns dos destaques da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972). O que se seguiu foi o Ciclo de Utopias e Distopias (1972-1982), mas poucos se lembram ou destacam obras desse período, excetuando o conhecidíssimo Não Verás País Nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão – embora esse renomado autor insista em dizer que não se trata de um romance de FC. Uma exceção desse período foram os dois romances do gaúcho Gerald C. Izaguirre, que produzia uma FC hard muito à moda de Isaac Asimov: Espaço sem Tempo (1977) e Fenda no Tempo (1980), ambos com o mesmo herói alienígena. Izaguirre publicou três livros, chegou a representar o Brasil em um encontro da associação World SF na Irlanda – e desapareceu sem deixar vestígios.

A FC hard é incomum no Brasil, e é o romance Padrões de Contato (1985), dentro dessa linha, que marca o teor da Segunda Onda (de 1982 ao presente): a variedade e a especialização temática. Escrito por Jorge Luiz Calife, é o primeiro da Trilogia Padrões de Contato, recentemente republicada em um único volume com ilustrações de Vagner Vargas, pela Devir. Os outros dois livros são Horizonte de Eventos (1986) e Linha Terminal (1991), sendo o primeiro, Padrões de Contato, continua uma referência importante na FC nacional.

Henrique Flory escreveu um épico de FC hard em Projeto Evolução (1990), e posteriormente só vimos algo semelhante com Infinito em Pó (2004), romance de nave de gerações escrito pelo mineiro Luís Giffoni, mas já contaminado pelo tipo de enfoque próprio do mainstream literário que antes tínhamos visto com Jogo Terminal (1988), de Floro Freitas de Andrade. E com Hegemonia: O Guerreiro de Basten (2007), de Clinton Davisson (resenhado aqui em 2 de agosto de 2008). Para este ano, Jorge Luiz Calife promete retornar ao universo da trilogia com uma “preqüência” – um romance que trata do que aconteceu antes de Padrões de Contato.

A Terceira Expedição (1987), do franco-brasileiro Daniel Fresnot, é uma despretensiosa aventura de pós-holocausto, e por isso mesmo um dos melhores exemplos desse subgênero, no formato do romance, elogiado por Gilberto Schoereder. Outra exceção é o romance de FC pré-histórica de Stella Carr, O Homem do Sambaqui (1975), resenhado aqui em 3 de maio de 2008, é interessante pelo seu uso poético e sugestivo da linguagem.

Os autores da Segunda Onda produziram contos e noveletas de alta qualidade, mas nem sempre contribuíram com romances de FC realmente substanciais. É testemunho tanto de como as coisas eram incertas nas décadas de 1980 e 90, quanto de como elas se tornaram mais abertas ao escritor, no momento atual, que alguns desses veteranos da Segunda Onda estejam publicando seus primeiros romances apenas agora.

No geral, é possível argumentar, a FC brasileira tem sido mais feliz na forma curta (contos, noveletas e novelas), do que com romances. Não se trata apenas de uma questão estatística – que a ficção curta seja mais fácil de encontrar espaço em revistas e antologias. De fato, um romance leva mais tempo para ser escrito;
às vezes exige mais pesquisa, e maior concentração para manter a consistência. Enquanto o conto freqüentemente se sustenta com uma única idéia, o romance precisa de uma riqueza de conceitos, de personagens e relações internas, para realizar seu potencial. O empenho em escrever um romance, quando o mercado é incerto, não parece se justificar – e freqüentemente os esforços de importantes autores mainstream em escrever FC no formato, como Erico Verissimo, Ruy Tapioca e outros, produz resultados pálidos porque esses autores não levaram o gênero tão a sério quanto deveriam.

Hoje, o mercado está muito mais receptivo – provavelmente mais aberto do que jamais foi, mesmo durante a Primeira Onda. Resta ao fã de FC esperar que esse estado de coisas resulte em um número de romances que mudem esse desequilíbrio do gênero no Brasil.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

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