Nas Montanhas da Loucura (At the Mountains of Madness), H. P. Lovecraft. São Paulo: Hedra, 2011 1936, 132 páginas. Tradução e edição de Guilherme da Silva Braga. Introdução de Guilherme da Silva Braga, anexos. ISBN 978-85-7715-228-5

A Sombra Vinda do Tempo (The Shadow Out of Time), H. P. Lovecraft. São Paulo: Hedra, 2011 1936, 118 páginas. Tradução e edição de Guilherme da Silva Braga. Introdução de Guilherme da Silva Braga, anexos. ISBN 978-85-7715-264-3

Difícil aquilatar o status de autor cult que possui H. P. Lovecraft (1890-1937). Aparentemente, esse autor de ficção pulp dos anos 1920 e 30, morto de câncer aos 46 anos, foi cultuado ainda em vida. Existiu até um”Lovecraft Circle”, composto de contemporâneos de Lovecraft, que emprestavam elementos dos seus Mitos de Cthulhu, e do qual fizeram parte Clark Ashton Smith e August Derleth, entre outros.

Depois de sua morte, Derleth e Donald Wandrey criaram a editora Arkham House, destinada primariamente a preservar e promover a obra de Lovecraft, mas que também se tornaria importante na abertura das bibliotecas públicas americanas, um mercado enorme, para livros de FC e fantasia em capa-dura. Em 1945, na introdução a Best Supernatural Stories of H. P. Lovecraft, Derleth informava que a cidade de Providence, onde Lovecraft nasceu e viveu a maior parte de sua vida, havia se dado conta do gênio literário do macabro que nascera ali, o que deve ter ajudado a manter a fama do escritor.

Na década de 1960, autores como Lovecraft e Robert E. Howard, que apareceram na revista Weird Tales, foram redescobertos e republicados intensamente. Lovecraft viria a influenciar o trabalho de diversos escritores, entre eles Stephen King e Clive Barker, e encontrou uma nova geração de glosadores dos seus”Mitos de Cthulhu”, como Brian Lumley. No Brasil, o recluso de Providence influenciou escritores como Tabajara Ruas, Carlos Orsi e Miguel Carqueija.

A década de 1980 viu uma série de pequenos filmes de baixo orçamento baseados em seus contos, ajudando a entramar as imagens perturbadoras da sua ficção na cultura popular. Então, vieram mais tarde RPGs, histórias em quadrinhos (veja aqui resenha de Lovecraft, HQ de Hans Rodionoff & Keith Giffen) e finalmente a atenção crítica, culminando na publicação dos seus escritos na prestigiosa Library of America, em edição organizada por Peter Straub, na qual Lovecraft é chamado de”o Edgar Allan Poe do século 20″. No século 21, não apenas o seu status Cult não dá sinais de enfraquecer, como Lovecraft se torna uma das referências da assim chamada New Weird Fiction de China Miéville e companhia.

No Brasil, Lovecraft foi primeiro publicado pelas Edições GRD, em 1966, com O que Sussurrava nas Trevas (The Dunchich Horror and Others). Mais tarde, o escritor apareceria na coleção Mestres do Horror e da Fantasia, da Francisco Alves, na década de 1980. Desde fins da década de 1990, ele se tornou um habitué entre pequenas e médias editoras como a Campanário e a Iluminuras, mas publicado também na L&PM Pocket.

Já as edições que a editora paulistana Hedra tem colocado nas livrarias brasileiras são feitas sob medida para o lado Cult de Lovecraft: são traduzidas e editadas pelo especialista Guilherme da Silva Braga, que, nas introduções, apresenta as origens e a história editorial da noveleta ou novela que dá título ao livro; e depois do texto ficcional, tem-se um número de anexos que incluem correspondências, poemas ou anotações.

A muito citada novela Nas Montanhas da Loucura foi originalmente publicada na revista Astounding Science Fiction em 1936, serializada nas edições de fevereiro, março e abril. Muitas liberdades foram tomadas pelo editor Orlin Tremaine, para tornar a novela mais pulp – o que desagradou a Lovecraft. A edição que a Hedra traz é aquela corrigida por ele.

Astounding Science Fiction era, evidentemente, uma revista de ficção científica, e Nas Montanhas da Loucura faz parte de uma fase de transição de Lovecraft em que ele deixava de lado o horror sobrenatural, para trabalhar no seu conceito de”terror cósmico”. Também fazem parte dessa tendência o notável conto A Cor que Caiu do Espaço (1927), publicada em Amazing Stories, e, no Brasil, também pela Hedra em 2011.

A novela é narrada em primeira pessoa pelo geólogo William Dyer, parte de uma complexa e rica expedição organizada pela Universidade Miskatonic, de Arkham (a cidade fictícia de Lovecraft), ao continente antártico. O objetivo do seu relato – que mistura descrições científicas a impressões altamente subjetivas do personagem – é alertar a outros exploradores para não seguirem os seus passos e de seus colegas, na vasta cordilheira que eles descobriram na Antártida – e nela, oito corpos congelados de uma espécie inteligente desconhecida da ciência. Mais tarde, já que esses seres corresponderiam à descrição de uma das raças antediluvianas tratadas no (pseudo) livro Necronomicon (muito citado por Lovecraft em suas histórias), são batizados de”Grandes Anciões”.

Esse é um dos aspectos mais interessantes de Nas Montanhas da Loucura e de A Sombra Vinda do Tempo – como os mitos inventados por Lovecraft e seus amigos são assumidos pelos narradores como formando uma erudição alternativa, que se mistura com os conhecimentos geológicos e históricos aceitos. Essa sugestão literária de esquizofrenia cultural responde por parte do clima de loucura desses textos.

O enredo de Nas Montanhas da Loucura prossegue com um acampamento avançado da expedição sendo devastado por um atacante desconhecido. Homens e cães são mortos, e, prosseguindo com o enredo, Dye e um colega, Danforth, subsequentemente encontram uma vasta cidade perdida dos Grandes Anciões – e nela, murais e esculturas que contam a história dessa espécie inteligente e dos seus contatos com outras criaturas bizarras aparentemente saídas das páginas do Necronomicon. O resultado é absolutamente fascinante, embora compactado e com muitas liberdades – dificilmente Dye e os outros conseguiriam escavar, interpretar e classificar registros fósseis de pronto como o fazem; e quanto à interpretação da arte dos Grandes Anciões, toda uma história, com conhecimentos de biologia e geologia embutidos, são abstraídos daquilo que é essencialmente uma arte alienígena.

Tanto aqui quanto em A Sombra Vinda do Tempo, a atmosfera que Lovecraft compõe, apesar de qualquer exagero de adjetivação, é o grande efeito. O modo que predomina é o descritivo, e as imagens que ele compõe são envolventes, inquietantes e assustadoras. Lovecraft exprime um interesse genuíno pelas aventuras de exploração, e de algum modo a paisagem antártica que envelopa a narrativa de outras inteligências e de outras eras ajuda a compor um forte clima de estranhamento, combinado com a onipresente sensação de haver sobreviventes dessas eras passadas, rastejando pelos corredores gelados da cidade perdida.

A gênese de A Sombra Vinda do Tempo também é explorada na apresentação de Braga para esse título: Lovecraft nunca trabalhou muito com o conceito de viagem no tempo por uma espécie de”transmigração da alma” ou da mente (como o brasileiro Jerônymo Monteiro o faria em 1947, com o romance 3 Meses no Século 81), mas nunca esteve particularmente satisfeito com o resultado, e desistiu de submetê-lo a Weird Tales. Contudo, cópias do manuscrito circulavam no Lovecraft Circle, e, ao saber que Astounding havia adquirido Nas Montanhas da Loucura, Donald Wandrey resolveu enviar a novela à mesma revista. A história foi publicada na edição de agosto de junho de 1936.

Aqui há igualmente uma panorâmica sobre uma erudição
alternativa, que revela a presença de monstros inomináveis, no passado da Terra. O protagonista-narrador desta vez é o professor economia em Miskatonic, Nathaniel Wingate Peaslee, que sofreu um episódio de amnésia que dura cinco anos, nos quais ele se comportou estranhamente e viajou pelo mundo. Quando ele recupera a memória, vêm com ela a recordação de estranhas visões e fatos não-vividos.

Boa parte da história é uma reconstituição feita por Peaslee, do que teria sido a sua trajetória, nos anos do seu transtorno mental. Mais do que isso, recorrendo àquela mesma erudição que remonta ao Necronomicon (aparentemente um texto popular na Miskatonic University), reconstitui um processo no qual sua mente teria sido trocada pela de um alienígena. Esse explorador caminha pelo nosso mundo, colecionando línguas e conhecimentos de toda ordem. Enquanto isso, a mente de Peaslee estaria, à revelia, no mundo do alienígena, registrando para eles os seus próprios conhecimentos.

Desta vez, é a raça de seres cônicos conhecida como a Grande Raça de Yith que a narrativa evoca. Mas aqui também há uma expedição a uma vastidão austral – Peaslee escreve sobre suas pesquisas em uma revista científica, que acaba chamando a atenção de um aventureiro australiano. Esse homem, Robert Mackenzie, lhe escreve relatando estranhas ruínas encontradas num deserto da Austrália e Peaslee e seu filho Wingate organizam uma expedição – da qual, inclusive, William Dyer participa, e durante a qual Peaslee encontra evidências que lhe causam um perturbador déjà-vu.

O leitor que conhece o romance de Lovecraft, O Caso de Charles Dexter Ward (disponível no Brasil pela L&PM Pocket), vai achar os enredos muito semelhantes. O romance é um tratamento da mesma idéia de viagem no tempo por transmigração da alma, mas Lovecraft, insatisfeito com o resultado, nunca o submeteu para publicação – o que veio a ocorrer apenas após a sua morte. Talvez por ser mais compacta, A Sombra Vinda do Tempo tem mais força.

Os anexos de Nas Montanhas da Loucura trazem uma carta de Lovecraft ao escritor Frank Belknap Long, datada de fevereiro de 1931, em que o primeiro relata o seu descontentamento com a sua própria literatura. Seu interesse estava em uma fantasia que evocasse, pela expressão poética, padrões de sonho que transmitissem algo de universal sobre o ser humano. Mas ele próprio se achava”saturado demais com os gestos vazios e os pseudo-humores de um mundo arcaico e desaparecido para ter qualquer (relacionamento) eficaz com os símbolos de uma realidade onírica expandida”. Lovecraft em seguida expõe um projeto literário que julga estar ao seu alcance, e que soava de grande interesse.

Lovecraft disse que”existe um outro estágio da fantasia cósmica (…) cujas fundações parecem-me mais sólidas do que as da oneiroscopia trivial; uma limitação pessoal relativa à sensação de sideralidade (…) a cristalização estética do ardente e inextinguível misto de opressão e deslumbre que a imaginação sensível recebe ao medir-se a si mesma e a todas as restrições inerentes em si contra o vasto e provocador abismo do desconhecido”. Ele afirmou que esse medo do desconhecido era o traço dominante da sua psicologia, e certamente o fundamento do seu conceito de”terror cósmico”.

Parece natural, portanto, que Lovecraft tivesse levado a sua weird fiction para as páginas de Amazing Stories e Astounding Science Fiction. Nessas e em outras revistas, a curiosidade sobre o desconhecido ou sobre o universo passou a se expressar sob a forma do que viria a ser chamado de efeito central da ficção científica, o “sense of wonder” ou”sentido do maravilhoso”. Em Lovecraft, essa sensação vinha como “awe” ou espanto, freqüentemente levando ao terror.

É interessante especular o que teria acontecido se a carreira de Lovecraft não tivesse sido interrompida precocemente. Teria o seu gênio sombrio contrabalançado a tendência otimista da FC, com novos trabalhos impactantes de terror cósmico, gerando uma tendência rival? A FC popular vivia a sua infância nas páginas das pulp magazines, e estava aberta a novas transformações. Uma resposta possível está nas correntes novas do século 21, o New Weird e a nova space opera, lembrando que o vulto gigante de Lovecraft ainda projeta uma sombra vastíssima, vinda do passado até o nosso presente.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance Anjo de Dor.

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