Terra Magazine

› Terra Magazine › Cultura › Cinema

Quinta, 20 de outubro de 2011, 07h21

"Artistas" e bandidos de faroeste

Paquito
De Salvador (BA)

Na cidade onde nasci e vivi até os dez anos, Jequié, chamava-se "artista", em vez de "mocinho", ao herói dos westerns, em oposição à figura do bandido. Concluo que, como os atores eram, genericamente, artistas, a palavra pegou pra nomear o protagonista. E brincávamos de "artista e bandido", querendo ser cowboys. Lembro de chegar em casa de minha tia Inês, e estarem todos os seus cinco filhos homens - meus primos -, na frente da TV em preto e branco, assistindo westerns. Não havia seletividade, se assistia a qualquer filme, contanto que fossem, como se dizia, de bang bang. Fazia parte da vida de menino sonhar com aquele universo de homens mantendo a lei a ferro e fogo em ambiente hostil.

E o primeiro "artista" de que me lembro é Durango Kid, citado por Raul Seixas em canções, e modelo para Waldick Soriano, não por acaso, dois artistas - já na acepção que conhecemos - baianos. As cidades nos westerns tem um quê do interior do Nordeste brasileiro, com as ruas empoeiradas, o calor e um clima de "isso aqui é fim de mundo". O Nordeste é o nosso faroeste.

Assistir hoje a um western me faz reviver a paisagem da infância, e, como tem na música de Caetano - que não curte westerns -, mais do que lembrar (...), do que viver, do que sonhar/ é ter o coração daquilo". Mas Glauber Rocha curtia o gênero, e Deus e o diabo na terra do sol é um western brasileiro, mesmo contando com as outras referências cinematográficas de Glauber. Me sinto, portanto, em casa, vendo aqueles sujeitos de chapéu e lenço, sempre com uma ou duas armas nos coldres, montados em cavalos, bebendo e jogando em saloons, e ainda, combatendo os pobres índios.

Natural, portanto, que hoje eu me interesse pelo gênero como um amador, mais inteirado dos melhores westerns já feitos, fuçando curiosidades, nada muito sistemático, só para o meu deleite cotidiano e preguiçoso. Interessante é que vários atores que protagonizaram westerns, os "artistas", tem uma figura tão forte que os papeis parecem ter sido encomendados pra eles, e não o contrário, eles se adequando às exigências dos papeis. John Wayne, por exemplo, é o "artista" de western mais popular, mas, em filmes mais novos, sem a mão de um diretor como John Ford ou Howard Hawks, sua figura se torna tão emblemática e estanque que perde a humanidade.

Burt Lancaster, geralmente, faz o sujeito imbuído de uma tarefa e determinado a cumpri-la sem se deixar envolver, ou, pelo menos, sem que o seu envolvimento não prejudique o andamento da missão. James Stewart é o mais familiar. Seu heroísmo o aproxima afetivamente de nós, parece um tio nosso, vivendo aquelas aventuras, se safando e se indignando feito um homem comum.

Henry Fonda é mais cool, suave mesmo, quase uma presença feminina neste universo, por excelência, machista. E o western de Anthony Mann, O homem dos olhos frios, de 1957, estrelado por ele, é um dos meus preferidos. Fonda, ex-xerife desiludido e agora caçador de recompensas, dá aulas, sem glamour, de como se comportar, a um xerife novato e claudicante, vivido por Anthony Perkins. E estas duas figuras centrais, além do bandido, para a população da cidade, se igualam, são marginalizados. Aos xerifes cabe manter a ordem com o risco da própria vida, mas a sociedade lhes vira as costas. As benesses vão pros juízes, magistrados e outras eminências. Por isso o herói do western é trágico. Sem saída, ele vaga sem rumo ou morre.

Não por acaso, Homem sem rumo, de 1956, é estrelado pelo mais sanguíneo dos "artistas", Kirk Douglas. Personagem shakesperiano, firme, apesar de partido internamente, não se furta de exibir seu dilaceramento. A chegada do arame farpado à região representa, além de uma tecnologia mais eficiente para cercar terras, um trauma pro personagem. E ele o demonstra numa cena antológica, em que rasga a camisa pra mostrar as costas marcadas pela ação do arame. Em outra cena, também antológica, Douglas é laçado e dominado por um grupo de homens, e não tem chances de defesa. A impotência do personagem é flagrante, e ele suporta, inconformado, a humilhação pública. Sem rumo, empresta seu talento a um e outro patrão, mas não se fixa, é também marginal. O que dá força a este filme de King Vidor é a interpretação de Douglas.

John Ford, o diretor de westerns por excelência, filmou a famosa história de Wyatt Earp e Doc Holliday - personagens reais - com, respectivamente, Henry Fonda e Victor Mature em Paixão dos fortes, de 1946. Fica difícil acreditar que o personagem de Mature sofre de tuberculose, pois peito o ator tinha de sobra, como notou Groucho Marx, ao comentar, sobre Sansão e Dalila, com Mature e Heddy Lamar, que aquele era o primeiro filme em que o herói tinha os peitos maiores que os da heroína. Mas Ford, hábil contador de histórias e fazedor de mitos, nos faz crer.

No entanto, na refilmagem, dirigida por John Sturges em 1957 - eficiente mas menos poético que Ford -, Burt Lancaster é Earp, e Kirk Douglas faz o Doc Holliday perfeito. Quando tosse, Douglas parece estar tentando expulsar seus demônios interiores, sem perder, no entanto, a virilidade, mesmo com a sugestão da existência um amor incondicional entre os dois protagonistas masculinos. Earp, o cidadão correto, contra a opinião pública e da família, fica amigo de Holliday, o jogador beberrão, mas, no final, se casa com uma mulher. Só restará a Doc, num futuro próximo, a morte por tuberculose.

Mas o que é o herói do western, senão o sujeito que, após usar a fibra e a força pra estabelecer algum tipo de lei, pela própria ação, favorece a chegada do progresso e da civilização - simbolizada, nos filmes, pelo telégrafo e, mais frequentemente, pela ferrovia - e torna-se um inútil, um sem lugar, só restando, para ele, uma aposentadoria, marcada pelo vazio, e/ ou a morte? Artistas também sofrem da síndrome do sem lugar. Talvez, por isso, na minha região natal, essa palavra servia pra denominar o herói dos filmes de faroeste.


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

 
Divulgação
Kirk Douglas em cena de Homem sem rumo

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol