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Terça, 13 de junho de 2006, 22h25

Curadoria ou oficina de costura?

Maria Alice Rocha

Durante muito tempo as conexões entre moda e arte se restringiam à descrição das roupas utilizadas pela elite numa "vernissage" ou ao registro de uma moda por artistas plásticos ou poetas. O trabalho dos artesãos, apesar de indispensável para a qualidade e estética da roupa, tinha sempre um caráter anônimo, cabendo ao estilista todos os créditos.

Quando Charles Frederick Worth (1825-1895), considerado o pai da alta-costura, lançava suas criações - sempre inspiradas em períodos históricos - declarava ser mais uma obra de arte, um meio de auto-expressão único.

Um livro bastante comentado pela contribuição que um poeta poderia fazer à história do consumo de moda é "Au Bonheur des Dames" (O Paraíso das Damas) do francês Émile Zola. Nesta obra é possível vivenciar a efervescência insana das mulheres na loja de departamento Bon Marche, em Paris, no século 19. No mesmo período, vários pintores impressionistas também se "renderam" às graças da moda.

Em 1884, a famosa loja de departamento inglesa Liberty estabeleceu um setor exclusivo para criações de estilo, visando comercializar vestuário, e liderar o setor de arte, por meio de todas as formas de expressão.

No período entre as grandes guerras mundiais, a França consolidou sua liderança por meio do Pavilhão da Elegância, vinculado às grandes Exposições Internacionais.

Mas, uma das maiores transformações na moda do século 20 foi a invenção do profissional "couturier" (costureiro). A França emergiu como centro da moda devido ao número de novos estabelecimentos chamados "maison de la mode" (casa de moda) ou paraíso dos compradores. As lojas de departamentos se tornaram "museus para pessoas", e as ruas das butiques em "shopping centers". A partir deste momento, vários estilistas se envolveram no setor de arte, muitas vezes como curadores convidados de exposição de arte.

Do Surrealismo ao pós-modernismo, os períodos da história da arte passaram a se misturar com a moda: artistas interferindo em roupas, estilistas se inspirando em obras de arte. O limite entre "fazedor de roupa" ou "fazedor de arte" foi esmaecendo.

O conceito de arte moderna, principalmente com definições como instalações e "performances", ajudou nessa aproximação. A exposição "Showtime" no Museu Galliera de Moda de Paris, em cartaz até o final de julho, mostra detalhes de como transformar comércio em arte.

Mas o fato que pode ser considerado como a entrada da moda - pela porta da frente - num museu de arte ocorreu nos anos 80, com a exposição retrospectiva de Yves Saint Laurent, no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.

Muitas iniciativas se seguiram depois dessa, sendo a mais marcante a exposição "Il Tempo e la Moda" na Bienal de Florença de 1996, a qual definitivamente conectou arte e moda. Estilistas trabalham em museus e há um crescente número de artistas contemporâneos utilizando têxteis e moda como suporte das suas criações.

O fenomenal interesse geral da sociedade pela moda, devido ao bombardeio de imagens, marcas e conceitos na mídia e o "status" que a mesma pode proporcionar, ajudou os museus ao trocar o foco de suas exposições temporárias e permanentes. Não são poucos os diretores de museus e galerias que declaram um tremendo incremento no fluxo de visitantes quando a pauta inclui moda. Esse fato sugere uma mudança mais comercial do conceitual.

Estilistas, apesar de teimarem em mostrar sua individualidade por meio do processo criativo embutido nas suas coleções, carregam nos ombros o peso do processo industrial: matéria-prima, modelagem, produto confeccionado em série, marca, vendas, etc. Já os artistas, historicamente, têm liberdade de demonstrar subjetividade e desconstruir padrões estabelecidos.

As escolas de moda, seguindo a mesma tendência, atualmente têm se aproximado mais da curadoria do que da oficina de costura. Para um artista a obra em si é a sua razão de existência, enquanto que para estilistas a justificativa parece ser outra. Mesmo assim, o vocabulário tem se sofisticado e, como conseqüência, os "designers" estão cada vez mais se afastando da sua premissa em existir: os clientes, os consumidores.

A moda sempre procura dar a volta por cima, e para encerrar discussões a respeito do caráter efêmero de uma roupa em relação a uma obra de arte, surgiu o movimento "vintage". A palavra vem da enologia, e é aplicada para designar as melhores seleções de uvas (e vinhos) de cada estação. Com isso, uma roupa "fora de moda" passa a ser cultuada, usada em caráter exclusivo, colecionada e considerada "totalmente fashion".

Nessa tendência, o preço não entra mais no rol de atributos levados em consideração na hora da compra e na hora do uso. A origem passa a ser mais importante: da marca mais cara do mundo ao baú da bisavó, passando claro por lembranças adquiridas em viagens, presentes e projetos sociais.

A relação do produto com o consumidor deixou de ser apenas comercial e descartável, como apregoada nos anos 70 e 80. Moda agora é investimento e o guarda-roupa passou a ser uma "narração materializada" da vivência de cada um.

Como conseqüência, surgem as lojas-conceito, que misturam roupas, marcas, luxo e arte num mesmo espaço, como a badalada Colette, em Paris; a Dover Street Market, em Londres ou a Corso Como, em Milão.

Surgem ainda as linhas, não tão famosas, mas que guardam a mesma proposta, como a ME, de Issey Miyake, originalmente lançada em 2001, no Japão. Ao visitar a loja em Paris, você se pergunta se não entrou numa galeria de arte por engano. Apesar da marca oferecer uma coleção de camisetas práticas, confortáveis e de fácil manutenção, ela seduz os consumidores com coleções coloridas e lúdicas, expostas numa arquitetura de galeria, que promove cada peça a uma obra única.

Exemplos brasileiros, naturalmente repletos de inovação, não faltam. A mistura música-moda de Nina Becker, não apenas como inspiração para lançamento de produtos no palco do teatro Dulcina, no Rio, mas como postura de vida e partilha de emoções entre dois mundos próximos - com razões de existir e finalidades distintas - é um destaque.

Ainda na ressaca do Fashion Rio e com a expectativa de mais expressão canarinha na passarela do São Paulo Fashion Week a partir de 12 de julho - quando a performance nos gramados alemães estiver encerrada - está lançado o próximo desafio: transformar o "closet" em galeria.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

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