Dreadstar: A Odisseia da Metamorfose (Dreadstar: The Beginning), Jim Starlin. São Paulo: Devir Livraria, outubro de 2011, 130 páginas. Tradução de Leandro Luigi Del Manto. ISBN: 978-85-7532-490-5
Na introdução deste álbum de luxo lançado recentemente pela Devir, o editor de quadrinhos dessa editora de São Paulo, Leandro Luigi Del Manto, relata os seus contatos anteriores com essa incomum obra de quadrinhos feita pelo americano Jim Starlin para a revista Epic Illustrated, criada em 1980 para concorrer com a famosa Heavy Metal.
Del Manto primeiro conheceu a versão brasileira intitulada Epic Marvel, que não durou muito tempo. Essa revista saiu pela Editora Abril, e em 1987, quando Del Manto trabalhou nessa editora, viu em seus arquivos exemplares da revista original americana. Eles mostravam que justamente os primeiros episódios de Dreadstar haviam sido deixados de fora da edição brasileira. Anos mais tarde, quando ele foi para a Editora Globo, teve chance de trabalhar na edição da revista Dreadstar: O Guerreiro das Estrelas, lançada em 1990. Apenas na Devir, e agora em 2011, é que ele encontrou a oportunidade e as condições para lançar o álbum com o início das aventuras do herói espacial.
Suas aventuras começam, porém, com um grande prólogo, em que o mago Aknaton, um destacado membro da raça alienígena dos orsirosianos, tem uma visão aterradora do futuro: seu mundo foi invadido pelos implacáveis zygoteanos, que estenderão o seu domínio macabro sobre toda a galáxia, espalhando a crueldade e a tortura, sem esperança de redenção a qualquer um dos povos subjugados.
Aknaton prepara então, um esquema para derrotar definitivamente os zygoteanos. Para isso ele planta uma memória racial entre os Homo sapiens, e potencial para a razão em um brutal mundo de canibais em Alpha Centauri, além de deixar num planeta de Vega uma espada de gelo. Antes ele já havia criado e escondido a “trombeta do infinito”, arma derradeira contra os invasores.
Milênios mais tarde, ele retorna para colher o que plantou: Zá, um gigantesco antropóide que desenvolveu uma consciência, apesar de viver em uma cultura de canibais; Juliet, uma jovem adolescente americana, única sobrevivente do ataque zygoteano à Terra e símbolo da juventude e da ambição; e Whis’par, uma elegante mulher alada que anda o tempo todo semi-nua e que representa a pureza e o espírito inquiridor.
A arte de Starlin começa como uma pintura em tons de cinza, empregando recursos de fotografia e iluminação, pendendo muito para a técnica do autocontraste, o que dá a todo o álbum uma qualidade sombria, noturna e onírica. A cor só se insinua, e lentamente, quando a equipe se forma. Apenas no capítulo 5 é que a pintura adquire a sua paleta completa.
Nesse capítulo, Aknaton vai ao planeta gelado Byfrexia, em Vega, à procura de Vanth Dreadstar, um guerrilheiro que enfrentava os zygoteanos com a espada de gelo plantada pelo mago, tanto tempo atrás. Louro, pragmático, barbudo e com uma espada mágica que lhe dá poderes quase que sobrenaturais, Vanth é mistura de Han Solo e Luke Skywalker, e foi escalado por Aknaton para ser o guarda-costas da sua equipe. Antes de se unirem a eles, porém, os dois fazem uma parada em outro mundo devastado pelos zygoteanos, para apanhar com um homem artificial criado por Aknaton o segredo da localização da trombeta do infinito.
Há muitas peripécias a cada capítulo (que apareceu como episódios na Epic Illustrated), com lutas, tiroteios, escapadas e batalhas espaciais. O trabalho pintado perde um pouco da consistência a partir do capítulo 8, provavelmente por causa dos prazos de produção, mas no capítulo 9 essa mudança de estilo é a base de um momento místico e psicodélico da saga – quando Aknaton encontra Rá, o deus do seu povo, que o conduz a uma série de visões alternativas do futuro da galáxia.
Dreadstar é uma fantasia científica que mistura presente e futuro, tecnologia e magia, com altas doses de misticismo. Nada faz muito sentido, e a disposição de Aknaton, de aniquilar a Via Láctea para destruir o reino de terror dos zygoteanos lhe dá um caráter de terrível determinismo. A afirmativa de Starlin, na entrevista que aparece no final do álbum, de que escreveu Dreadstar pensando em como a experiência da guerra do Vietnã envolveu a psique dos Estados Unidos, só pode ser admitida por uma abordagem extremamente indireta do conflito.
A rejeição a essa guerra, porém, foi um dos pontos centrais do movimento da FC New Wave na Inglaterra e nos Estados Unidos, e as características míticas e oníricas da saga sugerem uma forte vinculação com a estética e as estratégias da New Wave americana, assim como o seu tom apocalíptico. E é bom lembrar que alguns autores americanos da New Wave flertaram com o formato dos quadrinhos, no final da década de 1970 e durante a década de 1980. Empire, por exemplo, foi a tentativa de Samuel R. Delany, o grande nome da New Wave dos EUA, em parceria com o artista Howard Chaykin.
A New Wave americana gostava de brincar com mitos e religiões antigas, como Starlin faz aqui com os egípcios, e o escritor Roger Zelazny (1937-1996) empregou esses recursos seguidamente. Diz muito que Starlin revele na entrevista que Zelazny seria o seu autor favorito. Por isso, o às vezes deslumbrante, às vezes inquietante Dreadstar: A Odisseia da Metamorfose deve ser um dos principais exemplos de como a New Wave na ficção científica americana influenciou os quadrinhos adultos daquela época.
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