Terra Magazine

 

Segunda, 31 de julho de 2006, 07h30

Agostar* em Paris

Fernando Eichenberg, em Paris

"Não encontrar o caminho numa cidade não quer dizer muito. Mas perder-se numa cidade, como nos perdemos numa floresta, exige toda uma prática", escreveu, certa vez, o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Perder-se nos caminhos de Paris no mês de agosto exige uma prática singular, pois a capital francesa adota contornos de cidade fantasma. Em determinadas horas do dia, se pode flanar em meio a grandes avenidas sem vislumbrar um carro sequer no horizonte. Errando por certos bairros, a impressão é de que a cidade foi evacuada por alguma ameaça de ataque bacteriológico e só você não foi avisado.

Padarias, bares, restaurantes, lojas, teatros cerram suas portas sem a menor culpa. Nas vitrines gradeadas até a calçada, os avisos de "período de férias anuais" parecem zombetear do veranista citadino, como se dissessem "azar o seu que ficou aqui para sofrer na canícula, pois nós estamos nos refrescando nas cristalinas águas mediterrânicas". No verão passado, permaneci solitário no meu prédio, nem a zeladora portuguesa ficou para me fazer companhia. Claro, em caso de solitude extrema, sempre haverá turistas a quem prestar informações diante da pirâmide do museu do Louvre ou em qualquer metro quadrado da avenida de Champs Elysées. Mas, mesmo os visitantes do verão passam raspando pela cidade, dão uma piscadela para a Mona Lisa, uma subidinha na torre Eiffel, compram algum perfume na Sephora e logo partem rumo a destinos menos desérticos, ao encontro das hordas praieiras.

O leitor mais atento às notícias deste lado de cá poderá estar se perguntando: "Mas, e a Paris Plage?". Sim, em agosto, Paris ganha uma praia artificial à beira do rio Sena, com toneladas de areia, palmeiras, espreguiçadeiras, piscina, chuveirinhos e nebulizadores d'água, canchas de bocha, áreas de bronzeamento e de massagem e outras atrações. Em números: 300 espreguiçadeiras, 240 guarda-sóis, 68 palmeiras e 2 mil toneladas de areia. O país em evidência este ano é a Polinésia Francesa, com direito a passeios de pirogas típicas, ateliês de artesanato e cursos de dança taitiana. Para completar, foi instalada uma piscina oficialmente batizada de "piscina flutuante Joséphine Baker", numa curiosa homenagem à cantora e dançarina nascida nos Estados Unidos e naturalizada francesa. Mas, pudor urbano oblige, uma lei municipal proibiu o uso de biquínis mais ousados na efêmera orla. Quem infringir a ordem, leva multa de 38 euros.

O balneário parisiense é um sucesso de público. No ano passado, foram registrados cerca de 4 milhões de visitantes. A idéia foi, inclusive, copiada por outras cidades, como Berlim, Budapeste, Londres e Roma. No início, usei o mesmo adjetivo constantemente evocado pelos europeus para designar os brasileiros, achei tudo aquilo "exótico". Praia em Paris, convenhamos. Mas, com o tempo, me disse, por que não? Afinal, é mais uma opção de lazer e diversão para os resistentes de agosto.

Dito isto, devo admitir que sou um veranista convicto de Paris. Não há nunca fila nos locais que permanecem abertos, nem hora do rush, os garçons são menos estressados e as mulheres mais álacres e despidas, há o cinema ao ar livre no Parc de La Villette e as quase 400 salas de projeção sempre à disposição, os terraços dos cafés, os piqueniques noturnos no canal Saint-Martin ou a lua cheia na Pont des Arts. Bom, é verdade que, por vezes, o termômetro excede, como tem ocorrido especialmente nestes dias escaldantes, e a cerveja nunca é suficientemente gelada como nos nossos saudosos trópicos, mas, enfim, não se pode exigir tudo.

O escritor italiano Italo Calvino (1923- 1985) notou, certa vez, que Paris era a paisagem interior de uma grande parte da literatura mundial, de muitos livros que todos lemos e que contaram muito em nossas vidas. Antes de ser uma cidade do mundo real, Paris, para ele, foi uma cidade imaginada por meio da leitura. No seu exílio parisiense, escreveu: "Eu poderia dizer que Paris é uma gigantesca obra de consulta. Uma cidade que se consulta como uma enciclopédia: desde a primeira página, ela fornece toda uma série de informações, de uma riqueza inigualável a qualquer outra cidade".

Mas, para agosto em Paris, talvez a leitura mais apropriada seja a do filósofo romeno E. M. Cioran. Emil Michel Cioran nasceu em 1911, na Transilvânia, em 1947 se instalou em Paris e, para se liberar de seu passado, renunciou à língua materna e passou a escrever somente em francês. Morreu na capital francesa em 21 de junho de 1995, aos 84 anos. Não faz muito, a editora Gallimard lançou uma antologia de seus escritos de juventude. As 434 páginas de Solitude et destin antecipam o provocador pensador, mais tarde definido como esteta da desesperança, niilista desencantado, arauto da melancolia ou pessimista incondicional. Aos seus 20 anos, já se notam as raízes de seu estilo corrosivo e percuciente; o gosto pelo paradoxo, a ironia, os silogismos e aforismos; o sombrio romantismo e o ódio às ideologias; seu anticristianismo feroz, a afirmação da tragédia humana e a descrença na História.

"Quando nos damos conta de que tudo é vão, mas que, absurdamente, continuamos a amar a vida, é preciso se decidir a realizar um gesto, uma ação. Pois, é melhor se destruir no frenesi do que na neutralidade. É quase impossível viver de forma neutra, de considerar como um espectador esta terra maldita e adorada", escreveu o jovem Cioran, aos 24 anos. "Não compreendo como pode haver neste mundo pessoas indiferentes, almas que não se atormentam, corações que não queimam, olhos que não choram. Declaremos falsas todas as verdades que não nos fazem mal e falsos todos os princípios que não nos inflamam. Que nosso verbo lance raios e que nossos argumentos sejam flamas!", disparava, em plena incandescência juvenil.

No fundo, todo problema da cultura e do espírito é o do homem e de seu destino, constata o jovem pensador, aos 21 anos. O sofrimento nos ajuda a compreender o mundo mais do que o entusiasmo, acrescentava, concluindo em embrionária lógica ciorana: "Os homens que meditam sobre a morte não podem ser que resignados; aqueles que meditam sobre a vida não podem ser que céticos". Para o filósofo, não há outra ética do que a do sacrifício. Com ironia refinada, já dizia, aos 22 anos: "Indigno-me com a idéia de ninguém até agora morreu de alegria. Mas, talvez, seja preciso ter sofrido muito para morrer de alegria". O sofrimento é a escola da tolerância, defendia, ao mesmo tempo em que atacava o moralismo excessivo das religiões, responsáveis "pela destruição da espontaneidade irracional e do elã indefinido da vida".

Mais tarde, passados seus 70 anos, confessou: "Sempre vivi em contradições e nunca sofri por isto. Sempre encarei as contradições como elas vinham, tanto na minha vida privada como teórica". Cioran admitia não somente ter aceito o caráter insolúvel das coisas, mas, inclusive, encontrado uma certa "voluptuosidade do insolúvel".

Aos 26 anos, aquele cuja única ambição intelectual era a de se tornar um "pessimista pensador de boulevard", afirmava: "Há na vida algo da histeria de uma primavera terminal. Um caixão suspenso nas estrelas, uma inocência em putrefação, um vício floral. Esta mistura de cemitério e de paraíso...". Do puro Cioran em pleno agostar parisiense.

*agostar: murchar ou tornar-se murcho com o calor ou por falta de umidade. (Dicionário Houaiss, pág. 118)


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há nove anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros.
 

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