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Sexta, 14 de julho de 2006, 21h42

"New Weird" tem mistura de gêneros e política

Roberto de Sousa Causo

Black Flag (Black Flag), Valerio Evangelisti. São Paulo: Conrad Editora, 2005, 239 páginas. Tradução de Romana Ghirotti Prado.

Stephen King se afirma como um escritor do gênero horror, mas ele freqüentemente mistura gêneros - em especial na série Torre Negra, combinação de horror, fantasia épica e contemporânea, western e ficção científica.

O autor italiano Evangelisti fez algo semelhante neste Black Flag. A sua mistura de gêneros e o comentário político são características do "New Weird", tendência recente dentro do campo da FC e da fantasia - o que levou o crítico Thales de Menezes da Folha de S. Paulo a chamar o segundo livro de Evangelisti lançado pela Conrad, O Inquisidor, de New Weird. Mas Menezes errou ao afirmar que King teria sido influenciado pela nova tendência: Torre Negra começou a ser escrita nos anos 70. King na verdade herdou essa abordagem de suas influências; escritores como H. P. Lovecraft, Richard Matheson e Jack Finney, que sempre dissiparam as fronteiras entre FC e fantasia ou horror.

Black Flag, por sua vez, é mistura de FC, horror e western. Começa com a descrição de uma hecatombe, cuidadosamente concebida para fazer o leitor, também enganado por uma epígrafe de ninguém menos que George W. Bush, supor que se trata da queda das torres gêmeas, quando na verdade se trata do bombardeio do bairro de El Chorrillo na Cidade do Panamá - durante a invasão americana "Operação Justa Causa", em dezembro de 1989, realizada a mando de Bush Pai. Trata-se de um primeiro truque irônico que aponta o sentido geral do romance. Mas esse segmento funciona como um parêntese - presente apenas no início e no final, aproveitando os significados levantados em duas outras situações. A primeira delas acontece na Terra superpovoada do ano 3000, e envolve Lilith, uma jovem muito bem adaptada ao seu mundo violento, em que grupos de humanos são os predadores de seus semelhantes; contexto armado por um sistema que promove a neurose coletiva para alcançar seus objetivos. A segunda linha narrativa acontece nos EUA, por volta de 1864, em plena guerra civil.

São três linhas que não se tocam exceto pela sugestão alegórica de que existem em uma relação de causa e efeito. A linha de 1864 é mistura de western e horror, pois incorpora a figura do lobisomem - um dispositivo que enfatiza o horror não-sobrenatural das ações terroristas das guerrilhas de William Quantrill, os irmãos Jesse e Frank James, e William "Bloody Bill" Anderson, nas chamadas "Border Wars" junto à fronteira dos estados do Missouri e do Kansas. É bom lembrar que o cinema e os quadrinhos italianos tornaram o gênero do faroeste tão seu quanto dos americanos, que o têm como expressão épica da origem de sua civilização. Evangelisti revela o lado sangrento dessa origem, esmerando-se no relato de atrocidades cometidas por tais bandos a serviço da Confederação, numa rispidez que chega a lembrar a do romance Meridiano Sangrento (1985), que se inspirou nas ações de um bando de americanos caçadores de escalpos em território mexicano, uma década antes da eclosão da guerra entre os estados. Mas Evangelisti não se aproxima da verve extraordinária do seu autor, Cormac McCarthy.

Assim como no romance de McCarthy - considerado o mais violento da história da literatura americana -, Evangelisti lança mão de concisas remissões a idéias de darwinismo social e conceitos de Thomas Hobbes sobre o homem como um ser sem o instinto da vida em grupo, marcado pelo perpétuo esforço da sua vontade em submeter a dos outros. Black Flag (título que se refere à bandeira negra ostentada pelos guerrilheiros, mas também às epígrafes extraídas de canções da banda punk californiana Black Flag, daí a opção por não traduzir o título) tem na figura do Dr. Bellegarrigue, que acompanha o bando de Bloody Bill, o equivalente ao juiz de Meridiano Sangrento, como o porta-voz dessa ideologia.

O protagonista da porção western do romance do escritor italiano é ¿ como em Valdez Vem aí (1970), de Elmore Leonard - um mexicano. Pantera é um feiticeiro que se une ao bando de Bloody Bill, acompanhado da prostituta Molly e do curandeiro índio Cachimbo Velho. Sua posição dentro do bando é incerta, e ele participa dos massacres relutantemente. Em vários momentos, Evangelisti reconta episódios históricos, enquanto vai construindo a posição de Pantera como um homem-lobo "de matilha" (consciente de um possível papel social), contra os homens-lobo solitários - "o Homem que é o lobo do Homem", nas linhas de Hobbes - representados por Bloody Bill e os outros vilões históricos.

Sua integração das diversas partes do romance acontece por superposição e não por articulação do enredo. Passado, presente e futuro traçam a progressão da humanidade rumo à desagregação social, tudo isto em torno de uma denúncia ao imperialismo americano que soa muito contundente, na atual situação internacional.

Mas o problema deste livro que oferece tanto em termos de significados está na qualidade da narrativa: Leonard em Valdez Vem aí, por exemplo, impressiona mais o leitor com a violência e a desumanidade do Oeste Selvagem porque ele domina não apenas a explosão da violência, mas o passo da narrativa, construindo habilmente os momentos de tensão. Também prejudicado por uma tradução aquém do desejado, Black Flag é um romance curioso, mas que não envolve ¿ o que seria essencial para cravar com toda a força, na mente do leitor, a crítica que ele deseja passar.

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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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