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Quinta, 1 de junho de 2006, 20h16

Timor Leste, violência de novo

Entre 1975 e 1999, o Timor Leste esteve sob domínio da Indonésia, num processo que resultou em 300 mil mortos e na total destruição do país, quando os timorenses votaram em favor da independência. Agora, o país mais pobre da Ásia, depois de três anos governado pela ONU e quatro com seu próprio governo, ainda não conseguiu aliviar o sofrimento da população e encontra-se mergulhando em mais um episódio de violência, que já tirou a vida de dezenas de pessoas. Os obstáculos a serem enfrentados esbarram em corrupção enraizada, conflitos regionais e interesses internacionais.

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A correspondente internacional Rosely Forganes foi a primeira brasileira a entrar no Timor Leste em 1999, antes mesmo do Exército. Seu trabalho no país lhe rendeu o prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos e as medalhas Mídia da Paz e Ordem do Mérito Militar. Rosely é autora do livro "Queimado queimado, mas agora nosso. Timor, das cinzas à liberdade", que fala sobre a libertação e reconstrução do Timor Leste.

Qual foi o estopim da onda de violência?
Há cerca de três semanas, 580 soldados assinaram um manifesto denunciando a discriminação, pelos timorenses loromono, do oeste, contra os lorosae, do leste do país. A atitude do primeiro ministro Mari Alkatiri foi demitir todos eles, e então esses dissidentes começaram a atacar prédios do governo.

Quem são os loromono e os lorosae?
Os dois grupos têm uma rivalidade histórica há mais de 500 anos, mas não há diferença cultural ou étnica entre eles, apenas geográfica. O atrito começou no modo em que as duas regiões reagiram à ocupação portuguesa. Com a invasão da Indonésia, em 1975, os dois grupos ficaram do mesmo lado, já que ambos levavam bala dos indonésios.

Por que a situação atual fugiu do controle?
Depois de um tempo, não se sabia mais quem estava atacando. A polícia atacava o Exército, o Exército atacava a polícia, e gangues ligadas a artes marciais aproveitaram a situação para incendiar e pilhar lojas e prédios.

Como a comunidade internacional está ajudando?
A Austrália anunciou o envio de 1300 soldados e Nova Zelândia, Malásia e Portugal enviarão 150 cada. O problema é que os exércitos saíram cedo do país depois da ocupação da ONU, em 1999, e da eleição de 2002. O próprio Kofi Annan, Secretário Geral da ONU, admitiu isso. Um dos últimos a sair foi o Brasil, em maio de 2005. Mas, agora, os primeiros 700 soldados australianos que chegaram no Timor não estão fazendo nada. Eles têm conhecimento da região e do terreno, e têm armamentos pesados, inclusive tanques. Foram aplaudidos quando chegaram, mas foram incapazes de impedir a pilhagem de um armazém de arroz que foi atacado na frente deles. Mas a Austrália tem seus próprios interesses no Timor.

Que interesses são esses?
Nas águas entre Timor e Austrália, existem poços de petróleo. Os australianos exploram essas águas há anos, e antes dividiam o petróleo com os indonésios. Em 1999, quando a Indonésia perdeu todos os seus direitos no Timor, a Austrália passou a explorar o petróleo sozinha, e dá uma parte disso ao Timor só se quiser, de caridade e sem nenhuma obrigação. Todos os especialistas afirmam que aquelas águas pertencem ao Timor, mas a Austrália se recusa a admitir o cálculo, e também não aceita a arbitragem de uma corte internacional. O Bush esteve na região há uns dois ou três anos e disse que a Austrália era o xerife da região. Ninguém falou nada contra esse comentário.

Qual o impacto disso na economia timorense?
O petróleo é a única riqueza que eles têm. Não existe indústria ou turismo, e as pessoas vivem principalmente de agricultura de subsistência. Nas cidades, o desemprego é alto. O dinheiro do petróleo que vem da Austrália é depositado em uma conta e só uma parte é aplicada na economia, para que o dinheiro possa durar 50 anos, já que não se sabe quando a Austrália enviará mais. O salário médio da população é US$ 80.
Desde 2002, o país e suas instituições foram reconstruídos, mas a qualidade de vida da população não melhorou. Só existe uma universidade pública, com 5 mil estudantes, e eles querem reduzir esse número. E abriram 16 faculdades particulares, cobrando US$ 10 ou US$ 20 por mês e ensinando direito indonésio, por exemplo, que não se aplica no Timor, país que nem código civil tem ainda.
Os jovens, então, não têm nenhuma perspectiva de vida, e a população cresce muito. Timor Leste é o país com a maior taxa de natalidade: oito filhos por mulher. E é o país mais pobre da Ásia, e nisso estou incluindo Camboja e Bangladesh.

Qual a situação dos brasileiros que estão lá?
No Timor, não se atacam estrangeiros por eles serem estrangeiros. Inclusive, eles são protegidos até demais, na minha opinião. Existem cerca de 200 brasileiros lá, mas muitos estão sendo retirados. Funcionários da ONU foram retirados porque têm de obedecer ordens. Professores da Capes foram evacuados para a Austrália contra sua vontade. Dos 200, três ficaram no Timor, e vão ter de assinar um documento isentando o Brasil de responsabilidade por qualquer acontecimento. Ficaram também os voluntários e missionários evangélicos e católicos. Nós temos um grupo de e-mails e conversamos todos os dias.

Existe acesso à internet mesmo com o caos?
Não existe para todo mundo. Os estrangeiros têm mais acesso, mas quando acontece algo, os telefones param de funcionar porque as linhas ficam saturadas. Você liga o rádio e só ouve Leandro e Leonardo. Liga a televisão e só tem novela. Os jornais não circulam porque os jornalistas fugiram do país.

Como a situação está sendo controlada?
O presidente Xanana Gusmão não tem muitos poderes. Quem governa é o primeiro-ministro, Mari Alkatiri. Mas ele tem o direito de assumir o controle dos órgãos de segurança, e foi isso que ele fez há umas 48 horas. O primeiro-ministro não é popular. Ele foi para o exterior antes da invasão indonésia e viveu 30 anos fora buscando apoio para o Timor. Ele não participou de perto da guerrilha, e isso é um grande problema para a população. Ele não conseguiu controlar a violência, e agora todos querem a sua cabeça. O Xanana foi chefe da guerrilha, mesmo da prisão, em Jacarta (Indonésia), e tem o apoio dos timorenses, mas ainda não teve tempo de resolver o problema.

Você é a favor do envio de tropas brasileiras ao Timor Leste?
Pode escrever aí que sou totalmente a favor. O exército brasileiro é adorado pelos timorenses. Eu estava lá no dia em que eles chegaram, em 1999, e no dia em que eles deixaram o país, em 2005. Os timorenses fizeram um cortejo e lotaram a rua do aeroporto com lágrimas nos olhos. Eles nos consideram seus irmãos.

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