Terra Magazine

 

Terça, 3 de abril de 2007, 07h49

Com novo PIB, Brasil tem IDH de 'primeiro mundo'

Daniel Bramatti

"IDH sobe e Brasil entra no clube do Alto Desenvolvimento Humano"; "Para ONU, Brasil já não é um país pobre"; "Com PIB e renda maiores, país chega ao primeiro mundo da área social". Manchetes como estas estarão em todos os jornais quando a ONU atualizar, com o novo PIB brasileiro, a base de dados que alimenta o cálculo do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

Para os leitores de Terra Magazine, a notícia não será novidade. Sim, o Brasil já entrou no seleto grupo de países com "alto desenvolvimento humano" - em 2005, para ser mais exato.

Leia também:
»Pobreza cai desde 2001, diz secretário

»FMI erra e subestima renda dos brasileiros
»Salário mínimo alcança marca dos US$ 200

O IDH é uma espécie de nota, de zero a um, que avalia a qualidade de vida em 177 países com base nos critérios renda, escolaridade e longevidade da população.

O último relatório, publicado no ano passado a partir de estatísticas de 2004, dava ao Brasil a nota 0,792, o que o situava entre as 83 nações de "médio desenvolvimento humano" - Colômbia, Venezuela e Albânia estavam entre seus vizinhos no ranking.

A promoção para o andar superior ocorre principalmente graças a um significativo ajuste estatístico. Ao atualizar a metodologia do cálculo do Produto Interno Bruto, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) descobriu que, em 2005, éramos 10,9% mais ricos do que imaginávamos (leia aqui).

Graças a esse incremento no PIB e na renda per capita, o IDH sobe para exatos 0,800 - o mínimo necessário para o Brasil entrar no grupo de 63 países com "alto desenvolvimento humano" - liderado pela Noruega (0,965) e onde já estão os vizinhos Argentina (0,863), Chile (0,859) e Uruguai (0,851).

Com o crescimento da economia em 2006, de 3,7%, a nota brasileira sobe para 0,803. Se os dados de 2004 fossem revistos pela ONU, o IDH passaria de 0,792 para 0,797 - o país subiria três posições no ranking e empataria com a Rússia.

O recálculo do IDH foi feito por Terra Magazine, com metodologia supervisionada pelo economista Fernando Prates, da Fundação João Pinheiro, especialista no assunto. Foram usados dados do Pnud - órgão das Nações Unidas que divulga anualmente o ranking do IDH -, do IBGE e do FMI.

Nas contas não estão considerados os itens educação e longevidade, que compõem o IDH com o mesmo peso que a renda. E é quase certo que o Brasil apresentará avanços também nessas áreas - sua nota será, portanto, maior.

O Pnud considera, em sua base de dados referente a 2004, que os brasileiros têm uma esperança de vida ao nascer de 70,8 anos. Mas o IBGE, em 2005, calculou que esse índice já chegou a 71,9 anos. A esperança de vida é a estimativa do número de anos que vão viver, em média, as pessoas nascidas em um determinado ano.

Também houve avanços ainda não medidos no campo da educação. A taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais subiu de 88,6% em 2004 para 88,9% em 2005. Outro indicador considerado é a taxa bruta de matrículas, que estima o percentual de cidadãos excluídos do sistema educacional. Nesse caso ainda não há números atualizados, mas a tendência tem sido de melhora nos últimos anos.

O novo IDH não significa que, de um dia para o outro, o Brasil se transformou em paraíso social. O corte de 0,800 é arbitrário e o conceito de desenvolvimento humano é subjetivo. Estatísticas às vezes ocultam aspectos da realidade - dois países com a mesma renda per capita podem ser completamente distintos se, em um deles, a elite abocanha a maior parte da riqueza.

Mesmo com as ressalvas, não há como negar que o IDH é um dos melhores parâmetros de avaliação da eficácia das políticas públicas. E ele mostra que o país está avançando, há muito tempo. Se a miséria não foi eliminada, é cada vez menor seu peso relativo no conjunto da sociedade.

No ano passado, mesmo antes do recálculo do PIB, o Brasil já foi apontado no Relatório de Desenvolvimento Humano do Pnud como exemplo de melhoria na distribuição de renda. "A boa notícia é que a desigualdade extrema não é algo imutável. Nos últimos cinco anos, o Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, tem combinado um sólido desempenho econômico com declínio na desigualdade de rendimentos (...) e na pobreza", dizia o texto.

Certamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva relacionará a melhora do índice aos programas sociais de seu governo. Terá bons argumentos: com Bolsa-Família, valorização do salário mínimo e quase 5 milhões de novos empregos formais, a renda dos mais pobres de fato cresceu, o que amplia acesso a alimentos e remédios e tem impacto direto no aumento da longevidade. Mas foi no governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, que a educação básica foi praticamente universalizada.

Ainda não está claro se a ONU passará a considerar os novos números do PIB brasileiro já em 2007 ou somente em 2008. Mas é certo que eles serão aceitos - no cálculo do IDH, o que vale são as estatísticas oficiais de cada país.

Para os que vêem "manipulação" na melhora súbita do PIB, um aviso: é praticamente consensual a opinião dos especialistas de que o IBGE mudou a metodologia para melhor. Agora o instituto consegue captar melhor o tamanho e os movimentos da economia - com a metodologia anterior, deixava de "enxergar" uma geração anual de riquezas equivalente a quase cinco vezes o PIB do Uruguai.


 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol