Pequeno Irmão (Little Brother), Cory Doctorow. Rio de Janeiro: Galera Record, 2011 2008, 398 páginas. Tradução de André Gordirro. Posfácios de Bruce Schneier, e de Andrew “bunnie” Huang. ISBN 978-85-01-08721-8


(foto: Divulgação)

Quando Bruce Sterling esteve em São Paulo em dezembro de 2010, ele disse às pessoas presentes na Universidade Cruzeiro do Sul onde deu uma palestra e uma oficina, que os melhores escritores cyberpunk da atualidade são dois canadenses e um britânico: William Gibson, Cory Doctorow e Charles Stross.

Gibson tem sido publicado com constância pela Editora Aleph, de São Paulo, mas Doctorow estreou no Brasil apenas no segundo semestre de 2011, com este romance dirigido ao leitor jovem, muito bem recebido no exterior – ganhou os prêmios Prometheus e John W. Campbell Memorial, sendo também indicado ao Hugo – e que esteve na mira de outras editoras nacionais, antes de ser publicado pela Record.

O romance acompanha o protagonista Marcus Yallow, que mora na cidade de San Francisco e tem só 17 anos. Marcus é também o narrador, e através dele o leitor aprende sobre a sua vida de estudante americano geek, capaz de manipular computadores e sistemas, e que usa os seus conhecimentos para burlar o sistema de vigilância da escola e escapar com os amigos para jogar uma espécie de role playing game pelas ruas da metrópole californiana.

Seu principal parceiro nessas aventuras é o seu melhor amigo, Darryl Glover. Mas em um desses dias em que eles e outros colegas estão fora da escola, San Francisco sofre um terrível ataque terrorista. No pânico geral que se segue, Darryl é esfaqueado na rua, e Marcus, desesperado para conseguir ajuda, salta na frente do que acabou sendo uma viatura do Departamento de Segurança Nacional. Ele, Darryl e os outros são imediatamente agredidos, algemados, encapuzados e retirados clandestinamente da cidade.

Levado a uma ilha, Marcus sofre terrível tortura psicológica e privação dos seus direitos. O fato de ele ter modificado o seu celular chama a atenção de uma fria interrogadora, que o castiga severamente pela sua hesitação em responder às perguntas. Forçado a assinar um documento em que declarava ter se submetido voluntariamente ao interrogatório, ele é finalmente liberado, embora Darryl continue prisioneiro.

Livre, Marcus não conta nada aos seus pais ou colegas, e começa a se articular secretamente para embaraçar o DSN, embora logo fique claro que ele continua na mira da agência governamental. O que Marcus faz é usar uma cultura alternativa jovem de tecnologia digital, internet e jogos para criar uma rede de usuários livre da bisbilhotice do DSN: é a Xnet, criada a partir de um console de videogame, o Xbox, e de uma versão encriptada do sistema operacional Linux. A partir da Xnet ele vara a blindagem que o governo e o DSN construíram junto com a imprensa, as agências governamentais e os setores retrógados da sociedade, e começa a expor os desmandos e abusos do sistema.

“Pequeno Irmão” é claramente uma brincadeira com “Grande Irmão”, o grande líder estereotipado, sinônimo de vigilância e opressão do Estado sobre os indivíduos, que o inglês George Orwell criou no seu clássico romance distópico, 1984 (1949). Doctorow, por sua vez, sugere efetivamente um Estado policial que – assim como 1984 descrevia a atmosfera de paranóia stalinista na União Soviética – tem o seu germe nos Estados Unidos pós-11 de Setembro: um mundo de vigilância eletrônica, policiamento militarizado, interceptação telefônica, tribunais secretos, prisões ilegais e tortura. O livro foi publicado originalmente em 2008, e o fato do presidente Barack Obama não ter revertido muito dessa tendência só faz multiplicar o interesse de Pequeno Irmão.

Marcus representa o indivíduo determinado a não ceder aos abusos do seu governo, e o “Pequeno” de “Pequeno Irmão” simboliza o poder do cidadão comum, contra todo o poder do Estado. O romance explora muito bem as inevitáveis divisões de opinião entre as pessoas – divisões que o herói encontra em casa, na escola e no seu círculo mais íntimo de amigos. No percurso, ele descobre o amor e o sexo, a solidariedade de várias pessoas, o heroísmo individual de outros, e as suas próprias convicções políticas sobre como deve ser a democracia americana. Atmosfera paranóica é bem construída e, conforme o cerco aperta em torno de Marcus, vem a sustentar um forte clima de suspense.

Faltou, a meu ver, um panorama das coisas que fugisse da situação específica de San Francisco – como estaria o país como um todo, e como seria o cenário internacional nesse futuro tão próximo. Ao mesmo tempo, como o ataque a Darryl e sua prisão fazem parte do momento de virada do romance – da vida cotidiana de Marcus para a sua vida clandestina -, senti que Darryl como personagem ficou meio que desperdiçado, e que a reação de Marcus perante tudo o que ocorreu com o amigo deixou muito a desejar. É como se Marcus não tivesse tempo de lamentar a sorte do seu melhor amigo, enquanto corre de uma descrição de tecnologia digital e outra. Doctorow perdeu aí uma grande oportunidade de criar um núcleo emocional mais forte, para o romance. A cena de sexo entre Marcus e sua namorada Ange também é particularmente embaraçosa.

O tradutor André Gordirro lida bem com os conceitos tecnológicos e com a gíria jovem, trazendo o livro mais para perto do leitor brasileiro. Ficou faltando, porém, um trabalho de preparação mais consistente – há palavras corrompidas, e uso errático de itálico e de outras formatações.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

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