Terra Magazine

› Terra Magazine › Política

Segunda, 15 de maio de 2006, 20h40

População civil é tomada por pânico em São Paulo

Amanda Rossi

Exemplos do momento caótico por que passa a cidade de São Paulo foram a situação na rua Teodoro Sampaio, que acabou se repetindo no comércio de toda capital, e o encerramento das atividades em estabelecimentos de ensino, inclusive universitários.

A rua Teodoro Sampaio, localizada em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, tradicional centro de comércio popular, esteve ocupada pelas tropas da polícia desde a manhã dessa segunda-feira, quarto dia de ataque da facção criminosa PCC. Segundo os lojistas, elas davam indicações para que eles fechassem as portas. Três lojistas e uma moradora, Jamila Venturine, informam Terra Magazine que o comércio da rua cerrou as portas por volta das 17h.

Já a Secretaria de Segurança Pública é contundente em afirmar que não houve determinação por parte dos policiais para o encerramento das atividades. "A polícia não mandou eles fecharem as portas. Fecharam as portas porque quiseram", disse Ana Catarina, assessora de imprensa da Secretaria. Ela ainda aproveitou para negar o boato que corre: "Não existe toque de recolher no momento".

É visível que, nos quartéis, amontoam-se carros da PM. Policiais se queixam para a reportagem:

- É quase um aquartelamento, tinha que estar toda a tropa nas ruas.

A assessoria de imprensa da SSP garante:

- Todo efetivo está nas ruas.

Está mesmo? Os 15 mil homens - apenas na capital, aproximadamente 90 mil em todo o estado de São Paulo? Bem, se está, imaginemos então como seria se não estivessem.

A situação percebida na rua Teodoro Sampaio se alastra por toda a cidade de São Paulo. Ao entardecer, grande parte dos estabelecimentos comerciais, de todas as regiões da capital, fecharam suas portas e liberaram seus funcionários, que enfrentaram um congestionamento também histórico para se protegerem em casa - apesar da pane nos seus sistemas, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) acredita que o congestionamento esteve nessa segunda-feira perto das marcas históricas, que são de 242 km de lentidão.

O pânico alcançou as regiões ricas, o clima é de histeria em meio à sinfonia de buzinas. O Shopping Iguatemi, por exemplo, templo da alta sociedade paulistana, não teve dúvidas quanto a terminar o expediente mais cedo nessa segunda-feira, assim como o shopping localizado em Taboão da Serra, periferia de São Paulo. Ao todo, 22 shoppings fecharam na capital paulista.

Escolas particulares da capital também determinaram o encerramento de suas atividades. Em Higienópolis, bairro nobre da capital, o tradicional colégio Sion comunicou já no começo da tarde que as atividades extras dos períodos da tarde e da noite estavam suspensas. O colégio Rio Branco disse que seus alunos só deixariam as aulas na presença dos pais ou responsáveis. A escola Carlitos chamou os pais e mandou os filhos para as casas.

O motivo é a suposta violência nas proximidades dos estabelecimentos de ensino. Um veículo da DAS (Divisão Anti Seqüestro da Polícia Civil) foi metralhado no bairro, segundo informação da Folha de São Paulo.

A coordenadora de comunicação e marketing do Sion, Luisa Spessoto, declarou a Terra Magazine: "Não existe risco nenhum, mas os pais ficam apreensivos. A gente não está querendo fazer terrorismo ou sensacionalismo, a gente está agindo da maneira mais tranqüila possível para proporcionar segurança para os pais e para os alunos". Ela disse ainda que a escola continua "um ponto de segurança", e que o "problema está nas ruas". "É uma questão da criança estar transitando nas ruas com o que está acontecendo".

Roberto Prado, diretor executivo do Sindicato das Escolas Particulares, em entrevista a Terra Magazine, disse: "O que nós estamos orientando às escolas, de maneira geral, é bom senso. Em princípio não tem porque suspender as aulas". Indagado sobre se a violência poderia chegar às escolas, Prado acrescentou: "do que a gente tem visto até agora, qual foi a tentativa de vitimar civis? Eles (NR: quem está atacando) evitam. Por que eles iriam metralhar uma escola? Mas, numa onda de violência na cidade inteira, pode acontecer de sobrar para alguém próximo". Para ele, "a boataria está ajudando muito a espalhar o medo, não é só a mídia".

Também renomadas faculdades particulares vão suspender suas atividades. É o caso da PUC, Faap, Mackenzie.

Situação similar ocorre até mesmo na Universidade de São Paulo. Procurada por Terra Magazine, a assessoria de imprensa da reitoria da Universidade de São Paulo disse não ter conhecimento do fechamento de unidades, exceto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, localizada no centro da capital. No entanto, muitos departamentos da universidade têm autonomamente decretado o encerramento das atividades no fim dessa quarta-feira, sem comunicar a reitoria. É exemplo disso o Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes.

Sim, caros internautas: a escola de jornalismo mandou os futuros repórteres se abrigarem em suas residências.

Márcia Furtado, assessora da reitoria, disse que participou de reunião com a reitora Suely Vilela, de quem ouviu: "a gente não pode alimentar esse tipo de coisa, até porque quem tá promovendo essas coisas quer criar esse clima de terror". Márcia completou que o papel da universidade não é entrar nessa paranóia.

Não seria, mas, em parte, foi.

Boatos se alastram mais rápido que fatos, que por si já denunciam uma situação caótica, compondo um cenário de terror generalizado na chamada "sociedade civil".

A dificuldade na obtenção de informações concretas facilita a propagação do medo entre a população. Tudo é repassado com uma velocidade muito grande, sem se ter certeza do fato exato, e as pessoas atemorizadas absorvem tudo isso e correm para se esconder.

Há dissonância entre as informações oficiais e as dadas pos aqueles que estão nas ruas, a vivenciar os fatos. Claro que existe aí uma grande dose de medo que compromete a veracidade das declarações dos cidadãos acuados pela violência. Mas também se percebe uma intenção dos órgãos oficiais em transmitir uma aparência de controle e tranqüilidade, nos moldes da frase do governador do estado de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL):

- A situação está sob controle.

O encerramento das atividades dos estabelecimentos comerciais e de ensino se junta aos boatos e à dissonância das informações, para contribuir na disseminação do pavor absoluto entre as pessoas que, acuadas, deixam de realizar suas tarefas usuais para se enclausurar em casa, enquanto nas ruas os ataques continuam, especialmente direcionados a imóveis.

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela