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Sábado, 13 de maio de 2006, 08h41

Londres parou para ver o elefante passar

Dani Gutfreund*

Um Sultão que, ao perder o sono, se vê impossibilitado de governar seu povo decide ir em busca da menina que povoa seus sonhos, transformados em pesadelos quando da metamorfose dela em um marionete gigante. No ano de 1900, um engenheiro desconhecido de todos construiu um outro gigante, este, no entanto, sabia de segredos e magias. Era um elefante que viajava no tempo.

Para encontrar a menina, os sonhos do Sultão não eram suficientes e a única possibilidade de encontro estava em seguir a paixão dela. A menina adorava costurar e costurava carros no asfalto, trens em seus trilhos, cartas em caixas de postagem, barcos em pontes... deixando rastros por onde passava.

De uma história de amor surge outra, e, então, também para o elefante se torna imprescindível encontrar a menina. Isso é basicamente tudo que é preciso saber - ou muito menos do que isso, para se deleitar com o conto de fadas em proporções gigantes, seja em magia e alegria, seja em desempenho e realização, que encantou as ruas do centro de Londres por quatro dias.

A companhia de teatro de rua francesa, Royal de Luxe, tomou conta de Londres e de seus moradores e visitantes por quatro dias com seu espetáculo O Elefante do Sultão, dirigido por Jean Luc Courcoult.

Em sua primeira visita à cidade, envolveu milhões de pessoas, em um encontro raro por suas ruas. Londrinos não param nem olham. Passam e, se puderem, disfarçam. Não há muito tempo por aqui e sempre parece que há gente demais para se dar o tempo. Porém, em uma sexta-feira ensolarada de maio, Londrinos e turistas se misturaram e, juntos, falaram e riram, se emocionaram deitados na grama fresca do parque St. James ou andando pelas ruas do centro, ora grandes calçadas, à espera do início do grande espetáculo. E ainda que a espera tenha valido em si, seria impossível não perceber a transformação da cidade e dos seus.

Tudo começou na manhã do dia 4 de maio, quinta-feira, quando um foguete de madeira foi encontrado aterrado em meio a Waterloo Place. Foi deste foguete que a menina saiu, de capacete de piloto e um vestidinho verde, com a ajuda de um guindaste e mais de quinze homens da trupe, que pareciam serventes de uma corte liliputiana, em veludo vermelho com adornos dourados, ao som da encantadora banda ao vivo que a acompanharia de um pequeno caminhão, ou que, pelo menos, parecia pequeno.

E nos dias que seguiram, sob a chuva costumeira ou algum chapéu ou guarda-chuva para se safar do sol que por aqui parecia escaldante, tudo o que se falava era do elefante e da boneca. As ruas, fechadas para o tráfego, estavam apinhadas de gente sorrindo ou em êxtase, ou ambos, seguindo o elefante, a menina ou só os esperando passar.

Fazia calor e todos se deleitavam em banhos refrescantes, diretamente da tromba do elefante mecânico ou com a menina, que também ali se banhava ao acordar, e passeava pelas ruas em seu patinete gigante, um dos presentes do Sultão, ou em um ônibus double-decker cujo destino final não poderia ser outro que a estação de Elephant and Castle. Ao ouvir a música da banda de rock francês que os seguia e nos envolvia, já de longe, na magia que estava por vir, todos se voltavam à procura de uma nova surpresa, de qualquer pedacinho do espetáculo que pudesse ser visto.

O evento foi, praticamente todo, financiado pelo Arts Council, junto a London Development Agency e a Prefeitura de Londres. Foi co-produzido pela Artichoke e proporcionou à cidade uma nova possibilidade, de parar e apreciar, de participar de um teatro para todos, que não requer nada em especial. Houve quem dissesse que se é para isso que pagamos impostos não há do que reclamar. De fato, que prazer enorme foi ver tanta gente nas ruas, juntos, com o único objetivo e benefício de se divertir. Uma novidade por aqui.

O espetáculo, comissionado no ano passado para comemorar o centenário de Júlio Verne, tem viajado pelo mundo, espalhando seus encantos. Ainda é segredo se o Sultão, o elefante e a menina irão o Brasil ou não, mas nem é preciso dizer que é obrigatório verificar.


Mais informações no www.thesultanselephant.comp


*Dani Gutfreund é educadora, mestra em literatura inglesa e mora em Londres.

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