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Domingo, 4 de junho de 2006, 07h51

Referência Obrigatória 2

Roberto Causo

Farenheit 451, Ray Bradbury. São Paulo: Editora Globo, 2003, 215 páginas. Tradução de Cid Knipel.

A década de 1950 foi particularmente rica para a ficção científica em inglês. Em um artigo de 1984, Brian W. Aldiss chamou essa década de "um ápice" do gênero.

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Farenheit 451 (1953), de Ray Bradbury, é uma das contribuições. Foi filmado em 1966 pelo francês François Truffaut, e em 2003 a Editora Globo lançou a edição comemorativa de 50 anos (traduzida por Cid Knipel), enriquecida com um ótimo ensaio do crítico brasileiro Manoel da Costa Pinto, e um posfácio de Bradbury em que o velho mestre apregoa todos os acertos do seu romance clássico, ao criticar, segundo as palavras de Costa Pinto, "a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético - a moral do senso comum".

Enquadra-se facilmente na linha das distopias, que apresenta sociedades oprimidas por regimes totalitários, sem saídas fáceis para o ser humano - o contrário das utopias, ou futuros com sociedades livres e positivas. Nós (1920; também visto no Brasil como A Muralha Verde), Admirável Mundo Novo (1938) e 1984 (1949), de Ievguêni Zamiátin, Aldous Huxley e George Orwell, respectivamente, são os títulos mais conhecidos dessa vertente.

Guy Montag é o protagonista de Bradbury. Na abertura do romance ele acompanha a lavagem estomacal de Mildred, sua esposa, que sofreu uma overdose de barbitúricos ou da sua versão futura. O trabalho de Montag - um "bombeiro" - é o de uma polícia política, que recebe denúncias anônimas, vai à casa do denunciado, e lá queima todos os seus livros - um artigo proibido pelo Estado.

Montag é um descontente (elemento necessário nas distopias, sem o qual não haveria a identificação com o leitor). Mas o seu descontentamento se acende ainda mais quando ele faz amizade com uma garota de 16 anos, Clarisse - personagem que se pode chamar de "bradburyano" pelo seu encanto pela vida e seu interesse pela natureza - refletindo a influência dos "Trancendentalistas da Nova Inglaterra" (Henry David Thoreau e Ralph Waldo Emerson são citados) e sua ideologia libertária e de determinação individual, também expressa nos episódios finais.

Montag é impulsionado rumo ao seu destino também por uma senhora que prefere ser queimada com seus livros. Mais tarde descobrimos que o "desajuste" de Montag não é novidade - ele mostra a sua esposa uma pilha de livros escondidos, um para cada biblioteca por ele incendiada. Se o herói esperava encontrar em Mildred algo da curiosidade natural de Clarissa, ele fracassa. Sua outra opção é buscar quem o ajude a compreender os livros - o professor Faber, que ele havia surpreendido em atitude suspeita.

Faber o equipa com um minicomunicador, e acompanha, apavorado, quando o desesperado Montag tenta ler um livro de poemas para as fúteis amigas de Mildred, reunidas em sua casa para assistir a uma telenovela interativa, quase todas com maridos que haviam partido para a guerra. A indiferença e o modo determinado com que elas se agarram ao seu way of life enquanto o conflito se agrava, lembra a atitude perante a Guerra da Coréia, "a guerra esquecida", cujos campos sangrentos não deveriam atrapalhar o sonho americano. Uma das mulheres chora, sem saber bem por que, durante a leitura.

Bem se vê que Bradbury cria um mundo futuro que explora o ethos de classe média americana, suburbana, conservadora e alienada que reconhecia à sua volta, nos dourados anos 50. O conformismo do pós-guerra, a polarização política da Guerra Fria, o medo do apocalipse nuclear, o poder massificante da televisão (tornada interativa e quase-virtual), a paixão suicida pela velocidade, a telenovela literalmente substituindo as relações sociais, e as drogas de satisfação de uso difundido.

A mulher como símbolo funciona como o aceno de uma realidade utópica mais vital (Clarissa), a determinação heróica (a senhora que se queima pelos livros) e, no extremo oposto, as amarras sociais (Mildred e suas amigas). Aliás, nos anos 50 era comum revestir-se a mulher de uma aura castradora alienante.

Já os homens atuam como auxiliares da ação física - Montag tenta disfarçar o seu terrível engano com a leitura de poesia entregando um livro para ser queimado. Beatty, o capitão dos bombeiros, suspeita dele e tenta tirá-lo de sua couraça protetora bombardeando-o com citações literárias. Assim como O´Brien, o antagonista de 1984, Beatty age como quem estuda a posição dos inimigos, para melhor combatê-los.

O romance encaminha-se para a conclusão após uma caçada humana envolvendo sabujos mecânicos. A fuga se torna um evento televisionado ao vivo como a escapada de O. J. Simpson pelas estradas da Califórnia. Enfim, o leitmotif do fogo, presente de várias formas ao longo do livro todo, termina com uma nota positiva na menção da Fênix, a ave mitológica que ressurge das cinzas.

A narrativa progride com presteza. A angústia existencial de Montag se transmite ao leitor em sua necessidade de calor humano e na rejeição da artificialidade que o cerca. O estilo é, adequadamente, menos exuberante que o Bradbury de As Crônicas Marcianas, em que ele engaja o sentido do maravilhoso. Aqui porém se trata, antes de tudo, de um sombrio, conciso e poderoso alerta que ainda se faz ouvir.


Não-Ficção

O Rasgão no Real: Metalinguagem e Simulacros na Narrativa de Ficção Científica, Braulio Tavares. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2005, 75 páginas. Ilustrado.

Em O Rasgão no Real: Metalinguagem e Simulacros na Narrativa de Ficção Científica (João Pessoa: Marca de Fantasia, 2005, 75 pp) Braulio Tavares nos traz uma breve mas brilhante análise das questões presentes no subtítulo, enfatizando coerentemente a natureza metaficcional da ficção científica e o seu encontro com idéias que atacam a soberania do realismo na literatura, a partir da física quântica, mas relacionando-as também com as tendências presentes da metaficção literária pós-modernista.

O livro, que surge exatamente vinte anos depois do seu popular O que É Ficção Científica (São Paulo: Brasiliense, 1985), consegue passar conceitos complexos com admirável clareza, associando-os à ficção científica em particular, e à cultura científica do nosso tempo, apontando para uma confluência de abordagens da ficção científica e do mainstream literário pós-modernista, em torno dos conceitos de metaficção (textos de ficção sobre a produção literária ou que não se apresentam como representação do real e apenas como artefato lingüístico) e fabulação (fabulation).

Nesse sentido, este trabalho é mais um passo na contínua abordagem crítica do autor, que vem "desde sempre" tentando tornar mais permeáveis as fronteiras entre a ficção científica e o mainstream e outras formas de literatura fantástica - o mesmo, vale mencionar, também por meio dos seus trabalhos de ficção.

O brilhantismo de Braulio aparece de forma despretensiosa e discreta, mas o tom é menos coloquial do que em O que É Ficção Científica - o que é uma qualidade neste caso em particular. Pode-se discordar de um ponto ou outro, ou mesmo da ênfase dada a esse tipo de exploração metaficcional, mas não é possível discordar de que o autor expõe muito bem seus argumentos e de que eles fazem avançar a compreensão que temos do gênero.

Pena, mais uma vez, que ele não mencione nada de produção nacional, embora existam exemplos claros de ficção científica brasileira metaficcional em trabalhos de Paulo de Sousa Ramos, Ivan Carlos Regina, Ivanir Calado e outros. Pena também que o texto não tenha recebido um trabalho de diagramação mais profissional.

Segundo Braulio, "Este livro estava escrito há alguns anos - Moacyr Cirne tinha me encomendado, porque a Revista Vozes estava planejando um número especial sobre ficção científica, como um que saiu nos anos 70. Mas não rolou, e fiquei com o texto parado, aí surgiu essa chance com a editora do Henrique".

Os livros da Marca de Fantasia aparecem em impressão por demanda, em tiragens de 50 exemplares. Este título certamente vale ser conferido por todo fã e pesquisador de ficção científica. Para isso é preciso escrever à editora: Rua Antonio Lira, 970/303, João Pessoa-PB, 58045-030; contato@marcadefantasia.com.br; www.marcadefantasia.com.br.


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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo (40), é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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