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Sexta, 9 de junho de 2006, 11h08

A chave do prédio

O dia 14 de novembro de 2005 caiu num domingo. Era cedo quando Ricardo* chegou ao trabalho, um prédio de 12 andares em Moema. Seu turno, das 6h às 13h, prometia ser tranqüilo, e a primeira tarefa foi abordar um morador que esperava um táxi atrás de um dos pilares em frente ao hall de entrada.

- Eu coloquei a mão no ombro dele e disse 'Amigo, não é melhor esperar ali na frente?'. Então ele vestiu uma máscara e falou 'Que amigo o quê!'. Sacou duas armas grandes e me rendeu.

Depois de rendido pelo assaltante que ele imaginava condômino, Ricardo foi levado à guarita e forçado a abrir o portão para a entrada do resto da quadrilha. O porteiro, que diz ter 25 anos de profissão - 15 no edifício em Moema -, sabia que não deveria reagir. Mesmo assim, curioso, perguntou se a invasão tinha acontecido quando Ricardo havia deixado a guarita por alguns minutos para apagar uma luz no hall. Recebeu uma resposta calma:

- Estou aqui desde as quatro da manhã. Dormi ali em cima do muro, vi você chegar e se trocar.

A estratégia da quadrilha, formada por cerca de 15 pessoas, era aguardar os moradores descerem do apartamento e abordá-los na saída do elevador. Em seguida, trancavam-nos, inclusive as crianças, na sala de força, na garagem.

- Daqui da guarita dava para ouvir os gritos de medo das crianças. Chegou uma hora em que o bandido que estava aqui pediu, pelo rádio, para os da garagem parar de apavorar as crianças, que dava para ouvir de longe. Ele me disse que eles não eram disso, de machucar pessoas. Só queriam dinheiro.

Na rua, um carro com outro integrante da quadrilha fazia rondas para se certificar de que a invasão corria bem. Ele também se comunicava no rádio com os demais assaltantes. Quando seis dos 12 apartamentos já haviam sido assaltados, os criminosos se deram por satisfeitos. Como era um domingo, a outra metade dos moradores estava viajando. Além de jóias e dinheiro (reais, dólares e euros), os assaltantes levaram equipamentos de televisão e vídeo do salão de festas e saíram em seus próprios veículos.

Hoje, sete meses depois do episódio, Ricardo afirma que a segurança do prédio foi reforçada. Câmeras de vídeo foram espalhadas por todo o prédio, inclusive na calçada, e um sensor infravermelho agora soa um alarme caso as grades sejam atravessadas. A maior proteção deixa Ricardo menos apreensivo, e ele ainda trabalha das 6h às 13h. Gosta do horário, que diz passar rápido: "O maior movimento é só na hora do almoço".

Ele não descarta, no entanto, a possibilidade de um assalto ocorrer novamente, e de passar mais horas com uma arma de fogo apontada em sua direção, afinal, como gosta de dizer, "o porteiro é a chave do prédio".

*Nome fictício

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