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Terça, 23 de maio de 2006, 08h03

O Acre por um cavalo?

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Muitos brasileiros se chocaram ao ler nos jornais que, segundo o presidente da Bolívia, seu país "trocou o Acre por um cavalo". Ou, para ser preciso, pelo preço de um cavalo. Absurdo?

Como se sabe, em 1902 o governador do Amazonas Silvério Néri enviou Plácido de Castro ao Acre, então boliviano, para organizar e liderar a revolta dos seringueiros brasileiros contra o governo de La Paz que, sem conseguir impor a ordem e cobrar impostos nesse território, tentara terceirizar sua administração para um consórcio estadunidense, o Bolivian Syndicate.

Vitoriosa a revolta, proclamou-se a "República do Acre" com o apoio do presidente Rodrigues Alves e do chanceler Barão do Rio Branco. Em seguida, o Brasil ocupou o Acre, estabeleceu um governo militar comandado pelo general Olímpio da Silveira e ofereceu um acordo do qual a parte mais importante foi uma indenização de dois milhões de libras esterlinas à Bolívia que, incapaz de sustentar uma guerra com o Brasil, viu-se forçada a aceitar.

E o cavalo? Em março de 2006, em um leilão na Flórida, um potro de dois anos foi vendido por US$ 16 milhões, ou 9,12 milhões de libras esterlinas pelo câmbio da época. Evo tinha razão?

A resposta não é óbvia. Exige levantar índices de inflação ao longo de mais de um século, tarefa que poucos jornalistas, historiadores ou escritores se atrevem a enfrentar. É muito comum citar um valor de dez, vinte, cinqüenta ou cem anos atrás sem mostrar a menor preocupação com atualizar esses valores.

Este assunto não é só para quem se interessa por comparações internacionais e história da economia. Às vezes vemos em um filme de faroeste o xerife oferecer um prêmio de tantos mil dólares pela captura de tal bandido, ou lemos num romance da década de 20 que oferecem ao herói um emprego com salário de tantos mil francos e ficamos sem saber se isso é pouco ou muito. As mesmas dúvidas surgem quando queremos saber quanto valeria, em moeda de hoje, um salário mínimo de 1940, quando lemos O Capital e nos deparamos com os salários de tantos shillings e tantos pence dos operários britânicos do século XIX.

O problema é mais complicado no Brasil, que teve oito moedas diferentes desde 1942. Mas não se pense que um britânico ou estadunidense tem uma noção muito mais clara de quanto sua moeda valia há cinqüenta ou cem anos. Para complicar, às vezes tradutores e editores tentam "ajudar" seus leitores convertendo ingenuamente valores de décadas ou séculos atrás por taxas de câmbio atuais - esquecendo-se que, mesmo para moedas "fortes", a inflação acumulada em longos períodos pode ser muito grande. Ou, quando se trata de antigas moedas de ouro e prata, pela cotação atual dos metais nelas contidos, o que não é muito mais exato.

Para dar uma solução aproximada a esse problema, inventemos uma unidade de medida do poder aquisitivo que chamaremos de Dinheiro, representada pelo símbolo Ð. Definamos Ð 1,00 (um dinheiro) com o valor aquisitivo, para o consumidor norte-americano, de um dólar nos EUA no final de dezembro de 2000 e do século 20. Ou o poder de consumo de R$ 1,00 no Brasil em dezembro de 2001. Ou de 1,00 euro na Alemanha de fins de 2002. Dada a inflação acumulada desde 2000, o valor do dólar foi reduzido, até abril de 2006, a Ð 0,864 e o do real a Ð 0,72.

Note que o poder aquisitivo de um dólar nos EUA não é igual ao de um dólar no Brasil. O custo de vida pode ser muito diferente de um país para outro (ou mesmo em diferentes cidades de um mesmo país) e geralmente é mais baixo em países mais pobres - o que equivale a dizer que, na prática o dinheiro vale algo mais.

No último dia útil de dezembro de 2000, por exemplo, a cotação do dólar no Brasil fechou em R$ 1,9554. Poderia parecer, portanto, que o valor do real, nessa data, seria de Ð 0,51. Mas, como o custo de vida nos EUA era pouco mais que o dobro do Brasil, nessa data o Real valia, na realidade, Ð 1,08, isto é, tinha no Brasil um poder aquisitivo pouco superior ao do dólar nos EUA.


O dinheiro na Belle Époque

Na Belle Époque - o período de paz e prosperidade dos países ricos do começo do século XX ao início da I Guerra Mundial - o valor das moedas fortes era notavelmente estável, como havia sido durante boa parte do século XIX.

Desde a Antigüidade ao início da Revolução Industrial, moedas de prata haviam sido o principal meio de troca e o fundamento da maioria dos sistemas monetários. Mas no início do século XIX, a descoberta de novas minas de ouro - primeiro nas Minas Gerais, depois na África do Sul, Austrália, Califórnia, Canadá e Alasca -, juntamente com a aceitação crescente de papel-moeda conversível em ouro e crédito bancário, tornou possível um sistema monetário baseado na maior parte no ouro.

Ao mesmo tempo inovações na mineração de prata fizeram cair seu custo, que de 1/10 do valor do ouro na Idade Média, passou a cerca de 1/15 de 1600 a 1800 e caiu no final do século XIX a 1/35 do ouro. O sistema monetário poderia continuar a se fundamentar na prata, o que teria resultado num aumento de preços da ordem de 125% na segunda metade do século XIX ou 1,6% ao ano, comparável aos 1% ao ano registrados nos primeiros séculos da Idade Moderna.

Não foi isso, porém, que aconteceu. Os países economicamente mais poderosos impuseram o ouro como único padrão. O primeiro foi o Reino Unido, em 1774, seguido por Portugal, seu satélite, assim que a prata começou a dar sinais de cair de preço, em 1854. Mas foi a partir de 1873, quando a recém-unificada Alemanha aderiu ao novo sistema pouco depois de derrotar a França e tornar-se o país política e economicamente mais poderoso da Europa Continental, que o padrão-ouro espalhou-se rapidamente pelo mundo e tornou-se um sistema verdadeiramente internacional.

Do ponto de vista da tradição, não havia por que preferir o ouro à prata, mas era claro para os credores (e o Reino Unido era então o grande credor do mundo) que a prata estava perdendo valor de troca em comparação à média das mercadorias, enquanto o poder aquisitivo do ouro era mais estável. Seu poder político foi usado para garantir a propriedade dos detentores de créditos, em prejuízo dos devedores cujas reservas eram constituídas de prata. Foi o caso da maioria dos países da América Latina, África e Ásia, que empobreceram em termos relativos e tiveram suas moedas desvalorizadas cerca de 50% ante a libra e outras moedas "fortes".

À parte flutuações para cima e para baixo com o ciclo econômico, o valor da maioria das moedas dos países ricos foi mais ou menos estável de meados do século XIX a 1914 - período que cobre boa parte dos clássicos da literatura, os tempos do faroeste e muitos textos fundadores da economia, inclusive os de Marx. Em números redondos, um dólar valia Ð 20, um franco, lira, coroa austríaca ou dracma Ð 4, um rublo Ð 10, um florim holandês Ð 8, um mil-réis português Ð 20 e um mil-réis brasileiro Ð 10. Um marco, depois da unificação alemã, valia cerca de Ð 5, como também uma coroa escandinava. E a libra esterlina? Era a moeda internacional, como o dólar é hoje, e também a moeda de maior valor: cerca de Ð 100. Dividia-se em 20 shillings de Ð 5 e 240 pence de Ð 0,4.

Os dois milhões de libras do Acre valiam, portanto, Ð 200 milhões - ou, em moeda de hoje, uns US$ 230 milhões. Bem mais que um cavalo, mesmo que seja um puro-sangue de corrida. Mas foi caro ou barato?

Para responder a isso, devemos avaliar quanto rendeu o Acre para o Brasil. A resposta é surpreendente: até 1910, quando a produção britânica na Malásia começou a derrubar os preços internacionais da borracha, o Acre proporcionou a terceira maior arrecadação tributária do País. Das exportações brasileiras, da ordem de 40 milhões de libras anuais nesse período, 28,2% deviam-se à borracha e 60% dessa borracha vinha do Acre - que, portanto, chegou a render quase 7 milhões de libras anuais. Foi comprado pelo valor de menos de quatro meses de sua produção. Exageros cavalares a parte, não deixa de ser um bom exemplo das espoliações sofridas pela Bolívia.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

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