Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Maria Alice Rocha

Quarta, 12 de julho de 2006, 08h03

Homem - a redescoberta da moda

Reuters
Desfile masculino da marca Louis Vuitton em 2006
Desfile masculino da marca Louis Vuitton em 2006

Maria Alice Rocha

O homem está cada vez mais vaidoso e seguidor de moda. Da mesma forma que o século 20 foi o século das mulheres, este começo de século de 21, definitivamente, está se delineando como o da redescoberta da vaidade pelos homens.

Eu explico: durante vários períodos da história, os homens foram tão seguidores de moda quanto as mulheres e, nos séculos 17 e 18, nas cortes européias, a disputa pela vestimenta mais rica em decoração e extravagância não era privilégio apenas das mulheres.

Saltos altos, perucas e penteados, maquiagem, acessórios e roupas ajustadas eram parte da indumentária masculina. Depois, veio a Revolução Industrial (1760-1860), a Revolução Francesa (1789) e os homens tiveram que, literalmente, arregaçar as mangas e transferir para as mulheres o seu "direito à vaidade". Daí, as mulheres viraram aquele "bolo confeitado" que todo mundo já viu em algum filme, um mostruário das riqueza e ostentação familiar.

Aliás, recomendo aos leitores assistir ao belíssimo filme "Moça com Brinco de Pérola", dirigido por Peter Webber, lançado em 2003, que tem no elenco principal nomes como Colin Firth e Scarlett Johansson. O enredo do filme é baseado na vida do artista plástico Johannes Vermeer e aborda a execução da sua obra mais famosa, considerada a "Mona Lisa holandesa". No meio deste cenário, é possível vivenciar um pouco do contraste entre os trabalhadores e os ociosos em Delft, na Holanda, no século 17.

Voltando às roupas e acessórios, o século 20 ficou marcado como o da "democratização" da moda e da emancipação das mulheres. O envolvimento feminino nas guerras mundiais, a queima dos sutiãs como símbolo de opressão, a consolidação da calça comprida como parte do vestuário feminino e o terninho feminino imortalizado por Yves Saint Laurent são algumas das motivações entrelaçadas com a necessidade de trabalhar fora de casa.

As mulheres, embora precisem dar três expedientes na luta por uma vida digna, jamais abandonaram a vaidade e o adorno. Não preciso dar nenhum exemplo disso.

Os homens, por sua vez, sentindo necessidade de se adaptar a essa nova mulher batalhadora, romântica e responsável, desde o finalzinho do século passado procuram o seu novo papel. Tarefas domésticas compartilhadas e espaço para emoções se tornaram parte deste novo universo masculino.

O retorno ao culto da aparência chegaria mais cedo ou mais tarde. Tivemos, primeiramente, o musculoso da academia de ginástica e o elegantemente discreto "ligado em moda". Os tempos evoluíram e apelidaram esse novo homem de "metrossexual", uma palavra que não ajuda a definir do que estamos falando.

As celebridades foram convocadas para divulgar o uso de jóias, penteados, cosméticos, para não restringir o leque somente a roupas e calçados. O fazer a barba e o cabelo virou entretenimento por conta das possibilidades de redesenhar a face e garantir identidade única.

Ao analisar as coleções "prêt-a-porter" masculinas desfiladas recentemente em Milão e Paris, vê-se um homem moderno, desencanado, usando roupas fluidas, muitos acessórios, mostrando o corpo, cores em profusão, cintos, broches e bolsas.

Os homens tomaram gosto e várias empresas, de olho nesta tendência, estão fazendo parcerias para conquistar aqueles consumidores menos ousados, com uma receita trivial: aliar produtos de moda àqueles tradicionalmente masculinos. Ferrari, Porsche e Lexus são algumas das marcas que em breve serão vistas nas passarelas ou salões de beleza (ainda existe barbeiro no mercado?).

A maioria das marcas automobilísticas já operava com uma divisão de design, responsável por, entre outras coisas, colocar a marca em produtos promocionais, de relógios e canetas a canecas e camisetas, aliando a marca à contemporaneidade. As notícias provam que estão indo além.

Olivier Lapidus (estilista e herdeiro da marca francesa Tep Lapidus) acaba de anunciar sua entrada para o mundo automobilístico: confecção de acessórios apropriados para motoristas. Seu parceiro, a Lexus, apesar de ter nos seus quadros 60 estilistas, 1400 engenheiros e 220 outros colaboradores, decidiu investir no universo da moda de luxo. Os primeiros produtos, a serem lançados em setembro próximo, são quatro modelos de luvas feitas à mão e sob medida para o cliente.

A Porsche, em conjunto com a Azzaro e o grupo Clarins, anunciaram a criação de uma linha de perfumes e cosmésticos masculinos entituladas "Porsche Design". A promessa é de associação de linhas puras e modernas com os valores tradicionais: inovação técnica, autenticidade e caráter atemporal. A primeira gama de produtos tem previsão de chegar ao mercado em 2008.

Enquanto isso, em terras brasileiras, por exatos sete dias, a partir de hoje (12 de julho), poderemos conferir pelo menos um desfile masculino diário na São Paulo Fashion Week. O que vem reforçar o interesse dos homens sobre o assunto. Torcemos para que o que for mostrado repercuta positivamente na mídia e se transforme concretamente em negócios.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Maria Alice Rocha vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela