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Quarta, 12 de julho de 2006, 10h19

Filme mudo

Amilcar Bettega

Agora ela está lá, é certo que está lá e que perto das seis da tarde vai deixar pela primeira vez no dia o seu quarto de hotel, vai descer dois lances de escadas sombrios e revestidos por um trilho de tapete puído, vai cumprimentar com um esboço de sorriso o jovem entrincheirado atrás do balcão da portaria, vai sair à rua e sem mesmo perceber se chove ou faz frio ela vai caminhar trinta metros pela mesma calçada do hotel e entrar no cyber-café, assim como fez em todos os dias dos últimos dois meses.

Digamos que ela mal pronunciará, em inglês, o já dispensável pedido, e o atendente lhe indicará os computadores disponíveis, ela escolherá o do fundo e então terá duas horas a 5 pesos, o que jamais saberá exatamente quanto corresponde em euros mas que já decidiu ser uma tarifa correta, pelo menos para o que dispõe no momento. Ao final de duas horas de e-mails e alguma pesquisa sobre os imigrantes judeus na América do Sul, ela levantará, pagará ao atendente pronunciando um hasta luego inaudível, comerá um sanduíche no bar ao lado antes de voltar ao seu quarto e ler os romances policiais deixados pelos últimos turistas franceses de passagem pelo hotel. Lerá até às quatro da madrugada, quando então um sono indeciso e sem sonhos abreviará em algumas horas a sua estadia em Buenos Aires.

Tem alguma coisa de fixo, de suspensão, de congelamento nessa curta sucessão de imagens. Como um sonho que se repete, que insiste, que espera. Um curta-metragem projetado continuadamente numa parede de sala escura. É certo que ela está lá, agora, e que perto das seis da tarde vai sair do quarto, caminhar por um pequeno trecho do corredor sombrio, descer dois lances de escadas... É certo que é essa Buenos Aires longínqua e insossa, que nunca lhe disse nada e que continuará a não lhe dizer nada a menos que alguma coisa aconteça, a menos que ela descubra o que a trouxe até ali. Mas por enquanto é apenas isso, a insistência de uma imagem.

Um dia, quem sabe, de volta a Paris, arrastada por uma amiga a uma vespertina de tango no Latina, ela contará a Martín que passou alguns meses muito deprimida naquela cidade que não conhecia, sem falar castelhano, quase sem sair do quarto de um hotelzinho no Retiro a 10 dólares a diária. Martín talvez seja um desses portenhos saudosos de milonga e de um bom assado, que se entedia imensamente num doutorado interminável que lhe consome as energias e o prazer já frio de ser um estudante estrangeiro em Paris. A um certo momento, talvez na hora de se despedirem, Martín vai lhe perguntar o nome. Pode ser que ela se chame Christel, Hélène ou Sophie. Vou chamá-la de Sophie e me dizer que duas semanas mais tarde Sophie e Martín passeiam de mãos dadas no Marais e que mais algum tempo depois, quem sabe, ele a leva para, dessa vez sim, conhecer Buenos Aires. E que talvez aí, com o auxílio de Martín e guiada por referências mínimas de lugares que lhe fazem lembrar alguma coisa, um cruzamento, uma embocadura de rua, um café, ela descubra outra vez o hotel e o cyber-café trinta metros adiante. E digamos que ela descubra mais, que enfim ela descubra o que há anos parecia em suspensão em algum lugar do seu pensamento e que a fez partir da França e vagar por alguns países para enfim se deprimir em Buenos Aires, num hotelzinho de 10 dólares a diária. Isso ela contou, ela contará, a um Martín comovido, numa mesa junto a parede envidraçada de um café da Lavalle.

A mesa é pequena, redonda, com pé em ferro batido e tampo de mármore, e está quase encostada ao vidro onde se lê o nome do café - Florida, talvez, ou Bertoni - em letras brancas que formam um arco que vai das costas dele às costas dela e que recorta os dois, um de frente ao outro, e a mesa, separando-os do ambiente difuso do café, cujo fundo se dilui num misto de escuro e fumaça. Eles estão frente a frente, já foi dito, e faltará dizer que ele tem os cotovelos apoiados na mesa e os punhos fechados sob o queixo, e que olha nos olhos dela enquanto ela fala e emenda um cigarro atrás do outro. Ela mexe muito com as mãos mas sem fazer gestos amplos, por vezes apanha o cinzeiro ou a carteira de cigarros, muda-os de lugar e segue movendo as mãos dentro de um espaço muito pequeno, digamos, num excesso de precisão, um terço do já reduzido tamanho da mesa.

Mas sobretudo ela fala, e isso será tudo, ora olhando nos olhos dele, ora mirando as próprias mãos, seus lábios não param um só instante de despejar palavras que se dispersam no interior quente do café, palavras que parecem subir pela parede de vidro como bolhas num aquário para então estourarem na superfície de alguma coisa que não é água mas que tem muito de aquoso, de líquido, de fluido, e que preenche o interior do café.

Ela fala, ela fala muito e durante muito tempo, pois durante muito tempo viveu como que à espera daquilo que agora lhe caía em cima como a mais cristalina das verdades, daquilo que agora lhe era revelado e que ela contava, que ela conta, é certo que conta, para um Martín absorto, atrás dessa parede envidraçada do café.


Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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