
Roberto de Sousa Causo & Gene Stewart
Os campos populares de entretenimento tendem a ser rápidos no uso de fatos atuais para dar formato e refrescar os seus enredos. Não é surpresa, então, que a nova série de Battlestar Galáctica (2003) mostre todos os sinais de ter sido altamente influenciada pelo atual estado político dos EUA, após os ataques de 11 de setembro.
Considere este exemplo de Battlestar Galáctica:
Um massivo ataque traiçoeiro, aparentemente realizado por alienígenas empregando armas de destruição em massa, leva sobreviventes em colônias humanas a se dispersarem. Um êxodo é liderado pelos soldados que tripulam a astronave Galáctica - originalmente, e também nesta nova versão do programa, baseada em porta-aviões nucleares americanos. Em outras palavras, uma cidade flutuante auto-suficiente dedicada à projeção de poder.
Na primeira fase da sua escapada para o espaço interestelar, a astronave e a frota de vasos civis que a segue, são periodicamente molestados por naves cylônicas e por isso têm que se esconder no hiperespaço para evitar o confronto.
Isto resulta numa atmosfera altamente tensa e paranóica, similar àquela que foi lançada sobre o público americano pelas autoridades dos EUA logo após o 11 do 9. O medo controla as coisas, e dita as respostas.
Então, em um dos primeiros episódios do novo Battlestar Galáctica, uma nave de cruzeiro civil é seqüestrada e colocada em curso de colisão com a Galáctica pelos misteriosos cylons. O Comandante Apollo (Jamie Bamber) recebe a ordem de explodi-la, o que mataria todos a bordo.
Isso não sugere um paralelo, como alguns afirmam, com o que aconteceu com o segundo avião de passageiros supostamente seqüestrado por operadores da Al-Qaeda no 11 do 9 e desviados para Washington? Não foi dito que ele foi interceptado por caças no caminho, que supostamente o abateram sobre o descampado na Pensilvânia?
Se caças americanos de fato dispararam contra o avião de carreira, autoridades militares e governamentais ainda não o confirmaram. Isso permanece uma especulação, mas faz sentido para aqueles que não conseguem acreditar que a defesa aérea americana teria recebido ordens de se retirar, naquele dia fatídico.
O centro da série apresenta agentes cylons "dormentes" entre os refugiados humanos. Esses agentes aguardam suas ordens secretas de ação, ansiosos para que suas missões sejam postas em movimento.
Isso sugere um paralelo com a afirmativa do governo americano de que outras células terroristas dormentes estão agora mesmo aguardando ordens, no território americano. E, como que para reforçar essa paranóia, afirma-se agora que as explosões de bombas em Londres teriam sido realizadas por jovens de famílias felizes e estáveis de classe média. Eles eram frutos da casa, assim como, no lado americano, Timothy McVeigh e Terry Nichols, que provaram não ser os terroristas árabes citados pelos primeiros relatórios, mas jovens americanos nascidos e criados no meio-oeste.
Um outro aspecto ecoado no novo Battlestar Galáctica é a tortura, o que parece ser um dos pontos principais na "guerra contra o terror" de George W. Bush, se o escândalo de Abu-Graib e as notícias de dezenas de milhares de prisioneiros sendo enviados do Afeganistão e do Iraque para gulags secretos em países distantes forem boas indicações. A tortura também tem um papel no programa de TV, descrita com uma insensibilidade igual à da administração Bush.
E, por último mas não menos importante, a presidente humana (Mary McDowell) espelha George W. Bush em sua alegação de razões religiosas para ações políticas e militares. Isso tudo é uma crença sincera ainda que ingênua, ou uma manipulação cínica de questões candentes e votação em bloco por questões únicas, os assim chamados votantes WalMart? Tanto na vida real quanto na ficção científica, é difícil dizer.
Mas, funciona?
Nós achamos a série, a despeito dessas tentativas de alcançar relevância social, sem brilho, incoerente (um fator multiplicado pela questão de que a exibição brasileira da TNT falhou em levar ao ar o primeiro e o último episódios), e carente de uma postura crítica em relação aos dilemas pós-11 do 9 aos quais ela escolhe se referir e explorar.
Isto é particularmente triste porque a ficção científica, como tantos escritores soviéticos sob Stalin descobriram, pode ser a última esperança de discussões relevantes de problemas sociais. Ainda melhor, as discussões da ficção científica evitam a amarga e partidária falta de comunicação que se vê nos assim chamados programas de debate político ou propaganda editorial nos jornais.
Nesse último aspecto, Battlestar Galáctica contrasta agudamente com outros produtos da cultura popular, tal como o filme de Frank Darabont, Cine Majestic (2001), que alerta o espectador dos excessos passados do McCarthismo, e mostra como isso pode acontecer de novo se não formos cuidadosos. Lembre-se que os ataques baixos de McCarthy contra os "vermelhos" ou "comunistas" eram realizados em nome daqueles caídos em combate durante a II Guerra Mundial.
O Senador McCarthy também se enrolava na bandeira e repetidamente elogiava um mítico, idealizado American way of life a fim de paralisar emocionalmente a reflexão e disparar respostas jingoístas reflexas.
Considere como os pontos de vista mudam enquanto você assiste, por exemplo, ao último episódio da série de ficção científica Smallville. Em sua segunda temporada, o jovem Clark Kent (que é o alienígena Kal-El, não se esqueça) aprende que foi enviado por seus antepassados kriptonianos à Terra porque as condições físicas do nosso planeta permitiriam a ele ter os superpoderes necessários para que o conquiste. Ele deve se tornar o governante absoluto do planeta Terra.
Essa nova visão do Super-Homem, como Superboy, é um desvio da mitologia original dos quadrinhos criados por Jerry Siegel & Joe Shuster. Nesses, Kent (interpretado por Tom Welling em Smallville, a propósito) é instruído por seus pais biológicos a se enxergar como um hóspede na Terra, cujos anfitriões ele deve proteger sempre respeitando as leis e autoridades locais.
Essas lições de tolerância, de autocontrole e de obediência à lei eram reforçadas por gravações em cristal a que ele periodicamente assistia em sua Fortaleza da Solidão, no Ártico.
O desafio que Kent encarou é o dilema moral de resistir ao uso da força sem par indiscriminadamente. Agora que os EUA reivindicam serem a única superpotência mundial, eles, também, devem encarar esse dilema. Até aqui, eles o têm ignorado, para o detrimento da paz e da estabilidade mundial.
É claro, para a atual administração americana, parece não fazer sentido algum ter poder e não usá-lo. Na ficção científica, esse tipo de soberba e arrogância sempre se dá antes da queda. Os líderes mundiais têm muito que aprender com a ficção científica, até mesmo com a FC da televisão.
Esperemos que idéias de paz, tolerância, e inclusão cheguem aos líderes mundiais antes que nosso mundo se torne, em realidade, uma distopia do tipo alertado em livros como 1984 de Orwell ou Nós de Zamyatin.
Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br
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