Paquito
De Salvador (BA)
Na cidade onde nasci e vivi até os dez anos, Jequié, chamava-se "artista", em vez de "mocinho", ao herói dos westerns, em oposição à figura do bandido. Concluo que, como os atores eram, genericamente, artistas, a palavra pegou pra nomear o protagonista. E brincávamos de "artista e bandido", querendo ser cowboys. Lembro de chegar em casa de minha tia Inês, e estarem todos os seus cinco filhos homens - meus primos -, na frente da TV em preto e branco, assistindo westerns. Não havia seletividade, se assistia a qualquer filme, contanto que fossem, como se dizia, de bang bang. Fazia parte da vida de menino sonhar com aquele universo de homens mantendo a lei a ferro e fogo em ambiente hostil.
E o primeiro "artista" de que me lembro é Durango Kid, citado por Raul Seixas em canções, e modelo para Waldick Soriano, não por acaso, dois artistas - já na acepção que conhecemos - baianos. As cidades nos westerns tem um quê do interior do Nordeste brasileiro, com as ruas empoeiradas, o calor e um clima de "isso aqui é fim de mundo". O Nordeste é o nosso faroeste.
Assistir hoje a um western me faz reviver a paisagem da infância, e, como tem na música de Caetano - que não curte westerns -, mais do que lembrar (...), do que viver, do que sonhar/ é ter o coração daquilo". Mas Glauber Rocha curtia o gênero, e Deus e o diabo na terra do sol é um western brasileiro, mesmo contando com as outras referências cinematográficas de Glauber. Me sinto, portanto, em casa, vendo aqueles sujeitos de chapéu e lenço, sempre com uma ou duas armas nos coldres, montados em cavalos, bebendo e jogando em saloons, e ainda, combatendo os pobres índios.
Natural, portanto, que hoje eu me interesse pelo gênero como um amador, mais inteirado dos melhores westerns já feitos, fuçando curiosidades, nada muito sistemático, só para o meu deleite cotidiano e preguiçoso. Interessante é que vários atores que protagonizaram westerns, os "artistas", tem uma figura tão forte que os papeis parecem ter sido encomendados pra eles, e não o contrário, eles se adequando às exigências dos papeis. John Wayne, por exemplo, é o "artista" de western mais popular, mas, em filmes mais novos, sem a mão de um diretor como John Ford ou Howard Hawks, sua figura se torna tão emblemática e estanque que perde a humanidade.
Burt Lancaster, geralmente, faz o sujeito imbuído de uma tarefa e determinado a cumpri-la sem se deixar envolver, ou, pelo menos, sem que o seu envolvimento não prejudique o andamento da missão. James Stewart é o mais familiar. Seu heroísmo o aproxima afetivamente de nós, parece um tio nosso, vivendo aquelas aventuras, se safando e se indignando feito um homem comum.
Henry Fonda é mais cool, suave mesmo, quase uma presença feminina neste universo, por excelência, machista. E o western de Anthony Mann, O homem dos olhos frios, de 1957, estrelado por ele, é um dos meus preferidos. Fonda, ex-xerife desiludido e agora caçador de recompensas, dá aulas, sem glamour, de como se comportar, a um xerife novato e claudicante, vivido por Anthony Perkins. E estas duas figuras centrais, além do bandido, para a população da cidade, se igualam, são marginalizados. Aos xerifes cabe manter a ordem com o risco da própria vida, mas a sociedade lhes vira as costas. As benesses vão pros juízes, magistrados e outras eminências. Por isso o herói do western é trágico. Sem saída, ele vaga sem rumo ou morre.
Não por acaso, Homem sem rumo, de 1956, é estrelado pelo mais sanguíneo dos "artistas", Kirk Douglas. Personagem shakesperiano, firme, apesar de partido internamente, não se furta de exibir seu dilaceramento. A chegada do arame farpado à região representa, além de uma tecnologia mais eficiente para cercar terras, um trauma pro personagem. E ele o demonstra numa cena antológica, em que rasga a camisa pra mostrar as costas marcadas pela ação do arame. Em outra cena, também antológica, Douglas é laçado e dominado por um grupo de homens, e não tem chances de defesa. A impotência do personagem é flagrante, e ele suporta, inconformado, a humilhação pública. Sem rumo, empresta seu talento a um e outro patrão, mas não se fixa, é também marginal. O que dá força a este filme de King Vidor é a interpretação de Douglas.
John Ford, o diretor de westerns por excelência, filmou a famosa história de Wyatt Earp e Doc Holliday - personagens reais - com, respectivamente, Henry Fonda e Victor Mature em Paixão dos fortes, de 1946. Fica difícil acreditar que o personagem de Mature sofre de tuberculose, pois peito o ator tinha de sobra, como notou Groucho Marx, ao comentar, sobre Sansão e Dalila, com Mature e Heddy Lamar, que aquele era o primeiro filme em que o herói tinha os peitos maiores que os da heroína. Mas Ford, hábil contador de histórias e fazedor de mitos, nos faz crer.
No entanto, na refilmagem, dirigida por John Sturges em 1957 - eficiente mas menos poético que Ford -, Burt Lancaster é Earp, e Kirk Douglas faz o Doc Holliday perfeito. Quando tosse, Douglas parece estar tentando expulsar seus demônios interiores, sem perder, no entanto, a virilidade, mesmo com a sugestão da existência um amor incondicional entre os dois protagonistas masculinos. Earp, o cidadão correto, contra a opinião pública e da família, fica amigo de Holliday, o jogador beberrão, mas, no final, se casa com uma mulher. Só restará a Doc, num futuro próximo, a morte por tuberculose.
Mas o que é o herói do western, senão o sujeito que, após usar a fibra e a força pra estabelecer algum tipo de lei, pela própria ação, favorece a chegada do progresso e da civilização - simbolizada, nos filmes, pelo telégrafo e, mais frequentemente, pela ferrovia - e torna-se um inútil, um sem lugar, só restando, para ele, uma aposentadoria, marcada pelo vazio, e/ ou a morte? Artistas também sofrem da síndrome do sem lugar. Talvez, por isso, na minha região natal, essa palavra servia pra denominar o herói dos filmes de faroeste.
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Divulgação
Kirk Douglas em cena de Homem sem rumo
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