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Sábado, 10 de junho de 2006, 07h53

Último filme da trilogia X-Men decepciona

Roberto de Sousa Causo

O percurso da trilogia X-Men, baseada na série de quadrinhos da Marvel, parece ilustrar a nossa impressão de que, quanto maior o orçamento, pior a qualidade do cinema hollywoodiano de espetáculo - tendência também comprovada com a série Star Wars.

Sem recursos extravagantes, o primeiro X-Men (muito bem dirigido por Bryan Singer) confiou mais na qualidade do texto, na caracterização e na dinâmica dos personagens. Exatamente aquilo que o tornou uma produção distinta, dentro do quadro de HQs adaptadas para o cinema. O bem-amarrado script chegava a convencer o espectador dos dilemas de super-heróis apresentados, na verdade, como uma minoria com problemas pessoais e políticos. Um elenco de primeira trazia calor humano e tensão dramática a quase todas as cenas, mesmo as mais movimentadas.

Já o filme dirigido por Brett Ratner é o ápice nesse distanciamento do humano rumo ao pirotécnico, amparado por caminhões e mais caminhões de dólares, queimados aos montes na pira da ciência das imagens geradas por computador.

Personagens que aprendemos a admirar no primeiro filme são dispensados neste sem um arrepio de emoção chegando ao espectador - como a morte de Scott Summers. De fato, o ator que o interpreta, James Marsden, deve ser bonito demais para o gosto dos produtores, que já haviam reduzido brutalmente sua participação no segundo episódio, tirando de cena um jovem ator cuja impassividade e atuação tranqüila sublinham o autocontrole necessário a alguém capaz destruir com um único olhar.

Por sua vez, Hugh Jackman, o brilhante ator australiano que faz Wolverine, parecer lutar para fincar as garras em alguma coisa que o eleve a uma atuação superior - como a que ele realizou no primeiro filme, projetando uma personalidade dominante e competitiva, fragilizada apenas diante daquela dupla de mulheres que tem o poder de destruí-lo: a pequena Vampira (Anna Paquin), capaz de matar com um toque, e a esbelta Jean Gray (Famke Janssen), capaz de partir o seu coração empedernido de machão.

À vontade mesmo só a dupla de patriarcas shakespereanos, Patrick Stewart como o Prof. Xavier, e Ian McKellen como vilão Magneto. Para os dois, uma pitada de excesso teatral é a melhor estratégia para se abordar uma adaptação do mundo das HQs de super-heróis.

O enredo, que propõe um confronto final entre os mutantes "do bem" e os "do mal" em torno de uma suposta cura para os genes mutantes, ao que parece foi inspirado na adaptação das HQs dos X-Men para desenhos animados - o que certamente explica o desaparecimento dos cuidadosamente concebidos limites para os poderes dos mutantes, firmados no primeiro filme.

Particularmente preocupante é como personagens perdem massa corporal seja por terem pele e carne desintegradas, ou por arremessarem projeções ósseas para cima e para baixo. Do mesmo modo, poderes são perdidos ou ganhos sem qualquer efeito maior sobre o metabolismo dos mutantes.

Um desenho animado com atores de verdade.


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo (40), é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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