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Terça, 18 de julho de 2006, 08h00

Entrevista com Flávio e Gabriela, da ONG Davida

Flavio Lenz, 51 anos, jornalista, é editor do jornal Beijo da Rua. Companheiro de Gabriela Silva Leite, ele é um dos integrantes da ONG Davida.

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Como isso tudo começa?
Flávio Lenz: Bem, sou jornalista, trabalhei 10 anos no Jornal do Brasil, e essa história se confunde com a da Gabriela, minha companheira há 10 anos. Em 79 o delegado Wilson Richetti, de São Paulo, promovia uma perseguição feroz a travestis e prostitutas da boca do lixo, em São Paulo. A Gabriela se insurgiu contra isso e daí nasceu o movimento...

Como?
Em 82 ela se mudou para a Zona do Mangue, no Rio, e lá começou um trabalho com as prostitutas. Em 87 aconteceu o 1° Encontro Nacional. Dois anos depois surgiu a Associação Nacional e num 15 de julho, há 14 anos, foi criada a Davida.

E a Daspu?
Estávamos na nossa sede, no Rio, lá na Glória, e discutíamos, como em outras vezes, a criação da nossa grife. A Daslu tinha sido invadida pela PF dias antes, aí o Silvio Oliveira, estilista, companheiro nosso na Davida, disse: "Já sei, é Daspu". Foi uma gargalhada, era o nome. Mas só fomos registrar em 21 de Novembro. O Elio Gaspari deu uma nota, depois O Dia fez uma matéria, e então recebemos uma notificação extra-judicial da Daslu.

Qual era a alegação nessa notificação?
Que estávamos "denegrindo" a imagem da Daslu. Daí em diante a coisa se espalhou.

A palavra "puta" te incomoda?
Adoro essa palavra e essas mulheres. São amigas, carinhosas, são mulheres capazes de escutar, de ouvir o outro, de ser companheiras mesmo que continuem na batalha. São mulheres muito mais honestas do que estas que correm atrás de maridos ricos como se fossem negócios.

Gabriela Silva Leite, 55 anos. Desde 1979, quando enfrentou o delegado Wilson Richetti, é inspiradora do movimento de prostitutas no Brasil. Em torno dela criou-se a Associação Nacional, a ONG Davida e, há pouco, a grife Daspu.

Qual é a sua profissão?
Gabriela Silva: Sou puta desde os 22 anos. Minhas colegas latino-americanas não gostam da palavra, preferem definir-se como trabalhadores sexuais, coisas como essas. Eu não, acho a palavra bonita e precisamos repeti-la para que ela perca o estigma, o seu sentido ruim, maldoso...

Você tem filhos?
Tenho duas filhas e uma neta. Minha neta tem 13 anos, ela é gótica. Uma vez ela me disse: Existem filhas, mas não netas, então eu vou ser a primeira "neta da puta".

Sei, já lí entrevistas suas, de coisas que você não gosta nos homens: violência, grosserias etc. O que te incomoda em uma mulher? De que tipo de mulher você não gosta?
De mulheres que em 2006, em pleno século XXI, sigam ainda fiéis a essa cultura babaquinha do casamento como negócio. Das mulheres que trocam os homens a quem admiram, com quem têm ligações afetivas, intelectuais, dos homens com quem têm enormes afinidades, com quem sentem enorme prazer, por uma suposta estabilidade.

Por que te incomoda?
Porque já vivi, ainda mais na minha profissão, o suficiente para saber que quem troca tudo isso, que é uma dádiva quando se consegue, pela ilusão do casamento de negócio, da vida boa e fácil, está no caminho da infelicidade. Pode até conseguir riqueza, luxo, mas vai viver uma vida de frustrações e traições. Eu sou feliz por ter um homem como o Flávio, e não sei nem nunca quis saber quanto é que ele tem no banco.

Você foi ao São Paulo Fashion Week?
Não. Encontrei o Ronaldo Fraga na feira da Praça Benedito Calixto, me apresentaram a ele e convidei-o para o desfile da Daspu...

E o que ele disse?
Disse "ai que maravilha, você é da Daspu" e disse que, se desse, iria. Em novembro vamos fazer um evento em Belo Horizonte, algo ligado a Aids, e o Ministério da Saúde pensa em convidar o Ronaldo Fraga para participar.

 

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