Terra Magazine

 

Segunda, 15 de maio de 2006, 07h32

Vou te matar, diz Marcola ao chefe do DEIC

Bob Fernandes

Início da manhã do sábado, dia em que 30 policiais civis e militares foram mortos pela ação da facção criminosa denominada PCC. Dali a instantes seria completada a operação que motivou os ataques do Primeiro Comando da Capital em todo o estado: a remoção de 8 dos maiores chefes da organização, entre eles os três principais - Marcola, Julinho Carambola e Gegê do Mangue - para o presídio de Presidente Venceslau, completando a remoção de 768 presos, estes para o presídio de Presidente Bernardes, realizada ao longo da última semana.

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Os detentos haviam sido levados à sede do DEIC na véspera, no final da tarde. À noite, por ordem do diretor-geral, delegado Godofredo Bittencourt, pizzas foram compradas para os presos. Marcola, o Chefe de todos os Chefes do PCC desde 2002, não aceitou pizza. Pediu, e foi atendido, um X Picanha com fritas.

Início da manhã. O diretor do DEIC conversa com Marcola, faz uma sondagem: - Nas escutas que fizemos tem umas conversas, tem gente falando em matar o Rui Fontes (delegado-chefe da 5ª Delegacia, de Roubo a Bancos, expert em PCC):

- Não, doutor, não é verdade, eu não vou matar o Rui. Eu vou matar você...

A conversa foi ouvida por policiais, e o relato chegou a Terra Magazine.

Outro relato já chegou aos jornais. O delegado Bittencourt chamara o mesmo Marcola para conversar, e dele ouviu:

- Eu posso entrar numa delegacia e matar um policial, mas um policial não pode entrar na cadeia e me matar, pois é obrigação do estado me proteger.

Ainda o mesmo Marcola, instado a interromper a matança na manhã do sábado, informou:

- Não, eu não posso fazer parar isso... a ordem já foi dada.

O Estado, na verdade, já admitira o poder paralelo do PCC, ao movimentar, nos últimos tempos, 768 "lideranças" da facção criminosa para presídios do interior do estado.

O cumprimento da ordem de atacar a polícia mostrou os tentáculos do poder paralelo. A morte de policiais, avaliam setores de inteligência, não se deu por escolhas feitas ao acaso. Os comandos regionais do PCC foram acionados e seus "soldados" foram às ruas executar missões com precisão. Note-se que nenhum delegado foi atacado diretamente, ao menos até a madrugada desta segunda-feira. Um ataque do gênero significaria um degrau a mais na escalada. Hipótese não descartada, como revelam os diálogos do Chefão Marcola com o delegado Bittencourt.

Algumas das mortes indicam, além da ousadia, a intenção de mandar um recado direto e cirúrgico. Um dos policiais, morto num bar com tiros na cabeça, havia deixado a 15ª delegacia no bairro nobre do Itaim Bibi - desconfia a polícia que os criminosos operam na favela vizinha à mega loja Daslu.

Esse ataque mostra um modus operandi e a intenção clara de mandar o recado; os "soldados" do PCC conhecem os policiais de cada região, seus hábitos e onde encontrá-los. Essa foi a mensagem enviada através de oito tiros disparados num bar em região rica da cidade: ir direto a alguém trajado como civil e executá-lo, sem nada dizer e sem motivo algum.

Da mesma forma, outro ataque evidencia até onde o PCC se propôs a, por ora, chegar.

Na madrugada de sexta para sábado, a bordo de 15 veículos, integrantes do PCC atacaram a 55ª delegacia, onde se encontrava uma equipe de plantão: o delegado e quatro agentes. Os criminosos, pelo menos 25 homens, deram 150 tiros. Reconhece um delegado:

- Foi só um aviso, se quisessem eles teriam trucidado todos, teriam entrado mesmo e feito uma peneira de cada policial ali.

O mesmo delegado, na quinta-feira à tarde, já havia comunicado a todos os seus subordinados em várias delegacias que a transferência dos chefes do PCC poderia ter represálias:

- Na verdade, tínhamos informação e todos foram avisados, mas é o tipo de coisa que nem sempre se espera que de fato aconteça.

Outro fator que vem provocando desconforto é que, na tarde do mesmo dia, pelo seu sistema de rádio mas sem adiantar o motivo, a polícia militar emitia um alerta geral.

Um dia antes, a repórter Fátima Souza, da TV Record, já tinha a informação e a comentava com colegas na redação, alertando para a iminência de um ataque se a transferência se efetivasse. Fátima Souza foi quem pela primeira vez, em 1995, revelou a existência do Primeiro Comando da Capital.

Se uma jornalista sabia e pôde antever as conseqüências, como o Estado não se precaveu a tempo?

 

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