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Terça, 30 de maio de 2006, 08h02

A história do dinheiro após a I Guerra Mundial

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Família desempregada vive em condições miseráveis em Elm Grove, Califórnia, depois da crise de 1929
Família desempregada vive em condições miseráveis em Elm Grove, Califórnia, depois da crise de 1929

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa começou a relatar a história do dinheiro na coluna anterior (leia mais). Da Antiguidade até a Revolução Industrial as moedas de prata haviam sido o fundamento dos sistemas monetários. O ouro converteu-se no novo padrão com a descoberta de novas minas no início do século XIX.


O dinheiro depois da I Guerra Mundial

Mesmo nos países centrais, a inflexibilidade do padrão-ouro causou sérios problemas aos devedores. Como a oferta de ouro era rígida e não acompanhava o crescimento da economia e do comércio internacional, sua adoção no plano internacional provocou uma forte deflação, isto é, queda generalizada de preços - no Reino Unido, 35% de 1873 a 1886; nos EUA, 31% de 1873 ao final do século. Neste país, os agricultores e os mineradores de prata criaram uma frente de oposição política ao padrão-ouro. Nos EUA, a volta ao uso da prata como forma de combater a deflação tornou-se por algum tempo uma importante bandeira populista, mas mesmo que essa corrente fosse vitoriosa, o país não tinha peso suficiente para pressionar toda a Europa a voltar atrás.

Nos EUA, como em muitos outros países, a solução política encontrada foi compensar os setores mais prejudicados com um forte aumento das tarifas alfandegárias. Isso contribuiu para conter a deflação, mas também para a retração do livre comércio internacional. Com o crescimento generalizado do protecionismo, encerrou-se a era do liberalismo clássico e iniciou-se a era do imperialismo. A disputa entre as grandes potências por mercados cativos, coloniais ou semi-coloniais, resultou num progressivo agravamento das tensões internacionais que desembocou na I Guerra Mundial (1914-1918).

Já tinha ficado claro, então, que o verdadeiro padrão do valor já era o preço médio de diversas mercadorias, do qual o ouro era apenas uma aproximação - na prática, era um disfarce de um desequilíbrio de relações de classe que se tornava menos sustentável na medida que o crescimento do capitalismo ultrapassava o ritmo de produção das minas de ouro em todo o mundo.

Apesar disso, o padrão-ouro manteve-se praticamente inabalável como ideologia até que os gastos sem precedentes dos governos imperialistas durante a I Guerra Mundial forçaram praticamente todos a pagá-las com papel-moeda sem garantir a conversibilidade em ouro. Era politicamente impossível impor explicitamente impostos com a dimensão e a rapidez exigida pelas circunstâncias. O resultado, como a teoria econômica previa, foi uma forte elevação dos preços: 120% no Reino Unido, 192% na França, 350% na Alemanha - e 75% nos Estados Unidos, apesar de ter-se envolvido na guerra apenas à distância e na sua última fase.

O capital financeiro, porém, não se conformou em aceitar a desvalorização de seus ativos: os economistas que os representaram insistiram que não se deveria permitir a transformação do aumento de preços decorrente da guerra em inflação, isto é, em aumento permanente. Exigiram que não só que os governos restaurassem a conversibilidade das moedas, como também que o fizessem aos níveis anteriores à guerra. Em outras palavras, que promovessem uma violenta deflação (revalorização do dinheiro ou queda geral dos preços de mercadorias) à custa dos devedores. O maior deles era o governo da Alemanha, ao qual havia sido imposto o pagamento de uma indenização monstruosa.

Não se davam conta de que o cenário social havia mudado: o exemplo da revolução bolchevique na Rússia (e, em menor grau, também o da revolução nacionalista no México) já aterrorizava a burguesia e inspirava a esquerda radical em todo o mundo. Nem de que a Alemanha não poderia ficar eternamente agrilhoada a uma dívida impagável.

Os países mais ricos - EUA, Reino Unido - tentaram realmente atender às exigências do capital financeiro nos anos 20 e a maioria dos demais, incluindo França e Brasil, tentaram restabelecer algum tipo de padrão-ouro, ainda que a uma taxa de conversão mais baixa do que antes da guerra, isto é, reconhecendo como irreversível a inflação do tempo de guerra e a resultante da deterioração econômica do pós-guerra. Na Alemanha, caso mais extremo, a hiperinflação havia elevado os preços em trilhões de vezes. Ela resultou da decisão do governo de imprimir dinheiro para pagar os salários dos trabalhadores alemães da região industrial do Ruhr, em greve contra a ocupação francesa.


A crise terminal do padrão-ouro

O novo padrão-ouro internacional, porém, durou apenas de 1925 a 1931, quando o próprio Reino Unido o abandonou. Foi adotado por pressão dos financistas de Londres, que receavam perder não só o valor real de suas reservas como sua credibilidade a longo prazo se a libra esterlina não voltasse a ser conversível segundo o padrão anterior à guerra. Porém, a falta de cooperação e coordenação internacional, resultante por sua vez do acirramento da luta de classes dentro de cada país, rapidamente inviabilizaram a tentativa.

Em países como a França, onde a esquerda parecia a um passo do governo ou mesmo o conquistava por breves períodos, a burguesia não tinha condições de apoiar a política financeira do Reino Unido responsabilizando-se por uma deflação que certamente traria desemprego, estagnação econômica e a vitória política dos socialistas. Sua moeda, embora conversível em ouro, manteve-se subvalorizada em relação à libra, proporcionando vantagens competitivas ao capital francês e uma enorme acumulação de reservas de ouro.

A exceção foram os EUA, onde a inflação havia sido mais moderada, a esquerda não representava grande ameaça e os republicanos no poder tinham simpatias pelo conservadorismo de Churchill. O Banco Central dos EUA se dispôs a ajudar os britânicos a sair de uma crise de pagamentos baixando sua própria taxa de redesconto, mas isso ajudou a inflar em Wall Street uma vasta bolha especulativa inspirada por expectativas demasiado otimistas em relação às novas tecnologias da época (rádio, eletricidade, linhas de montagem). Em 1929, a bolha estourou e a combinação da crise da economia mais dinâmica da época com rigidez monetária generalizada puxou uma depressão mundial.

Logo praticamente todos os países eram forçados a desvalorizar suas moedas, abandonar o padrão-ouro e restringir ao máximo suas importações para tentar acumular divisas, causando uma fortíssima retração do comércio internacional. Os resultados, como se sabe, foram catastróficos para todo o mundo e contribuiriam para os eventos que levariam à II Guerra Mundial e detonariam definitivamente os padrões monetários herdados do passado.

Enquanto isso, em terras tupiniquins, cogitou-se reduzir em 10% o peso da moeda de ouro de 10$000 e transformá-la numa nova moeda chamada cruzeiro, com o mesmo valor da libra esterlina. Isso teria exigido uma deflação ainda mais brutal do que a imposta ao Reino Unido, onde os preços caíram quase 60% entre 1920 e 1932. Mas, com as convulsões financeiras resultantes da crise de 1929 e da queda dos preços do café - que resultou na suspensão do pagamento da dívida brasileira e na explosão da inflação - a idéia foi engavetada.

Nessa época de ouro dos detetives noir e dos romances modernistas, quanto valiam as principais moedas? Na década de 20, a libra esterlina valia aproximadamente Ð * 60, o dólar Ð 10, o franco francês deslizou de Ð 1 para Ð 0,6, o mil-réis pouco mais de Ð 3 no Brasil (mas a metade disso no câmbio internacional) e o marco alemão, em fase de hiperinflação, chegou a valer praticamente zero: em fins de 1923, 27 bilhões de marcos valiam Ð 1. Na década de 30, a libra esterlina valia aproximadamente Ð 90, o dólar Ð 12, o franco francês Ð 0,6, o mil-réis caiu de Ð 3 para Ð 2 e o novo marco alemão (Reichsmark) cerca de Ð 3.

A partir de 1933, o novo governo norte-americano do democrata Franklin D. Roosevelt decidiu não só reconhecer a desvalorização do dólar em relação ao ouro, como também suspender a possibilidade de pessoas privadas converterem seu papel-moeda: o metal ficaria reservado para transações de divisas internacionais com outras nações. Em 1936, Keynes publicou sua Teoria Geral, condenando a teoria quantitativa da moeda e influenciando o pensamento de toda uma nova geração de economistas. E na Alemanha, os efeitos catastróficos da hiperinflação (e o desemprego decorrente da combinação da estabilização forçada que a sucedeu com a crise internacional) levaram ao poder o nazismo, que declarou extinta a dívida externa e rompeu os vínculos da moeda com o ouro.

*Ð é uma unidade de medida que chamamos na coluna de Dinheiro. Definamos Ð 1,00 (um dinheiro) como o valor aquisitivo, para o consumidor norte-americano, de um dólar nos EUA no final de dezembro de 2000 e do século 20. Ou o poder de consumo de R$ 1,00 no Brasil em dezembro de 2001. Ou de 1,00 euro na Alemanha de fins de 2002.

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Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

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