Este conto foi inspirado por um incidente, envolvendo a Polícia Militar, ocorrido na Universidade de São Paulo há vários anos. 
 
 

AGRIPINO

O sargento Agripino tocou o braço do soldado Fontes e disse:

  - Pára ali, depois daquelas escadas.

  Fontes deteve a Chevrolet Blazer da Polícia Militar, estacionando em fila dupla. Agripino confirmou as informações que o segurança lhe havia passado na portaria da Cidade Universitária – lá embaixo, na mesma Avenida Prof. Luciano Gualberto, o prédio da Matemática, agora as escadas com corrimão de ferro, perto da placa de fundo azul e letras brancas: “Faculdade de Letras.” Era raro a PM entrar ali. Só a convite.

  - Vamos desembarcar, sargento? – Era o soldado Barreto, um tipo baixinho e ansioso.

  Agripino não se deu ao trabalho de responder. Olhou para o relógio. Depois pelo pára-brisa. Os limpadores, num ritmo preguiçoso, batiam de cá pra lá, contra a garoa. Eram 21h30 de uma noite chuviscosa e fria. A Prof. Luciano Gualberto era uma ampla alameda, divida por um canteiro arborizado tão largo quanto as pistas. Folhas caídas se acumulavam nas sarjetas, o asfalto molhado era um espelho lustroso e noturno. Parecia tudo tranqüilo.

  Viu uma outra viatura descer a avenida. Ela passou direto pela entrada mais próxima – teria que fazer o retorno lá embaixo. Também se guiava pela referência da Faculdade de Matemática. Matemática era uma coisa fácil de entender, mas o que era uma Faculdade de “Letras”?

  Agripino saltou pelo lado do passageiro. Os três homens que o acompanhavam desceram com ele. A segunda viatura se aproximou, parando atrás da Blazer. Dois PMs saltaram – um deles era o cabo Lima, um sujeito alto e magro, de olhos claros, vestindo só a calça e a camisa cinza com o colete de Kevlar por cima. Era quase uma farda de passeio. Por causa de vários incidentes envolvendo a PM, transformados em carnaval pela imprensa, o comando havia desenvolvido esse uniforme “menos militar”. Depois, quando viera a obrigatoriedade do colete a prova-de-balas, essa roupa de cobrador de ônibus ficou ainda mais ridícula. Lima não vestia o capote, mesmo com um tempo desses.

  Agripino o saudou com um aceno de cabeça e começou a subir as escadas. Lá na frente havia uma aglomeração de pessoas. Não era muita gente. Quando ele e os outros chegaram à entrada do prédio, um sujeito gordinho, de barba grisalha, roupa escura e óculos, se adiantou. Não fez nenhum gesto para cumprimentá-los – mantinha as mãos juntas cruzadas na frente do corpo, como se quisesse aquecê-las.

  - Eu sou o chefe da segurança aqui da Cidade Universitária – disse, falando para dentro da roda de PMs que se formou. – O caso é o seguinte. Houve um ato aqui, agora há pouco, contra o racismo. A motivação desse ato foram as declarações de um aluno daqui. – Ele indicou o prédio, com o polegar. Do primeiro andar, pessoas se agrupavam ombro a ombro contra amplas janelas envidraçadas. Agripino ouviu alguém dizendo, “chegaram os repressores”. – Só que durante a manifestação o rapaz apareceu, falou alguma coisa, e os outros, claro, caíram em cima dele. O rapaz e a namorada dele estão lá em cima, naquela classe – apontou um grupo de janelas iluminadas, com rostos ansiosos espiando por elas -, e quatro seguranças nossos estão lá, dois dentro, dois guardando a porta.

  Agripino ouvia tudo atentamente, acenando com a cabeça para encorajar o sujeito a prosseguir. À volta deles, mais gente – alunos, professores? – foi se achegando, encarando os PMs ou conversando entre si.

  - O aluno em questão – continuou o chefe da segurança – já está sendo processado pela justiça, por crime de propaganda nazista. Mas aconteceu esse problema aí – apontou para as pessoas aglomeradas junto as janelas -, e eu acho que vocês só têm mesmo que tirar ele de lá, levar até um ponto de ônibus ou qualquer outro lugar, dependendo do rapaz e da namorada. Deixando aqui as dependências da USP, o problema é deles.

  Agripino fez que sim. Não precisava dos detalhes. Compreendia bem a situação, a partir do seu ponto de vista. Ele e os colegas estavam ali pra fazer o trabalho sujo. Entrar lá dentro e tirar o sujeito e a namorada. “Quem me dera que todas as nossas ocorrências fossem assim tão claras”, pensou. Mas toda essa gente em volta podia trazer complicações.

  Notou em especial um rapaz que segurava uma pilha de livros com um braço por cima, para protegê-los da garoa fina. Parado perto deles, tinha uma expressão atenta e concentrada, parecendo ouvir tudo o que era dito. 

O ALUNO

Nada disso surpreendia o aluno. Ele era pequeno e com cara de moleque, mas tinha 32 anos e já vira muita coisa. O caso do seu “colega” neonazista ele vinha acompanhando só pela imprensa – nunca havia cruzado com o sujeito de cabelos escuros e espetados, rosto magro e espinhento e óculos de fundo-de-garrafa, nos corredores da Faculdade. Nada de mais. O próprio aluno não se considerava muito longe da imagem do nerd. A maioria dos seus amigos eram desajustados de um modo ou de outro. Alguns deles, os que ficaram na cidade do interior onde tinha crescido, até chegaram a ter contato com essa distorcida versão de neonazismo tropical. Amigos punks ou headbangers que se envolveram com os carecas do subúrbio ou que trocavam correspondência com europeus e americanos que achavam que os latinos até que eram simpáticos- para um povo de subumanos.

  O neonazista da USP tinha propalado as suas idéias numa página na Internet. Os caras do tal Núcleo de Consciência Negra, que promovia o ato contra o racismo, diziam que ele tinha feito panfletagem na faculdade também, mas o aluno nunca vira os tais panfletos.

  Ele assistira à primeira aula, enquanto as palavras de ordem eram gritadas dos alto-falantes, mas apesar disso o incidente lhe escapara. Alguns sujeitos de cabelo rastafari tinham patrulhado os corredores do prédio, aparentemente à procura do rapaz. Foi isso o que mais havia incomodado o aluno.

  Depois do intervalo, havia procurado a sala onde teria a segunda aula. Estava vazia, salvo por uma colega oriental cujo nome ele nem conseguiria pronunciar. Era pequena e magra e de traços finos. Sempre que a via, o aluno não conseguia evitar o impulso de manter dela uma distância segura – parecia quebradiça, ossos frágeis que se partiriam ao menor encontrão. Pela primeira vez o aluno notou o quanto ela era bonita.

  Será que vai ter aula, com essa bagunça toda, ela tinha perguntado.

  Talvez, ele disse. Eu espero que sim. É cedo ainda.

  Do corredor, era possível ver a agitação diante de uma das salas do corredor que concentrava muitas classes de francês, alemão e inglês. O aluno tinha se lembrado que o neonazista fazia o curso de lingüística. O que estava fazendo ali?

  Duas mulheres conversavam sobre o caso, apoiadas no anteparo que guarnecia o vão das escadas.

  Olha, gente, eu acho isso um absurdo, uma delas havia dito. Querer linchar o cara é mesma coisa que transformar ele em mártir. É isso que ele quer.

  É verdade, outra havia respondido, antes de perguntar: Você conhece ele?

  Não, nunca vi a cara do sujeito.

  Uma minúscula moça negra de cabelos rastafari então se aproximara do grupo. Falava português com um leve sotaque que o aluno levou algum tempo para identificar – português de Portugal, e o aluno lembrou-se que o português falado em alguns países da África tinha esse sotaque – e que o neonazista teria falado contra os alunos angolanos e moçambicanos que frequentavam a USP.

  Você tava lá, no grupo de linchamento, uma das outras tinha brincado.

  Não, não, ninguém vai linchar o cara, ela dissera. Se fizerem isso ele vai virar mártir, mas bem que eu gostaria de, ó, ela sacudira um punho escuro pouco maior que
o peito de um pardal, dar um murro na cara nojenta dele. O pessoal está lá na frente da classe só pra fazer ele sentir a pressão.

  Ele tá sozinho, perguntara a mulher que primeiro havia dito que tudo aquilo era um absurdo.

  Não. O pessoal tá lá ainda, tendo aula. Quando acabar é que eu quero ver. Acho que ele está com medo de sair. Você viu a namorada dele. Ela está lá dentro com o babaca.

  Não, não vi.

  A africana torcera o nariz e levantara outra vez a mãozinha, com polegar e indicador se tocando.

  Uma baranga. Eles bem que se merecem.

  O aluno se voltou para a sua colega oriental. Ela lhe dizia alguma coisa:

  Olha, eu vou ver na secretaria se vai ter aula.

  Tudo bem. Pelo jeito, não vai mesmo.

  Enquanto ela ia, o professor que lhes daria a próxima aula surgiu vindo da direção oposta. Era um inglês alto e corpulento, de barba rala e cabelos permanentemente desgrenhados, e que sempre caminhava rápido e com longas passadas. Estava um pouco mais agitado do que de costume.

  O senhor vai dar aula hoje, professor? o aluno tinha perguntado.

  No momento, não, ele respondera. Não com o que está acontecendo. Você sabe o que está acontecendo?

  Sei sim.

  Sim e não, deveria ter dito. A gente nunca sabe o que tá acontecendo, quando o que acontece é algo desse tipo, tinha pensado.

  O aluno deixara suas coisas na sala de aula e caminhara até o ponto de onde emanava a turbulência. Ele foi logo se enfiando no meio das pessoas, até estar bem próximo da porta. Ao seu lado estava um colega, um sujeito grandão, muito branco e de cabeça raspada, que parecia um lutador de luta-livre mas que tinha voz mansa e modos muito educados.

  E aí, o que tá acontecendo, foi perguntando.

  Sei lá, cara. Só sei que ele tá aí dentro, e que esse pessoal todo quer pegar ele.

  Não é nada disso, disse uma moça morena que estivera ali perto, ouvindo a conversa. Ninguém quer linchar o cara. Mas a gente também não quer deixar barato. Cê imagina que esse cara teve a petulância de querer falar alguma coisa, durante o protesto que tavam fazendo lá fora.

  Jura?- Era difícil para o aluno acreditar que alguém seria louco – ou corajoso, a esse ponto. Bom, taí um sujeito convicto.

  Ele é louco. O que que tem na cabeça de um cara desses, de fazer propaganda nazista num país que nem o nosso. Olha, quem é que não tem um pouco de sangue preto ou judeu, no Brasil?

  É mesmo. Olha só. O aluno então levantara o braço. Eu sou branquinho mas tenho uma bisavó preta. Ele imediatamente se sentira um tanto ridículo, com o argumento.

  Eu também tenho um pouco de sangue de negro e de judeu, a moça havia dito, sem se impressionar muito com o testemunho do aluno.

  Olha, pra mim isto aqui também não faz muito sentido. Apontou as pessoas em volta. Quer dizer, pelo que eu sei, o sujeito já tá sendo processado pela justiça. Pra mim é o suficiente. Ele pode freqüentar as aulas e tudo. Contanto, claro, que não continue fazendo propaganda nazista aqui.

  É, só que ele continua. Pô, outro dia me disseram que tinha um aluno negro sentado aí no corredor. O cara se levantou e depois apareceu esse neonazista com a namorada e um outro cara, e eles queriam sentar. E aí ele falou, não senta aí, esses pretos são tudo uns nojentos, não têm nada que estar estudando aqui.

  Putz. Aí não tem jeito.

  O aluno havia então se virado e voltado para a sala de aula. Bem a tempo de ver a colega oriental retornando.

  Não vai ter aula não, ela dissera.

  Pois é, eu falei com o professor.

  O que quele disse?

  Que, do jeito que tá, não vai ter aula. Por causa desse caso com o neonazista.

  Eu vou embora, então. Tchau.

  Tchau.

  O aluno pensou que o melhor era ir também. Ele tinha em seguida apanhado suas coisas e descido as escadas. Mulher e filho o esperavam em casa. Foi então que viu os PMs chegando, e parou.

  Quando eles formaram uma roda em torno do chefe da segurança, o aluno se adiantou o mais que pode, para ouvi-los.

  Ouviu primeiro o chefe da segurança apresentando o caso. Seu interlocutor era um sargento alto e magro, que ouvia tudo com atenção.

  Vocês querem subir pra examinar a situação? o sujeito perguntou.

  O aluno achou a idéia estúpida. Olhou para cima e viu o pessoal aglomerado junto às janelas, conversando, alguns dizendo em voz alta, repressores. Ao seu lado, um sujeito cabeludo com aquela cara típica de intelectual brasileiro da década de setenta, comentou com um colega, Como é que pode a polícia vir aqui defender um nazista filho da puta?

  É o trabalho deles, uma moça disse à colega, como se isso explicasse tudo. As duas estavam paradas, ao lado da roda de policiais. De onde estavam podiam ser ouvidas pelo cabeludo. O aluno percebeu que era isso o que a moça queria – sua voz estava cheia de enfado, como se dissesse uma coisa óbvia. E era.

  O aluno ouvi o sargento dizer que não, que só iriam subir quando estivessem prontos para tirar o sujeito de lá. Mas o aluno também viu que, se o sargento era um homem ponderado, alguns dos seus comandados olhavam com raiva para o pessoal aglomerado no primeiro andar. Repressores, polícia assassina, polícia racista, os caras gritavam.

  O sargento mandou que os policiais não lhes dessem atenção. 

AGRIPINO

- Deixa quieto, não olha – disse para Barreto e para o cabo Lima.

  - Pode deixar – Lima respondeu. – Eu só tô marcando a cara deles. Eu pego eles depois.

  Agripino achou que não precisava responder. Se Agripino não mandasse, Lima não ia fazer nada. Mas não gostava de ouvir esse tipo de conversa, ainda mais na frente de tanta gente. Bem diante dele, o rapaz que segurava os livros e cadernos não parecia perder nada da conversa.

  O chefe da segurança da Universidade estava falando mais alguma coisa.

  - Um dos nossos seguranças parece que viu um dos manifestantes com uma arma de fogo.

  Agripino respondeu, tentando transmitir segurança ao homem:

  - Seu eu ver ele vai ser preso por porte ilegal de arma.

  No mesmo instante, o soldado Barreto disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo:

  - Se ele puxar a arma ele morre.

  Era hora de sair dali.

  - Vamos deixar a situação como está, e esperar o Nascimento ali na frente.

  A roda de PMs se abriu e os homens caminharam para as escadas lá embaixo. Houve alguma manifestação do pessoal que se aglomerava ali, como se comemorassem a vitória momentânea de ver os policiais saindo, mas Agripino não se importou. A operação só iria começar depois da chegada do aspirante Nascimento. 

NASCIMENTO

O aspirante a oficial PM Jonas do Nascimento saltou da perua Ipanema que acabava de estacionar na frente da placa anunciando a Faculdade de Letras. Havia duas outras viaturas paradas em fila dupla, com os giroflexes colorindo tudo de vermelho e azul. Nascimento logo viu que os soldados que chegaram antes o esperavam ali perto.

  Sentiu-se aliviado ao reconhecer que era o sargento Agripino o comandante da operação, até a sua chegada. Tinha o sargento como um profissional competente e experimentado. Era bom contar com alguém assim. Nascimento era recém-formado da Academia do Barro Branco. Como aspirante a oficial, vivia seu estágio operacional nas ruas. Tinha sido um dos primeiros da sua turma, e não lhe faltava autoconfiança. Ainda assim, o trabalho era coletivo e era bom ter gente capaz por perto.

  - É ocorrência de? – perguntou.

  - Do tipo político – Agripino respondeu. – Mas pra nós é um problema de proteção a pessoa física. – Um caso meio bizarro. Envolve aí um sujeito que se diz neonazista, que andou fazendo propaganda.

  - Ah!
Eu vi na televisão. – Nascimento olhou em torno. Notou a aglomeração, registrou o caminho que teriam de percorrer até a entrada do prédio, e os olhares de expectativa dos soldados. – Quantos homens nós temos?

  - Com o senhor, nove – Agripino respondeu.

  - Certo. E qual é a situação?

  Agripino terminava de lhe passar um briefing bastante completo, quando um sujeito gordinho e de barba se aproximou.

  - É o chefe da segurança daqui – Agripino disse.

  - Tudo bem, tenente? – o sujeito perguntou. Nascimento por um segundo pensou em corrigi-lo, mostrando que a estrela vazada em seu ombro era a de aspirante, mas se conteve a tempo. O civil não ia entender nada. – O senhor já está a par da situação?

  - Já.

  - Tem alguma coisa que eu possa fazer pra ajudar?

  - Provavelmente a gente vai ter que usar os seus seguranças, mas chegando lá a gente diz pra eles o que fazer.

  - Certo. – O sujeito fechou as mãos diante do corpo e fez uma pausa, como se procurasse palavras. – O senhor acha que vai ter algum problema? Quer dizer, a gente não quer.

  - Tudo bem – Nascimento respondeu. Tinha uma idéia bastante clara do tipo de melindre que a sua presença causava na USP. – Não vai ter problema nenhum. É só entrar e sair. Pode ficar sossegado.

  Quando o chefe da segurança se afastou, Nascimento voltou-se para os seus homens. 

O ALUNO

O aluno gostou do oficial. Era um cara jovem, baixo e troncudo, de cabelos curtos muito escuros e farda engomada. Falava com segurança, sem vacilar. Ele conversou com os outros PMs, por alguns segundos, em voz baixa. O aluno só ouviu quando ele disse Vamos, e os PMs sacaram dos cintos suas tonfas pretas e lustrosas.

  Enquanto eles avançavam para a entrada do prédio do Letras, o aluno os acompanhou bem de perto, os olhos muito abertos. Podia esperar pelo pior, ou o oficial tinha razões para demonstrar a confiança que exibia. Os policiais formaram duas colunas, ombro a ombro, e entraram.

  Polícia assassina

  Polícia racista

  Repressores, repressores

  -gritavam os manifestantes.

  Os PMs subiram as escadas, cercados pelos gritos. O aluno os viu pararem diante da porta da sala de aula em que se escondia o neonazista. Sua atenção foi desviada para um grupo de rapazes que se agitavam ao seu lado.

  Vamos lá, cara, disse um deles, com um sorriso muito aberto no rosto. Chamava os colegas. Vamos ver o que vai acontecer. Cê não quer ir lá dar umas porradas.

  O aluno reconheceu o esgar e o brilho nos olhos do outro. Tinha visto isso antes. Uma vez, no interior, tinha visto uns trinta moleques perseguindo um rapaz de jeito efeminado, gritando pelas ruas que não queriam viados na cidade. Noutra oportunidade vira um bando de vinte, perseguindo um único sujeito que tinha ousado enfrentá-los. Quando ele se abrigou no quintal de uma casa, eles atacaram o seu irmão, que passava ali por perto. Tinham essa mesma cara de lobo faminto, nessa mesma folia violenta. 

NASCIMENTO

Entrou sozinho na sala de aula. Seus homens ficaram fora, abrindo um perímetro com as tonfas.

  Assim que entrou, dois seguranças se adiantaram. Entre eles estava um rapaz vestindo um moletom branco, com o capuz na cabeça, e uma moça morena de longos cabelos encaracolados. Nascimento notou que suas coxas grossas mal cabiam nos jeans, mas do rapaz só viu um queixo espinhudo de barba por fazer, e óculos de lentes fundas. “Então é esse o nazista?”, perguntou-se, mas afastou a questão. Era hora de fazer o serviço.

  - Vocês vêm com a gente – falou para os seguranças. 

O ALUNO

Os PMs começaram a descer as escadas, em meio à gritaria e com cadernos e outras coisas sendo atiradas contra eles. O aluno viu uma moça gorda descer os degraus balançando os peitos e então tropeçar e bater com a cara nas costas protegidas por colete à prova de balas de um soldado. Não fosse por ele ela teria se esborrachado, mas seu nariz de qualquer forma ia sair doendo dessa.

  O aluno saiu. Ali dentro os gritos eram ensurdecedores e ele queria ver e ouvir tudo o que podia, mas tinha medo de ser envolvido por toda agitação e perder algum detalhe essencial.

  De fora assistiu aos policiais passando pela porta, viu o lampejo escuro de uma tonfa contra o peito de alguém, viu a silhueta de um dos manifestantes saltar no ar e desferir um soco furioso para o meio do grupamento de PMs – que se abriu inesperadamente para despejar dois seguranças e o aluno neonazista e sua namorada. Ele tinha o rosto oculto por um capuz e a menina pareceu ao aluno ainda mais gorda e desajeitada, tentando vencer a força da gravidade e irromper numa corrida. Os quatro correram para as escadas que levavam à rua.

  Os PMs quebraram a formação mas não saíram correndo como os seguranças. Eles foram caminhando quase naturalmente, sem olhar para trás, alguns até guardando as tonfas nos cintos.

  Os últimos policiais a passar diante do aluno foram o PM gordinho que falava de morte e o oficial, que vinha empurrando o outro com golpes firmes e resignados. O soldado olhava para trás, o rosto enfurecido e a tonfa na mão trêmula, respondendo ao coro de provocações. O aluno não viu o rosto do oficial.

  Mas alguma coisa na farda engomada chamou sua atenção. Uma mancha de cuspe bem branca e espumosa se destacando contra o cinza escuro do uniforme. 

AGRIPINO

Viu com alívio quando a viatura com o rapaz e a garota arrancou, ganhando a avenida. “Missão cumprida”, Agripino pensou, diante da sua própria Blazer esperando por ele em fila dupla, com o giroflex dardejando.

  Às suas costas a turba vinha gritando os seus slogans, um raio azul e um vermelho borrando as suas faces a cada segundo. Os gritos soavam fracos, sem muita verdade. “Polícia isso e polícia aquilo”, a merda toda que se ouvia na televisão. Era como nos treinamentos de controle de distúrbios civis dos quais participara na escolinha de soldado, já há anos, com uma outra classe fazendo a figuração da turba, rindo e brincando e jogando bagaços de laranja e sacos plásticos cheios d’água. Tudo um teatro. A realidade era outra.

  Agripino entrou na Blazer e fechou a porta. O soldado Fontes entrou do outro lado e deu a partida. Só então Agripino olhou para os manifestantes. De repente se sentiu muito cansado. E doído. Um sujeito preto com cabelo de trancinhas tinha lhe acertado um murro de mão aberta bem na cabeça. Na hora não tinha doído muito, mas agora o entorpecimento se espalhava pelo couro cabeludo e pelos músculos do pescoço.

  ”Por que tanta confusão, afinal?” Agripino se perguntou, enquanto voltava o retrovisor do lado do passageiro para reconhecer lá o seu rosto intrigado, cansado, e negro. 

O ALUNO

Afastou-se da multidão. A viatura com o neonazista e sua namorada já estava longe. A Chevrolet Blazer novinha, com o maior grupamento de PMs, começava a se afastar da linha de carros estacionados.

  O aluno correu pela calçada, na direção do carro mais distante. Viu quando o oficial acenou para que as outras viaturas arrancassem.

  Pensou em lhe dizer qualquer coisa. Seu íntimo se agitava com sentimentos conflitantes. Espanto por tudo o que havia testemunhado. Vergonha. Alívio. Talvez o oficial merecesse que alguém lhe dissesse que havia feito um bom trabalho. Que não era culpa da Faculdade e de seus alunos. Que tudo aquilo fora qualquer coisa sem sentido, uma folia de violência e de ideologias desajustadas e subnutridas, que brotara da noite escura tropical.

  Mas o aluno não tinha palavras.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

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